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Então Struan notou o chinês convertido de Mauss observando-o. O homem estava em pé no convés superior, ao lado da amurada a estibordo. Ele fez o sinal-da-cruz sobre Struan e fechou os olhos, começando silenciosamente a rezar.

CAPÍTULO VINTE E SETE

Struan pulou do escaler sobre o novo cais da companhia, na Cidade da Rainha, e correu sobre ele em direção ao grande prédio de três andares, quase pronto. Sua coxeadura estava mais pronunciada, sobre o céu branco de calor. O Leão e o Dragão drapejavam no alto do mastro.

Notou que muitos prédios e casas menores estavam prontos, por todo Vale Feliz, e começara a edificação da igreja, sobre o outeiro; o ancoradouro de Brock, do outro lado da baía, estava concluído e a feitoria adjacente quase pronta. Outros prédios e residências ainda se encontravam envoltos por altos andaimes de bambu. A Estrada da Rainha era pavimentada com pedras.

Mas havia muito poucos cules trabalhando, embora a tarde mal começasse. O dia estava quente e muito úmido. Um agradável vento leste principiava a tocar o vale, levemente.

Entrou no saguão principal do prédio com a camisa colada às costas. Um funcionário português suado ergueu os olhos, espantado.

Madre de Deus, Sr. Struan! Bom-dia, senhor. Não o esperávamos.

— Onde está o Sr. Robb?

— Lá em cima, senhor, mas lá...

Mas Struan já subia a escada correndo. O corredor do primeiro andar levava para norte, leste e oeste, dentro das profundezas do edifício. Muitas janelas davam para o mar e outras para a terra. A frota estava silenciosamente ancorada, e sua lorcha fora a primeira a voltar de Cantão.

Virou-se para leste e passou pela sala de jantar ainda não finada, com o ruído de seus passos provocando um efêmero eco na pedra não carpetada. Bateu numa porta e abriu-a.

A porta dava para uma espaçosa suíte. Estava apenas meio mobiliada — cadeiras, sofás, chão de pedra e pinturas de Quance na parede, belas tapeçarias, uma lareira vazia. Sarah estava sentada numa cadeira de encosto alto, junto a uma das janelas, com um leque de treliça de bambu na mão. Olhava para ele.

— Olá, Sarah.

— Olá, Dirk.

— Como vai Karen?

— Karen está morta.

Os olhos de Sarah eram azul-pálido e firmes, seu rosto estava corado e lustroso de suor. Seu cabelo tinha mechas brancas em torno das feições envelhecidas.

— Sinto muito, sinto muito — ele disse.

Sarah se abanava, distraidamente. A leve brisa causada pelo leque impeliu sobre seu rosto alguns fios de cabelo liso, mas ela não os afastou.

— Quando aconteceu? — ele perguntou.

— Há três dias. Talvez dois — ela disse, com a voz impassível. — Eu não sei.

O leque continuava a se movimentar, para adiante e para trás, como se tivesse mobilidade própria.

1.— E o menino?

2.— Ainda vivo. Lochlin ainda está vivo.

3.Struan limpou uma gotícula de suor do queixo, com os dedos.

— Somos os primeiros a voltar de Cantão. Incendiaram a Colônia. Recebemos a carta de Robb pouco antes de partirmos. Acabei de chegar.

— Eu vi seu escaler chegar à praia — ela disse.

— Onde está Robb? — ele perguntou. Ela fez sinal com o leque para uma porta e ele observou a magreza de seus pulsos estriados de veias azuis. Struan entrou no quarto de dormir. O aposento era amplo e a cama de armação, com dossel, havia sido feita com um desenho especial.

Robb jazia na cama, com os olhos fechados, o rosto cinzento e emaciado sobre o travesseiro manchado de suor.

— Robb? — chamou Struan. Mas seus olhos não se abriram, e ele tinha os lábios entreabertos. A alma de Struan se contorceu.

Tocou o rosto do irmão. Frio. A frieza da morte.

Um cão latiu próximo, e uma mosca adejou de encontro á vidraça. Struan virou-se e saiu do quarto, fechando silenciosamente .a porta. Sarah ainda estava sentada na cadeira de encosto alto. O leque se movimentava, lentamente. Para adiante e para trás. Para adiante e para trás. Ele a odiou, por não ter-lhe dito.

— Robb morreu há uma. hora — ela falou. — Há duas ou três horas, ou uma hora. Não me lembro. Antes de morrer, ele me deu um recado para você. Foi hoje de manhã, eu acho. Talvez de noite. Acho que foi esta manhã. Robb falou: “Diga a Dirk que eu nunca quis ser Tai-Pan.”

