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Culum caminhou irritado para a porta.

— Espere, Culum!

— Quer fazer o favor de nos dar o presente que pedimos, que imploramos?

— Não posso. Eles jamais honrarão um compromisso assim. Gorth e Brock querem tirar seu couro e... Culum bateu a porta na cara dele.

Struan bebeu outro conhaque e, depois, atirou o copo na lareira.

***

Aquela noite, Struan ficou acordado na cama de dossel, ao lado de May-may. As janelas estavam abertas para a lua e a brisa que trazia um cheiro estimulante de sal. Do lado de fora da grande rede que envolvia a cama, uns poucos mosquitos tentavam, incansavelmente, encontrar caminho para a comida do lado de dentro. Ao contrário da maioria dos europeus, Struan sempre usara um mosquiteiro. Jin-qua advertira-o de que era bom para a saúde, há muitos anos.

Struan estava pensando a respeito dos gases noturnos da malária, com medo de que ele e May-may os estivessem respirando, agora.

E ele estava preocupado com Sarah. Quando a vira, há algumas horas, ela lhe dissera que estava decidida a partir no primeiro navio.

— Você ainda não está bastante forte — comentara. — Nem Lochlin.

— Mesmo assim, vamos partir. Você acertará tudo, ou terei de fazer isto eu mesma? Tem uma cópia do testamento de Robb?

— Sim.

— Acabei de lê-la. Por que você deveria ficar como curador de suas ações na companhia, e não eu?

— Não é tarefa para uma mulher, Sarah! Mas você não precisa se preocupar. Receberá cada tostão.

— Meus advogados vão tratar disso, Tai-Pan.

Ele controlara sua raiva com esforço.

— A temporada é de tufões. Uma má ocasião para viajar para a Inglaterra. Espere até o outono. Estarão ambos mais fortes então.

— Partiremos imediatamente.

— Faça como quiser.

Ele fora ver Zergeyev. O ferimento do russo estava inflamado, mas não dera gangrena. Então, havia esperança. Em seguida, voltara a seu escritório e escrevera um despacho para Longstaff, informando-lhe ter ouvido dizer que o pirata Wu Kwok estaria em Quemoy, na noite do Festival de Verão, e que fragatas deveriam esperá-lo. Ele conhecia aquelas águas muito bem, e ficaria satisfeito de liderar a expedição, se o almirante assim o desejasse. Enviara o despacho a Horatio. E, pouco antes de partir para casa, os médicos do Exército foram vê-lo. Disseram-lhe que não, havia mais dúvidas. A febre do Vale Feliz era malária...

***

Ele se contorcia espasmodicamente na cama.

— Gosta de jogar gamão? — perguntou May-may, tão cansada e inquieta quanto ele.

— Não, obrigado, garota. Você também não consegue dormir?

— Não. Não se incomode — respondeu.

Estava preocupada com o Tai-Pan. Ele estava estranho, aquele dia. E ela se preocupava com Mary Sinclair. Aquela tarde, Mary chegara cedo, antes de Struan voltar. Mary contara-lhe a respeito do bebê e de sua vida secreta em Macau. Até mesmo sobre Horatio. E Glessing.

— Sinto muito — Mary dissera, em prantos. Ambas falavam mandarim, que preferiam ao cantonês. — Eu tinha de contar a alguém. Não há ninguém a quem eu possa pedir ajuda. Ninguém.

— Acalme-se, Marrr-rry, minha querida — dissera May-may. — Não chore. Primeiro, vamos tomar um pouco de chá e, depois, decidiremos o que fazer.

Então tomaram chá e May-may ficou espantada com os bárbaros e a maneira como encaravam a vida e o sexo.

— Que ajuda você precisa?

— Ajuda para... para me livrar da criança. Meu Deus, já está começando a aparecer.

— Mas, por que você não me pediu isso há semanas?

— Não tive coragem. Se eu não tivesse forçado a decisão, perante Horatio, ainda não teria coragem. Mas agora... o que posso fazer?

— Há quanto tempo está em seu útero?

— Quase três meses, menos uma semana.

— Não é bom, Marrr-rry. Pode ser muito perigoso, depois de dois meses. — May-may considerara as possíveis soluções para o problema de Mary e os perigos que acarretavam. — Vou mandar Ah Sam ao Tai Ping Shan. Ouvi dizer que existe ali um herbanário que poderá ajudá-la. Mas, entende que talvez seja muito perigoso?

— Sim. Se puder me ajudar, eu farei tudo. Tudo.

— Você é minha amiga. Os amigos devem ajudar um ao outro. Mas você não deve nunca, nunca contar a ninguém.

— Prometo, juro por Deus.

— Quando eu tiver as ervas, mandarei Ah Sam procurar sua criada, Ah Tat. Pode confiar nela?

— Sim.

