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— Não, Mary. Sinto muito. Não tinha idéia de que seu irmão fosse tão contrário. Se eu tivesse pensado, por um momento... bom, não teria sido tão precipitado.

Sua alegria por ser aceito foi sufocada pela dor que viu no rosto de Mary. E por sua fúria, sempre presente, de não se encontrar com a frota. Maldito almirante! Maldito seja este cargo em terra e maldito seja Sinclair. Como diabo posso um dia ter gostado daquele filho da mãe! Como ousou ele ser tão rude?

— Estou tão satisfeita por você se encontrar aqui, George ele a ouviu dizer.Viu-a enxugar algumas lágrimas e sua felicidade voltou. Sem cargo em terra, não poderia jamais passar tanto tempo com Mary — Abençoou sua sorte. Ela o aceitara, e isto era tudo que importava. Deu-lhe o braço.

— Não chore mais — disse. — Este é o dia mais feliz de minha vida, vamos almoçar e comemorar. Jantaremos juntos esta noite... e almoçaremos e jantaremos juntos sempre, de agora em diante. Faremos a comunicação no próximo mês. De agora em diante, eu cuidarei de você. Se alguém a perturbar, terá de me dar satisfações, por Deus!

***

Struan e Culum bebiam conhaque no escritório situado na feitoria. A sala era grande, com chão de pedra. Havia nela uma escrivaninha lustrosa de teca e lanternas de navio, um barômetro num balanceiro, perto da porta de teca. Pinturas de Quance nas paredes, cadeiras e sofá de couro bem encerados, com um cheiro bom.

À janela, Struan observava o porto. A calma extensão parecia vazia, sem a frota e os navios para transporte de soldados. Dos clíperes, só permaneciam o China Cloud e o White Witch. Havia poucos navios mercantes que ainda não tinham encontrado carga completa para a Inglaterra, e vários navios em viagem de volta, recém-chegados com mercadorias encomendadas no ano passado.

Culum examinava a pintura sobre o consolo da lareira. Era o retrato de uma barqueira chinesa, usando casaco; sua beleza surpreendia. Carregava uma cesta sob o braço, e sorria.

Culum ficou imaginando se o boato era verdadeiro — aquela era a amante de seu pai, que vivia em sua casa, a algumas centenas de metros de distância.

— Não posso ir embora agora, como planejamos. Decidi ficar — disse Struan, sem

se virar da janela. Culum sentiu uma pontada de desapontamento.

— Eu poderia administrar as coisas. Tenho certeza de que poderia.

— Sim. No devido tempo.

Culum ficou maravilhado, outra vez, com a sabedoria de seu amigo Gorth. A noite passada, no tombadilho do White Witch, Gorth dissera:

— Tome nota, meu amigo. Ele jamais partirá, agora. Aposto o que você quiser, mas ele chamará você e lhe dirá que não vai embora. É terrível dizer uma coisa dessas, mas vamos ter de esperar pelo legado dos mortos.

— Mas eu não poderia resolver tudo sozinho. Como Tai-Pan, sozinho.

— Claro que poderia. Ora, se precisar de ajuda, eu o ajudarei em tudo. E papai também. Afinal de contas, Culum, você agora faz parte da família. Claro que resolveria tudo, por Deus! •Mas, se você disser isso, o Tai-Pan responderá: “Claro que pode, Culum. No devido tempo.”

— Acha, realmente, que eu poderia?

— Não tenho a menor sombra de dúvida. Qual é a dificuldade, hein? Você compra e vende, e seu compradore assume a maior parte do risco. Navios são navios, chá é chá e ópio é ópio. Um Tai-Pan toma decisões, apenas isso. É, principalmente, uma questão de bom senso. Ora, veja o que você fez com o outeiro! Decidiu de uma maneira muito inteligente. Você decidiu, não foi outra pessoa. E forçou-o a conversar com papai a respeito de Tess, e papai forçou-o a dar a você e a Tess uma oportunidade.

— Talvez eu pudesse dirigir a casa, se tudo estivesse tranqüilo. Mas não com Longstaff, com uma guerra e com Jin-qua.