— Farei os acertos necessários, Sarah. É melhor você e os meninos irem para bordo do Resting Cloud.

— Eu fechei os olhos dele. E fechei os olhos de Karen. Quem vai fechar seus olhos, Tai-Pan? E quem fechará os meus?

***

Ele tomou as providências e, depois, subiu a pequena elevação que conduzia à sua casa. Estava pensando no primeiro dia em que Robb chegara a Macau.

— Dirk! Todos os seus problemas acabaram, eu cheguei! — dissera Robb, com seu maravilhoso sorriso. — Vamos destruir a Companhia das índias Orientais e esmagar Brock. Seremos verdadeiros nobres e iniciaremos uma dinastia que governará a Ásia para sempre! Há uma moça com quem vou casar! Sarah McGlenn. Tem quinze anos agora e me foi prometida. Vamos nos casar dentro de dois anos.

Diga-me, meu Deus, perguntou Struan, o que fizemos de errado? Como aconteceu? Por que as pessoas mudam? Por que as brigas, a violência, o ódio e a dor nascem da doçura, juventude, ternura e amor? E por quê? Assim acontece sempre. Com Sarah. Com Ronalda. E será a mesma coisa com Culum e Tess. Por quê?

Ele estava no portão do muro alto que rodeava sua casa. Abriu-o e olhou para a casa. Tudo estava silencioso: agourentamente silencioso. A palavra “malária” passou-lhe pela mente. Um vento leve mexeu com os altos bambus. O jardim estava bem plantado, agora: flores, arbustos, com abelhas em torno.

Subiu as escadas e abriu a porta. Mas não entrou logo. Ficou à escuta, no degrau de entrada. Não havia nenhuma risada de boas-vindas, e nem se ouvia a abafada ladainha da conversa dos criados. A casa parecia vazia.

Ele olhou para o barômetro — 29.8, bom tempo. Seguiu lentamente pelo corredor, o ar estranhamente carregado de incenso. Notou poeira onde não havia nenhuma, antes. O quarto das crianças se encontrava vazio. Nem camas e nem brinquedos.

Então, ele a viu através das janelas. Ela vinha do lado escondido do jardim, com flores cortadas na mão e uma sombrinha alaranjada a lhe proteger o rosto. Logo ele estava do lado de fora, e a apertava nos braços.

— Pelo sangue de Cristo, Tai-Pan, você esmagou minhas flores. — May-may depôs as flores e passou-lhe os braços pelo pescoço. — De onde você vem, hein? Tai-Pan, você está me apertando com força demais! Por favor. Por que está com uma cara tão estranha?

Ele a carregou e sentou-a num banco, ao sol. Ela ficou satisfeita em seus braços, feliz com a força dele e com o seu alívio ao vê-la. Sorriu para ele.

1.— Ah, sim. Você sentiu uma falta louca de mim, hein?

2.— Sim. Senti uma falta louca de você.

— Ótimo. Por que está infeliz? E por que, quando vejo você, você está sempre como quem viu um fantasma?

— Problemas, May-may. E pensei que tinha perdido você. Onde estão as crianças?

— Em Macau. Mandei-as para a casa de Chen Sheng, a fim de que a Irmã Mais Velha tomasse conta delas. Quando a febre começou, achei que isto seria aconselhável. Mandei-as com Marrr-rry Sinclair. Por que pensou que me tinha perdido, hein?

— Por nada. Quando as crianças partiram?

— Há uma semana. Marrr-rry ia tomar conta delas. Ela volta amanhã.

— Onde estão Ah Sam e Lim Din?

— Mandei os dois comprarem comida. Quando vimos sua lorcha, eu pensei, ayeee yah, a casa está terrivelmente suja e sem comidas, e então mandei que limpassem a casa depressa e fossem comprar comida, não se preocupe. — Ela atirou a cabeça para Irás. — Aqueles imprestáveis preguiçosos precisam de uma surra. Estou muito feliz por você ter voltado, Tai-Pan, ah, sim. O preço de tudo aumentou e não tenho dinheiro, então você precisa me dar mais, porque sustento todo clã de Lim Din e de Ah Sam. Ah, não me incomodo com a família deles, mas o clã inteiro? Mil vezes não, por Deus! Somos ricos, sim, mas não tão ricos assim, e precisamos guardar nossa riqueza, senão logo ficaremos sem tostão! — Ela franziu a testa, observando-o. — Que problemas?