Ela ficou silenciosa, por um longo tempo, pensando com cuidado a respeito do problema que representava a terceira coisa. E, como a solução era tão fácil, escondeu-a profundamente no coração e falou, inocentemente:
— Eu disse que ajudaria você, com relação às duas primeiras, e pensaria a respeito da terceira. Esta terceira é demais para mim, não posso ajudar, como gostaria.
— Sim — disse Struan. — Não sei o que fazer. Pelo menos — ele acrescentou — só há uma solução.
— A solução do assassinato não é aconselhável — ela disse, com firmeza. — Perigosamente desaconselhável. Os Brocks vão esperar por isso. Todos. E você se arrisca a uma vingança de sua lei terrível, que pede estupidamente olho por olho, mesmo que alguém tenha olhos de louco. Para que serviria o dinheiro? Você não deve fazer isso, Tai-Pan. E lhe aconselho, aliás, a dar a seu filho e à nova filha o presente que eles desejam.
— Não posso fazer isso, por Deus! É como se eu próprio estivesse cortando a garganta de Culum.
— Ainda assim, é o meu conselho. E aconselho, além disso, um casamento o mais rápido possível.
— Isso está fora de questão — ele explodiu. — É de muito mau gosto, um insulto à memória de Robb, e ridículo.
— Concordo plenamente, Tai-Pan — disse May-may. — Mas segundo me lembro, de acordo com o costume bárbaro... que, desta vez, é igual ao sábio costume chinês, a moça vai para a casa do marido. Não é o contrário, hein? Então, quanto mais rápido a garota Brock se libertar do domínio de Gorth, logo os Brocks perderão o controle sobre seu filho.
— O quê?
— Claro! Por que o seu filho está assim louco? Ele precisa ir para a cama com ela o mais rápido possível. — A voz dela se elevou, quando Struan se sentou na cama. — Agora, não me dê argumentos, por Deus, mas escute e, depois, eu escutarei atentamente. É isso que o deixa completamente louco... o pobre rapaz está com frio e cansado, não tem ninguém com quem ir para a cama, à noite. É um fato. Por que não diz abertamente, hein? Eu digo abertamente. Ele está ardendo, freneticamente. Então escuta, babando-se, toda a conversa maluca de Gorth. Eu se fosse ele, faria a mesma coisa, porque irmão tem poder sobre irmã! Mas deixe seu filho Culum possuir a moça, e então será que vai passar hora após maldita hora escutando o irmão Gorth? Por Deus, não! Vai passar cada minuto na cama, trepando, se cansando, fazendo bebês, e detestará interrupções suas, de Brock ou de Gorth. — