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Então, todas as pessoas gemiam alto, com os pranteadores, gozando muitíssimo o drama da morte, abençoando seu pagode por estarem vivos para prantear, para comer, para fazer amor, para ganhar dinheiro, para se tornar, talvez — com pagode — igualmente ricos e assim terem um prestígio tão colossal na morte, perante os seus vizinhos.

Gordon Chen acompanhou o cortejo. Estava muito solene e rasgou as roupas — mas com grande dignidade — e lamentou bem alto, perante os deuses, a grande perda que sofrera. O Rei dos Mendigos o acompanhou e, assim, ambos ganharam prestígio. E os deuses sorriram.

***

Quando o túmulo estava cheio com a seca terra estéril, Struan acompanhou Sarah ao escaler.

— Irei a bordo esta noite — disse.

Sem responder, Sarah sentou-se à popa do bote e virou as costas à ilha.

Quando o cúter ganhava distância, Struan dirigiu-se para o Vale Feliz.

Mendigos e cules com liteiras infestavam a rodovia. Mas não incomodaram o Tai-Pan; ele continuara a pagar o imposto mensal ao Rei dos Mendigos. Struan viu Culum sentado ao lado de Tess, no meio de todo o clã de Brock. Ele se aproximou do grupo e tirou o chapéu, cortesmente, para as senhoras. Olhou para Culum.

— Quer me acompanhar, Culum?

— Decerto — disse Culum.

Ele não falara com o pai desde a volta dos dois — inclusive a respeito de coisas importantes, como a maneira pela qual a morte de tio Robb afetaria seus planos, ou quando o noivado seria oficializado. Não era mais segredo que ele pedira, formalmente, a mão de Tess, em Whampoa, após a retirada de Cantão, e fora mal-humoradamente aceito. Também não era segredo que, por causa da repentina tragédia, os planos para o anúncio do compromisso haviam sido adiados.

Struan tirou o chapéu outra vez e se afastou, com Culum a seu lado.

Caminharam silenciosamente pela estrada. Outros que os haviam visto com os Brocks abanaram a cabeça, pasmados, mais uma vez, por Brock ter concordado com um casamento que, seguramente, era uma manobra do Tai-Pan.

— Bom-dia, Mary — disse Struan, quando Mary Sinclair se aproximou, tendo ao lado Glessing e Horatio. Parecia exausta e adoentada.

— Bom-dia, Tai Pan. Será que eu poderia fazer-lhe uma rápida visita, esta tarde? — ela perguntou. — Poderia dar-me alguns minutos de seu tempo?

— Sim, naturalmente. Por volta do entardecer? Em minha casa?

— Obrigada. Não posso dizer-lhe quanto senti... senti a perda que sofreu.

— Sim — disse Glessing. — Foi uma terrível falta de sorte. De algumas semanas para cá, ele fora ficando cada vez mais impressionado com Struan. Diabo, uma pessoa que pertencera à Marinha Real, que carregara pólvora em Trafalgar, merecia o maior respeito, por Deus! Quando Culum lhe contara, ele imediatamente indagou: “Em que navio?” E ficou espantado quando Culum disse: “Não sei, não perguntei.” Imaginou se o Tai-Pan não servira com seu pai. A pergunta lhe veio à ponta da língua, mas ele não podia fazê-la, porque Culum lhe contara o fato em particular.

— Sinto muitíssimo, Tai-Pan.

— Obrigado. Como vão as coisas com você?

Muito bem, obrigado. Há um trabalhão dos diabos para fazer, isto é verdade.

— Talvez fosse uma boa idéia colocar âncoras de tempestade para água profunda, nas naus capitanias. Glessing ficou de repente atento.

— Você pressente uma tempestade?

— Não. Mas é temporada de tufões. Algumas vezes chegam cedo, outras vezes tarde.

— Obrigado pela sugestão. Vou mandar começar a fazer isso, esta tarde.

Muito bem pensado, disse Glessing a si mesmo. O homem suporta bem tanta tragédia. E ele é tão esperto quanto o melhor dos marinheiros que já navegou pelos mares afora. Mary pensa maravilhas a respeito dele, e a opinião dela é valiosa, por Júpiter! E, por causa dele, a frota atacará Cantão, por Deus! Poucos dias após aqueles demônios ousarem incendiar a Colônia. Maldito seja o almirante! Por que aquele patife não me manda de volta para meu navio? Fico imaginando se eu ousaria pedir ao Tai-Pan que interferisse a meu favor.

— Vai unir-se à frota?

— Não sei. — Struan olhou para Horatio. — Quando você voltou, rapaz?

— A noite passada, Tai-Pan. Sua Excelência me mandou de volta, a fim de representá-lo no funeral. Tenho a honra de lhe dar os meus pêsames. Voltarei com a maré.

— Foi gentil da parte dele, e é uma gentileza sua. Cumprimente-o em meu nome.

— Ele estava muito ansioso para descobrir como está Sua Alteza.

— Passa razoavelmente. Encontra-se a bordo do China Cloud. Por que não lhe faz uma visita? Acho que tem o quadril lesado, mas não se pode afirmar isto, por enquanto. Verei você mais tarde, Mary.

Ele tirou o chapéu outra vez, e partiu com Culum. Struan ficou pensando em Mary. Suponho que ela quer falar-me a respeito das crianças. Espero que não haja nada errado. O que há com Horatio e Glessing? Parecem tensos e agitados.

***

— Posso visitá-la no hotel, Srta. Sinclair? — Glessing dizia. — Talvez queiram ambos almoçar comigo no cais.

— Gostaria de fazer isso, querido George — disse Mary — Mas Horatio não poderá nos acompanhar. — Antes de Horatio poder dizer qualquer coisa, acrescentou, tranqüilamente: — Meu querido irmão me disse que você lhe pediu formalmente minha mão em casamento.

Glessing ficou espantado.

— Ah, sim, é verdade. Espero... bom, sim.

— Eu gostaria de lhe dizer que aceito.

— Por Júpiter! — Glessing pegou-lhe a mão e a beijou. — Juro por Deus, Mary, por Lord Harry, por Júpiter! Juro... — Ele se virou para agradecer a Horatio. Sua alegria desapareceu — Pela morte de Cristo, o que há?

Os olhos de Horatio estavam malevolamente fixos em Mary Ele forçou um sorriso amarelo, mas não afastou os olhos da irmã

— Nada.

— Você não aprova? — a voz de Glessing estava tensa.

— Ah, sim, ele aprova, não é, querido irmão? — Mary interveio.

— É que... você é muito... muito jovem e...

— Mas aprova, não? E nos casaremos três dias antes do Natal. Será que isso lhe convém, George? Glessing ficou gelado, com a evidente animosidade entre irmão e irmã.

— Não é satisfatório, Horatio?

— Tenho certeza de que o Tai-Pan apreciará sua aprovação, Horatio.

Mary ficou satisfeita, por ter decidido casar com George. Agora, ela teria de se livrar do bebê. Se May-may não pudesse ajudar, precisaria pedir ao Tai-Pan o favor que ele lhe devia.

— Aceito, George — ela disse, num desafio, escondendo seu medo.

— Malditos sejam ambos! — Horatio se afastou.

— Em nome de Deus, o que há com ele? Isto significa que ele aprova? Ou não? — George perguntou, irado.

— Ele aprova, querido George. Não se preocupe. E, por favor, perdoe-me por ser tão brusca, mas eu queria que isto fosse dito agora.