— Quando é seu aniversário, Marrr-rry?

Por quê?

— O astrólogo terá de descobrir um dia auspicioso para tomar o remédio, claro. Mary dissera-lhe o dia e a hora.

— Onde você tomará o remédio? Não pode fazer isso no hotel... e nem aqui. Poderá demorar dias para você se recuperar.

— Em Macau. Irei para Macau. Para minha... casa particular. Será seguro lá. Sim, estarei segura lá.

— Esses remédios nem sempre funcionam, minha querida. E não são fáceis.

— Não tenho medo. Vai dar certo. Tem de dar certo — dissera Mary.

***

May-may revirava-se na cama.

— O que há de errado? — perguntou Struan.

— Nada, é só o bebê se mexendo.

Struan pôs a mão sobre a pequena redondeza em sua barriga.

— É melhor procurarmos um médico, para tomar conta de você.

— Não, obrigada, Tai-Pan, não se incomode. Nenhum desses demônios bárbaros, obrigada. Com relação a isso eu serei, como sempre, chinesa.

May-may ficou deitada de costas, aprazivelmente, satisfeita com seu bebê, triste por causa de Mary.

Marrr-rry não parecia bem, não é? — disse, numa sondagem.

— Não. E aquela moça tem alguma coisa na cabeça. Ela lhe disse o que era? May-may não queria mentir, mas estava hesitante em contar a Struan algo que poderia, realmente, não ter nada a ver com ele. — Acho que ela está preocupada com o irmão.

— O que há com ele?

— Ela disse que quer casar com Glessing.

— Ah, sim. — Struan sabia que Mary viera, principalmente, ver May-may e não a ele. Mal lhe falara, a não ser para lhe agradecer por ter levado as crianças para Macau. — Suponho que Horatio não aprova, e então ela quer que eu converse com ele? Foi isso que veio falar?

— Não. O irmão aprova — disse May-may.

— É surpreendente.

— Por quê? Esse Glessing é um homem ruim?

— Não, garota. É só porque Mary e Horatio vivem muito unidos, há vários anos. Ele vai achar a vida muito solitária sem ela, aqui. — Struan ficou imaginando o que diria May-may, se soubesse da casa secreta de Mary em Macau. — Ela, provavelmente, está triste porque se preocupa com ele.

May-may nada disse e abanou a cabeça, tristemente, por causa dos problemas do homem e da mulher.

— Como vão os jovens namorados? — perguntou, tentando descobrir o que realmente o incomodava.

— Muito bem. — Nunca lhe contara o que ele e Brock tinham dito um ao outro.

— Decidiu o que fazer a respeito da febre diabólica?

— Ainda não. Acho que você deveria voltar para Macau.

— Sim, por favor, Tai-Pan. Mas não antes de você decidir a respeito de Hong Kong.

— Aqui é perigoso. Não quero que lhe aconteça nada.

Pagode — ela disse, com um encolher de ombros. — Claro mie nosso feng-shui é muito ruim. — Pôs a mão sobre o peito dele e o acariciou, depois beijou-o suavemente.

— Uma vez você disse que havia três coisas que precisava fazer, antes de decidir a respeito de uma Tai-tai. Duas, eu sei. Qual era a terceira?

— Passar a Casa Nobre para mãos seguras — ele disse. Depois, contou-lhe o que Brock dissera, e sua discussão com Culum, naquele dia.

Ela ficou silenciosa, por um longo tempo, pensando com cuidado a respeito do problema que representava a terceira coisa. E, como a solução era tão fácil, escondeu-a profundamente no coração e falou, inocentemente:

— Eu disse que ajudaria você, com relação às duas primeiras, e pensaria a respeito da terceira. Esta terceira é demais para mim, não posso ajudar, como gostaria.

— Sim — disse Struan. — Não sei o que fazer. Pelo menos — ele acrescentou — só há uma solução.

— A solução do assassinato não é aconselhável — ela disse, com firmeza. — Perigosamente desaconselhável. Os Brocks vão esperar por isso. Todos. E você se arrisca a uma vingança de sua lei terrível, que pede estupidamente olho por olho, mesmo que alguém tenha olhos de louco. Para que serviria o dinheiro? Você não deve fazer isso, Tai-Pan. E lhe aconselho, aliás, a dar a seu filho e à nova filha o presente que eles desejam.

— Não posso fazer isso, por Deus! É como se eu próprio estivesse cortando a garganta de Culum.

— Ainda assim, é o meu conselho. E aconselho, além disso, um casamento o mais rápido possível.

— Isso está fora de questão — ele explodiu. — É de muito mau gosto, um insulto à memória de Robb, e ridículo.

