Brock pegou a campainha na mesa e a tocou com veemência. O som ecoou nas paredes. Quando a porta não se abriu imediatamente, tocou de novo.
— Aquele maldito macaco — disse. — Vai precisar de um bom chute no traseiro.
Aproximou-se do barril de cerveja e, após tornar a encher seu canecão, sentou-se outra vez e observou Struan. E esperou.
— De que se trata? — disse Brock, afinal.
— De Tess Brock.
— Hein? — Brock ficou pasmado com o fato de Struan querer precipitar a decisão com relação à que ele e, sem dúvida, também Struan, se haviam atormentado por tantas noites.
— Meu filho está apaixonado por ela.
Brock deu mais alguns goles na cerveja e enxugou a boca outra vez.
— Eles só se encontraram uma vez. No baile. Depois, houve passeios à tarde, com Liza e Lilibeth. Três.
— Sim. Mas ele está apaixonado por ela. Tem certeza de que está apaixonado por ela...
— Você tem certeza?
— Sim.
— E qual a sua impressão?
— De que é melhor falarmos sobre o assunto. Abertamente.
— Por que agora? — perguntou Brock, com suspeita, sua mente tentando descobrir a verdadeira resposta. — Ela é muito jovem, como sabe.
— Sim. Mas tem idade suficiente para casar.
Brock, pensativamente, brincava com o canecão, olhando para seu reflexo na prata polida. Ficou imaginando se decifrara corretamente Struan.
— Você está pedindo formalmente a mão de Tess para seu filho?
— É dever dele, não meu... fazer o pedido formal. Mas precisamos conversar informalmente. Primeiro.
— O que você pensa? — perguntou outra vez Brock. — Dessa união?
— Você já sabe. Sou contra. Não confio em você. Não confio em Gorth. Mas Culum pensa por si e ele se impôs a mim, e um pai não pode sempre fazer o filho agir como ele quer.
Brock ficou pensando a respeito de Gorth. Sua voz estava áspera, quando ele falou.
— Se você é tão contra ele, então meta um pouco de senso em sua cabeça ou então o mande embora para a Inglaterra, embarque-o. É fácil se livrar daquele jovem janota.
— Você sabe que estou preso numa armadilha — disse Struan, com amargura. — Você tem três filhos — Gorth, Morgan, Tom. Só tenho Culum, agora. Então, é ele quem tem de me suceder.
— Há Robb e seus filhos — disse Brock, satisfeito por ter interpretado corretamente o pensamento de Struan, e brincando com ele, agora, como se fosse um peixe no anzol.
— Você sabe a resposta para isso. Fiz a Casa Nobre, não foi Robb. O que você acha, hein?
Brock esvaziou o canecão, pensativamente. Outra vez, tocou a sineta. E, outra vez, nenhuma resposta.
— Eu vou fazer das tripas daquele macaco jarreteiras! — Levantou-se e começou a encher de novo seu canecão. — Também sou contra a união — disse Brock, asperamente. Viu um relâmpago de surpresa no rosto de Struan. — Mesmo assim — acrescentou Brock
— aceitarei seu filho, quando ele me pedir.
— Eu achei que aceitaria, por Deus! — Struan levantou-se, com os punhos cerrados.
— O dote dela será o mais rico da Ásia. Eles se casarão no próximo ano.
— Primeiro, quero ver você no inferno.
Os dois homens se encararam, agourentamente.
Brock viu o mesmo rosto cinzelado de há trinta anos, com a mesma vitalidade impregnando-o. A mesma qualidade indefinível que fazia todo seu ser reagir tão violentamente. Por Jesus Nosso Senhor, praguejou, não entendo como Vós pusestes este demônio em meu caminho. Só sei que o pusestes aí para ser destruído.
— Mais tarde, Dirk — disse ele. — Primeiro, eles se casam, tudo certinho. Você está numa armadilha, é certo. Não por minha causa, não fui eu quem atirou este mau pagode em sua cara. Mas andei pensando muito... como você... a respeito dos dois e de nós, e acho que é melhor para eles e melhor para nós.
— Sei o que tem em mente. E Gorth também.
— Quem sabe o que acontecerá, Dirk? Talvez haja uma fusão, no futuro.
— Enquanto eu estiver vivo, não.
