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— Vamos tomar mais uma bebida, para deixar as coisas bem firmadas — disse Brock — e então você pode ir para o inferno. — Ele pegou a sineta, tocou pela terceira vez e, quando ninguém apareceu, atirou-a contra a parede. — Lee Tang! — rugiu.

Sua voz teve um eco estranho.

Houve o som de passos a subir correndo a grande escadaria e o rosto assustado de um funcionário português apareceu.— Os criados todos desapareceram, senhor. Não consigo encontrá-los em parte alguma.

Struan correu para a janela. Os vendedores ambulantes, tendeiros, transeuntes e mendigos saíam silenciosamente da praça. Grupos de negociantes no jardim inglês estavam em pé, completamente imóveis, escutando e observando.

Struan virou-se e correu para os mosquetes e ele e Brock chegaram ao armeiro no mesmo instante.

— Mande todos descerem! — gritou Brock para o funcionário.

— Na minha feitoria, Tyler. Faça soar o alarma — disse Struan, e foi embora.

***

Dentro de uma hora, todos os negociantes e seus funcionários estavam aglomerados na feitoria de Struan e no jardim inglês, que ficava em frente. O destacamento de cinqüenta soldados estava armado, em posição de combate, junto ao portão. Seu oficial, o Capitão Oxford, mal completara vinte anos, e era um rapaz esguio e elegante, com um fino bigode louro.

Struan, Brock e Longstaff estavam no centro do jardim. Jeff Cooper e Zergeyev se encontravam próximos. A noite estava úmida, quente e pressaga.

— É melhor ordenar uma evacuação imediata, Excelência — disse Struan.

— Sim — concordou Brock.

— Não há necessidade de nos precipitarmos, cavalheiros — disse Longstaff. — Isto já aconteceu antes, não foi?

— Sim. Mas sempre tivemos algum tipo de advertência, da Co-hong ou dos mandarins. Jamais foi assim tão repentino. — Struan escutava atentamente os ruídos da noite, mas seus olhos contavam as lorchas ancoradas no cais. Bastantes para todos, pensou. — Não gosto do jeito da noite.

— Nem eu, por Deus — Brock cuspiu, furiosamente. — Vamos embarcar, eu digo.

— Não pensam, é claro, que haja algum perigo? — disse Longstaff.

— Não sei, Excelência. Mas algo me diz para sair daqui — disse Struan. — Ou, pelo menos, para embarcar. O comércio terminou, esta temporada, então podemos ir embora ou ficar, como preferirmos.

— Mas eles não ousariam nos atacar — zombou Longstaff. — Por que iriam fazer isso? O que ganhariam? As negociações estão indo tão bem. Ridículo.

— Estou apenas sugerindo que ponhamos em prática aquilo que está sempre dizendo, Excelência: é melhor estar preparado para qualquer eventualidade. Longstaff fez um sinal contrafeito para o oficial.

— Divida seus homens em três grupos. Guarde as entradas a leste e oeste e a Rua Hong. Impeça o acesso à praça até novas ordens.

— Sim, senhor.

Struan viu Culum, Horatio e Gorth juntos, perto de uma lanterna. Gorth explicava a Culum como carregar um mosquete, e o segundo ouvia atentamente. Gorth parecia forte, cheio de vitalidade e poderoso, perto de Culum. Struan desviou o olhar e viu Mauss nas sombras, conversando com um chinês alto a quem Struan jamais vira. Curioso, Struan se aproximou.

— Ouviu alguma coisa, Wolfgang?

— Não, Tai-Pan. Nenhum boato, nada. Horatio também não. Gott im Himmel, não entendo.

Struan examinava o chinês. O homem usava sujas roupas de camponês e parecia estar no início da casa dos trinta. Seus olhos tinham grossas pálpebras e eram penetrantes, e ele examinava Struan com igual curiosidade.

— Quem é ele?

— Hung Hsu Ch'un — disse Wolfgang, com muito orgulho. — Ele é Hakka. É batizado, Tai-Pan. Eu o batizei. É o melhor que eu já tive, Tai-Pan. Inteligente, estudioso e, entretanto, um camponês. Afinal, tenho um convertido, que espalhará a palavra de Deus... e me ajudará em Seu trabalho.

