Zergeyev girou sobre si mesmo e caiu no chão.
Gorth pegou outro mosquete, mas Brock subiu correndo para a popa.
— Vá para a frente e ocupe posição junto aos canhões dianteiros! — gritou. — Não haverá tiros, até eu ordenar! — Empurrou Gorth, rugindo para seus homens. — Virem esse timão, por Deus! Soltem as rizes, vamos seguir a todo pano!
Ele olhou em direção à terra e viu Struan e Longstaff curvados sobre Zergeyev, com Culum ao lado dele, e a multidão investindo em direção a eles. Agarrou o mosquete que Gorth deixara cair, fez pontaria e disparou. Um dos líderes tombou e a multidão hesitou.
Struan içou Zergeyev num ombro.
— Disparem por sobre as cabeças deles! — ordenou.
Seus homens deram a volta, colocando-se em posições protetoras, e dispararam um tiro à queima-roupa. Os chineses que estavam à frente recuaram e os que se encontravam atrás fizeram pressão para a frente. A confusão histérica que se seguiu deu a Struan e aos seus homens tempo suficiente para chegarem ao barco.
Mauss estava esperando no cais, junto à lorcha, com o estranho convertido chinês nas imediações. Ambos se achavam armados. Mauss tinha uma Bíblia numa das mãos e uma espada na outra, e gritava:
— Bendito seja o Senhor, que Ele perdoe esses pobres pecadores. — Perfurava o ar com a lâmina e a multidão evitava-o.
Quando estavam todos a bordo e a lorcha no meio das águas, olharam para trás.
Toda a Colônia estava em chamas. As labaredas dançantes, a fumaça aos jorros e os
gritos diabólicos, tudo se misturava num verdadeiro inferno. Longstaff encontrava-se ajoelhado junto a Zergeyev, este deitado no tombadilho. Struan correu para eles.
— Vá para a frente! — rugiu para Mauss. — Fique de vigia!
Zergeyev estava branco de susto e segurava o lado direito da virilha. Sangue gotejava sob sua mão. Os criados gemiam de terror. Struan empurrou-os, para tirá-los do caminho, e rasgou a frente das calças de Zergeyev. Cortou a perna da calça. A bala de mosquete cortara fundo o estômago, obliquamente, descendo até uma fração de polegada acima de seu sexo, e depois entrara na coxa direita. O sangue escorria muito, mas não jorrava. Struan agradeceu a Deus porque a bala não havia perfurado o estômago, como pensara. Virou Zergeyev e o russo sufocou um gemido. A parte posterior de sua coxa estava ferida e sangrenta, no ponto em que a bala saíra. Struan, cautelosamente, sondou a ferida e tirou um pequeno pedaço de osso quebrado.
— Pegue lençóis, conhaque e um braseiro — gritou Struan para um marinheiro. — Alteza, pode movimentar sua perna direita?
Zergeyev mudou-a ligeiramente de posição e piscou de dor, mas a perna se moveu.
— Seu quadril está bem, eu acho, rapaz. Fique quieto, agora.
Quando os cobertores foram trazidos, envolveu neles Zergeyev e acomodou-o mais confortavelmente no assento atrás do timoneiro, dando-lhe, em seguida, conhaque.Quando o fogareiro chegou, Struan expôs a ferida ao ar e inundou-a com conhaque. Aqueceu sua faca nos carvões do braseiro.
— Segure-o, Will! Culum, ajude aqui. — Eles se ajoelharam, Longstaff junto aos pés, e Culum à cabeça.
Struan colocou a faca em brasa na ferida dianteira, o conhaque se inflamou e Zergeyev desmaiou. Struan cauterizou a ferida da frente e fez nela uma sondagem profunda e rápida, querendo agir bem rápido, agora que Zergeyev estava inconsciente. Ele
o virou e fez nova sondagem. O.cheiro de carne queimada encheu o ar. Longstaff voltouse para o lado e vomitou, mas Culum resistiu e ajudou, até Longstaff tornar à posição anterior.