— Concordo plenamente, Tai-Pan — disse May-may. — Mas segundo me lembro, de acordo com o costume bárbaro... que, desta vez, é igual ao sábio costume chinês, a moça vai para a casa do marido. Não é o contrário, hein? Então, quanto mais rápido a garota Brock se libertar do domínio de Gorth, logo os Brocks perderão o controle sobre seu filho.

— O quê?

— Claro! Por que o seu filho está assim louco? Ele precisa ir para a cama com ela o mais rápido possível. — A voz dela se elevou, quando Struan se sentou na cama. — Agora, não me dê argumentos, por Deus, mas escute e, depois, eu escutarei atentamente. É isso que o deixa completamente louco... o pobre rapaz está com frio e cansado, não tem ninguém com quem ir para a cama, à noite. É um fato. Por que não diz abertamente, hein? Eu digo abertamente. Ele está ardendo, freneticamente. Então escuta, babando-se, toda a conversa maluca de Gorth. Eu se fosse ele, faria a mesma coisa, porque irmão tem poder sobre irmã! Mas deixe seu filho Culum possuir a moça, e então será que vai passar hora após maldita hora escutando o irmão Gorth? Por Deus, não! Vai passar cada minuto na cama, trepando, se cansando, fazendo bebês, e detestará interrupções suas, de Brock ou de Gorth. — Ela o olhou, com doçura. — Não é?

— Sim — disse ele. — Eu a amo porque você é esperta.

— Você me ama porque eu ponho você maluco, mas eu sei fazer você dormir, eu ponho você para dormir, até você estourar. — Riu, muito satisfeita consigo mesma. — Em seguida: faça com que eles comecem a construir sua casa. Amanhã. Desvie os pensamentos deles para isso, afastando-os do fan-quai Gorth. Ela è jovem, hein? Então, pensar em sua própria casa será uma ocupação fantástica para sua mente. Isso irritará os Brocks e eles começarão a decidir que tipo de casa, etc, o que a aborrecerá, e a trará para mais perto de você, que lhe dá sua casa. Gorth vai se opor completamente a um casamento rápido, fazendo, assim, Culum voltar-se contra ele, porque perderá, como vocês dizem?... seu tronfo.

— Trunfo. — Ele a abraçou, encantado. — Você é fantástica! Eu deveria ter pensado nisso. Há outra venda de terras, na próxima semana. Vou comprar para você um lote marinho. Porque é sábia.

— Ora! — ela disse, zangada. — Acha que eu protejo meu homem em troca da suja terra de Hong Kong? Um único e miserável lote suburbano? Por taéis de prata? Por jades? O que você acha que é esta valiosíssima Tchung May-may, hein? Uma puta qualquer?

Ela tagarelou sem parar mas, com hesitação, acabou permitindo-lhe presenteá-la, orgulhosa por ele entender o valor da terra para uma pessoa civilizada, e grata por ele lhe dar tal prestígio, fingindo que não sabia como ela estava satisfeita.

O quarto se achava silencioso, agora, a não ser pelo zunir dos mosquitos.

May-may aninhou-se contra Struan e desviou seus pensamentos para uma solução da terceira coisa. Decidiu pensar a respeito em mandarim, e não em inglês, porque não sabia palavras suficientes para os matizes certos de significado. Como nuance, pensou ela. Como se iria dizer isso em bárbaro? Ou finesse? A solução para a terceira coisa requeria uma verdadeira nuance chinesa e perfeita finesse.

A solução é tão deliciosamente simples, ela disse a si própria, alegremente. Assassinar Gorth. Mandar assassiná-lo de uma maneira que ninguém suspeite que os assassinos não passam de assaltantes ou piratas. Se assim for feito, clandestinamente, um perigo para o meu Tai-Pan será afastado; Culum ficará protegido de um óbvio risco futuro; e o pai Brock nada poderá fazer, porque ainda está preso pela espantosa e inacreditável determinação que os bárbaros atribuem a um tal juramento “sagrado”. Tão simples. Mas cheio de perigo. Preciso ser muito cuidadosa. Se meu Tai-Pan chegar a descobrir, ele me levará perante um dos juizes bárbaros — aquele revoltante Mauss, provavelmente! Meu Tai-Pan me acusaria — até a mim, sua adorada concubina. E eu seria enforcada. Que ridículo!

Depois desse tempo todo, e com todos os meus estudos — aprendendo a língua deles, e tentando continuamente compreendê-los — certas atitudes dos bárbaros ainda estão absolutamente além do meu alcance. Como é ridículo ter a mesma lei para todos — ricos e pobres. De que adianta trabalhar e suar, para se tornar rico e poderoso?

Qual será a melhor maneira?, perguntou a si mesma. Sei muito pouco a respeito de assassinatos. Como fazer isso? Onde? Quando?

May-may ficou acordada a noite inteira. Ao amanhecer, decidiu a respeito do melhor procedimento. Então, dormiu suavemente.