— É melhor dizer a ele que vá embora. Se houver problemas e os mandarins o pegarem conosco, você terá um convertido de menos.

— Eu já disse, mas ele respondeu: “Os caminhos do Senhor são estranhos e os homens de Deus não viram as costas para os pagãos.” Não se preocupe. Deus o protegerá e eu cuidarei dele com o risco de minha própria vida.

Struan fez um aceno de cabeça para o homem e voltou para junto de Longstaff e Brock.

— Eu vou para bordo — disse Brock — sem a menor dúvida.

— Tyler, mande Gorth e os homens dele reforçarem os soldados, ali. — Struan apontou para o centro da Rua Hong. — Eu irei para leste e darei cobertura a vocês, se houver problema. Você Pode recuar para cá.

— Cuide dos seus — disse Brock — que eu cuidarei dos meus. Você não é comandante-chefe, por Deus. — Fez sinal a Gorth. — Venha comigo. Almeida, você e o restante dos funcionários vão pegar os livros e se dirijam para bordo. — Ele e seu grupo saíram do jardim e atravessaram a praça.

— Culum!

— Sim, Tai-Pan?

— Limpe o cofre e vá para bordo da lorcha.

— Está bem. — Culum baixou a voz. — Falou com Brock?

— Sim. Agora não, rapaz. Depressa. Conversaremos mais tarde.

— Foi sim ou não?

Struan sentiu que os outros o observavam e, embora quisesse muito dizer a Culum o que fora conversado, o jardim não era o lugar para aquilo.

— Pela morte de Cristo, quer fazer o que eu lhe disse?

— Quero saber — disse Culum, com os olhos em brasa.

— E eu não estou preparado para, discutir seus problemas agora. Faça o que eu lhe disse! — Struan saiu correndo para a porta da frente. Jeff Cooper o deteve.

— Por que evacuar? Qual o motivo de toda essa pressa, Tai-Pan? — ele perguntou.

— Só cautela, Jeff. Você tem uma lorcha?

Sim.

— Ficarei satisfeito em dar espaço a qualquer um de seus homens que não tenha onde ficar. — Struan olhou para Zergeyev. — A vista do rio é bastante agradável, Alteza, se quiser vir conosco.

— Você sempre corre, quando a praça se esvazia e os criados desaparecem?

— Só quando tenho vontade. — Struan voltou, abrindo caminho entre a massa de homens. — Vargas, traga os livros para bordo, e todos os funcionários. Armados.

— Sim, senhor.

Quando os outros negociantes viram que Struan e Brock se preparavam para uma rápida retirada, apressadamente voltaram para suas feitorias, reuniram seus livros, registros de embarques e tudo que representava prova de suas temporadas de comércio — e, portanto, de seu futuro — e começaram a colocar tudo em seus barcos. Havia poucos tesouros com que se preocupar, pois a maior parte do comércio era feita com letras de câmbio — Brock e Struan já haviam mandado suas barras de prata de volta para Hong Kong.

Longstaff limpou sua escrivaninha particular e colocou seu livro de código e papéis secretos na caixa de despachos, unindo-se em seguida a Zergeyev, no jardim.

— Já fez as malas, Alteza?

— Não há nada de importância. Acho tudo isso extraordinário. Ou há perigo, ou não há. Se há perigo, por que seus soldados não estão aqui? Se não há nenhum, por que correr?

Longstaff riu.

— A mentalidade dos pagãos, meu caro senhor, é muito diferente da civilizada. O Governo de Sua Majestade lida com ela há mais de um século. Então, aprendemos a tratar dos negócios chineses. Claro — acrescentou, secamente — não estamos preocupados com a conquista, apenas com o comércio pacífico. Muito embora consideremos que esta área se encontra sob total influência britânica.

***

Struan examinava seu cofre, verificando se todos os papéis vitais estavam a bordo.

— Já fiz isso — disse Culum, ao entrar, pesadamente, no aposento, e bater a porta.

— Agora, qual foi a resposta, por Deus?

— Você está noivo — disse Struan, brandamente — por Deus! Culum ficou estupefato demais para conseguir falar.