— Por outro lado, talvez não haja fusão, e você conserva o que é seu e nós o que é nosso.
— Você não vai tomar a Casa Nobre e destruí-la, usando as saias de uma moça!
— Agora, me escute, por Deus! Você foi quem começou toda essa conversa! E disse para se falar abertamente, e eu não acabei. Então, você vai escutar, por Deus! A não ser que tenha perdido a coragem, como perdeu as boas maneiras e a cabeça.
— Está bem, Tyler. — Struan se serviu de outro conhaque, — Diga o que tem na cabeça. Brock relaxou um pouco, sentou-se e emborcou sua cerveja.
— Eu o odeio, e sempre odiarei. Também não confio em você. Estou mortalmente cansado de matar, mas juro por Jesus Cristo que o matarei, no dia em que o vir caminhando contra mim com um chicote na mão. Mas não vou começar essa briga. Não. Não quero matar você, só botar você nos eixos. Mas andei pensando que talvez os mais moços estejam endireitando o que nós... o que nós não pudemos endireitar. Então eu digo, seja o que tiver de ser. Se houver uma fusão, então haverá uma fusão. Vai depender deles... e não de mim e de você. Se não houver fusão... que eles também decidam isso. O que fizeram dependerá deles. Não de nós. Então eu digo que o casamento é bom.
Struan esvaziou seu copo e o empurrou sobre a mesa.
— Nunca pensei que você fosse tão desalmado a ponto de usar Tess, quando é tão contra a união quanto eu. Brock tornou a olhar para ele, sem raiva, agora.
— Não estou usando Tess, Dick. Esta é a verdade, diante de Deus. Ela está amando Culum, e esta é a mortal verdade. É a única razão por que estou falando assim. Estamos ambos na armadilha. Vamos dizer o óbvio. Ela é como Julieta, para seu Romeu, sim, por Deus, e é disso que eu tenho medo. E você também, se considerarmos a verdade. Eu não quero que a minha Tess acabe numa tumba de mármore porque eu o odeio. Ela o ama. E estou pensando nela!
— Não acredito nisso.
— E nem eu, por Deus! Mas Liza já me falou mais de meia dúzia de vezes a respeito de Tess. Ela disse que Tess está sonhando, suspirando e conversando a respeito do baile, mas só por causa de Culum. Tess já falou mais de dezesseis vezes ou mais a respeito do que Culum disse e Culum deixou de dizer, e o que ela disse a Culum, e como Culum estava ou deixava de estar, o que ele respondeu, até eu quase estourar. Ah, sim, ela o ama.
— Amor de adolescente. Não significa nada.
— Pelo Senhor Jesus Cristo, você é um homem duro de se convencer das coisas. Você está errado, Dirk. — Brock de repente se sentiu muito cansado e muito velho. Queria acabar com isso. — Se não fosse o baile, jamais teria acontecido. Você a escolheu para abrir a dança. Você a escolheu para ganhar o prêmio. Você...
— Eu não! A escolha foi de Zergeyev, não minha!
— Isso é verdade, por Deus?
— Sim.
Brock olhou demoradamente para Struan.
— Então talvez haja a mão de Deus nisto tudo. Tess não era a mais bem-vestida do baile. Eu sabia disso, todos sabiam disso, menos Culum e Tess. — Ele acabou seu canecão, e o depôs. — Eu lhe faço uma oferta: você não ama Culum como eu amo Tess, mas dê aos dois um bom vento, mar aberto e porto seguro, e eu farei a mesma coisa. O rapaz merece isso... ele salvou seu pescoço naquela questão do outeiro, porque, juro por Cristo que eu o teria estrangulado, por causa daquilo. Se é uma briga que você quer, você tem. Se eu conseguir um instrumento para quebrar você juro por Cristo que ainda quebro. Mas não aqueles dois. Vamos dar a eles bom vento, mar aberto e porto seguro, que Deus seja testemunha, hein?
Brock estendeu a mão.
A voz de Struan estava irritada.
— Vou apertar por Culum e Tess. Mas não por Gorth.
A maneira como Struan disse “Gorth” deu calafrios em Brock. Mas ele não retirou sua mão, embora soubesse que o acordo estava cheio de perigos. Apertaram-se as mãos, com firmeza.