Struan tornou a aquecer a faca e despejou mais conhaque sobre o ferimento posterior, cauterizando-o em seguida de maneira profunda e completa. Sua cabeça doía com o mau cheiro e o suor escorria-lhe pelo queixo, mas suas mãos estavam firmes e ele sabia que, se não realizasse a queima com cuidado, o ferimento apodreceria e Zergeyev, certamente, morreria. Com tal ferida, nove entre dez homens morreriam.
Então, ele terminou sua tarefa.
Pôs ataduras em Zergeyev e lavou a própria boca com conhaque; seus eflúvios afastaram o cheiro de sangue e de carne queimada. Então ele deu grandes goles e examinou Zergeyev. Seu rosto estava acinzentado e lívido.
— Agora, ele está entregue ao seu próprio pagode — disse. — Você está bem, Culum?
— Sim. Acho que sim.
— Desça. Providencie rum quente para todos os homens. Verifique os abastecimentos. Você é o número dois a bordo, agora. Distribua tarefas para todos.
Culum saiu da popa.
Os dois criados russos estavam ajoelhados ao lado de Zergeyev. Um deles tocou
Struan e falou entrecortadamente, tudo indicava que estava lhe agradecendo. Struan lhes fez sinal para que ficassem junto de seu amo. Ele se espichou, cansadamente, colocou a mão no ombro de Longstaff, afastando-o, e se curvou sobre o ouvido de Longstaff.
— Viu mosquetes entre os chineses? Longstaff abanou a cabeça.
— Nenhum.
— E nem eu — disse Struan.
— Havia armas disparando por toda parte. — Longstaff estava pálido e muito preocupado. — Um desses acidentes infelizes. Struan nada disse, por um momento.
— Se ele morrer, haverá grandes problemas, hein?
— Vamos esperar que não morra, Dirk. — Longstaff mordeu o lábio. — Terei de avisar imediatamente do acidente o Ministro de Relações Exteriores. Vou ter de abrir um inquérito.
— Sim.
Longstaff olhou para o rosto cinzento como o de um cadáver. A respiração de Zergeyev era fraca.
— Que coisa mais aborrecida, não é?
— Pela posição do ferimento, e de onde ele estava quando caiu, não há dúvida de que a bala partiu de um dos nossos.
— Foi um desses infelizes acidentes.
— Sim. Mas a bala pode ter sido disparada com pontaria.
— Impossível. Quem iria querer matá-lo?
— Quem iria querer matar você? Ou Culum? Ou talvez eu? Estávamos todos muito próximos.
— Quem?
— Tenho uma dúzia de inimigos.
— Brock não mataria você a sangue-frio.
— Eu nunca disse isso. Ofereça uma recompensa a quem der informações. Alguém pode ter visto algo.
Juntos, observaram a Colônia. Estava bem distante, à popa, agora — apenas chamas e fumaça sobre os telhados de Cantão.
— É uma loucura uma pilhagem assim. Jamais aconteceu antes. Por que eles fariam isso? Por quê? — perguntou Longstaff.
— Não sei.
— Logo que chegarmos a Hong Kong, iremos para o norte... desta vez para os portões de Pequim, por Deus. O imperador vai lamentar muito ter ordenado isso.
— Sim. Mas, primeiro, organize um ataque imediato contra Cantão.
— Mas é uma perda de tempo, não é?
— Ataque ainda esta semana. Você não terá tempo de comunicar o fato ao nosso país. Sitie Cantão, outra vez. Seis milhões de taéis de resgate.
— Por quê?
— Você precisa de um mês ou mais para aprontar a frota, a fim de atacar o norte. O tempo não está bom ainda. Terá de esperar até os reforços chegarem. Quando deverão estar aqui?
— Dentro de um mês, ou de seis semanas.
— Ótimo. — O rosto de Struan se endureceu. — Enquanto isso, a Co-hong terá de encontrar seis milhões de taéis. Isto lhes ensinará a não nos fazerem advertências, por Deus! Você terá de fincar a bandeira aqui, antes de ir para o norte, senão perderemos prestígio. Se eles queimam a Colônia e tudo fica por isso mesmo jamais teremos segurança, no futuro. Ordene ao Nemesis que permaneça ao largo da cidade. Um ultimato de doze horas, senão você deixará Cantão em ruínas.
Zergeyev gemeu, e Struan se aproximou dele. O russo ainda estava em estado de choque, quase inconsciente.