— Eles não têm importância. E a guerra está fora de nosso controle, por mais que seu pai goste de fingir outra coisa. Quanto àquela velha raposa, Jin-qua, eu posso ajudar você a manter o macaco no seu galho. Não, Culum, temos de esperar até eles morrerem e isto é terrível, quando se é jovem, com novas idéias e tudo mais. Se nos dessem as rédeas agora, o que haveria de tão errado nisso? Nossos pais protegeriam nossa retaguarda, lá da Inglaterra e nós pediríamos ajuda, em qualquer necessidade. Não seria como se nós os expulsássemos. A casa seria deles, claro. Mas, jamais iriam acreditar nisso. Têm cocô nos miolos. Precisam conservar tudo para si mesmos, só assim serão felizes. Ele vai acalmar você, dizendo: “Você vai precisar de experiência, dois ou três anos”. Mas isto significa para sempre...

Culum olhou para as costas do pai.

— Eu poderia assumir, Tai-Pan. Struan virou-se para ele.

— E Longstaff? E Jin-qua, e a guerra?

— A guerra não depende de você, não é?

— Não. Mas, sem orientação, Longstaff nos teria destruído, já há uns dois anos.

— Se você partisse, bom... não estaria lavando as mãos com relação à casa, não é? Se acontecesse alguma coisa que eu não pudesse resolver, pediria imediatamente ajuda.

— Quando eu partir, rapaz, você terá de resolver tudo. A correspondência leva seis meses para ir à Inglaterra e voltar. Coisas demais poderiam ocorrer neste espaço de tempo. Você precisa de experiência. Não está preparado ainda.

— E, quando estarei?

— Depende de você.

— Você prometeu que eu seria Tai-Pan um ano depois... bom, um ano depois do tio Robb.

— Sim. Se estivesse preparado. Mas não está preparado para eu partir, como foi planejado. Brock e Gorth engoliriam você. Sim, disse Culum a si mesmo, Gorth tem razão, outra vez. Só esperando pela morte.

— Muito bem. O que posso fazer, para provar que sou capaz? .

— Nada mais do que está fazendo, rapaz. Você precisa de mais experiência. Dois anos, três... eu lhe direi, quando tiver certeza. Culum sabia que nada ganharia discutindo, naquela ocasião.

— Quer que eu assuma os departamentos do tio Robb?

— Sim. Mas, no momento, não encomende nada, na venda, e tampouco demita alguém sem a minha aprovação. Eu lhe darei uma carta específica, com instruções. Ajude Vargas a avaliar nossas perdas na Colônia e a pôr em ordem os livros.

— Quando acha que seria bom anunciar o noivado?

— Já discutiu o assunto com Brock?

— Só quando o encontrei em Whampoa. Ele sugeriu a noite do Festival de Verão.

Struan, repentinamente, lembrou-se de Scragger e do que dissera a respeito de Wu Kwok: que Wu Kwok cairia facilmente numa emboscada em Quemoy, no noite do Festival de Verão. Sabia que agora não tinha outra alternativa senão acreditar que Scragger falara a verdade, e ir atrás de Wu Kwok. A morte de Wu Kwok significaria um risco a menos para Culum se preocupar. E as outras três metades de moedas? Que favores maquiavélicos iriam pedir-lhe? E quando? Olhou para o calendário sobre sua escrivaninha. Aquele dia era 15 de junho. A noite do Festival de Verão seria dali a nove dias.

— Deixe para a noite do Festival. Mas, reunindo apenas um pequeno grupo. Só a família. — Acrescentou, com sutil ironia.

— Pensamos a respeito do presente de casamento que queremos que nos dê. Foi idéia de Tess. — Entregou uma folha de papel a Struan.

— Só um contrato solene de esquecer o passado e iniciar uma amizade. Para ser assinado pelos Brocks e pelos Struans.

— Já fiz a única barganha que farei com aqueles dois — disse Struan, devolvendo o papel, sem lê-lo.

— Gorth quer assinar, e ele disse que seu pai também.

— Aposto que Gorth quer mesmo, por Deus! Mas Tyler não assinará um papel desses.

— Se ele assinar, você assina?

— Não.

— Por favor.

— Não.

— Nossos filhos pertencerão a vocês dois e...

— Considerei os filhos com cuidado, Culum — interrompeu Struan. — E uma porção de outras coisas. Duvido muito que seus filhos vão ter um tio e um avô por parte de mãe, quando estiverem suficientemente crescidos para entender o que são essas coisas.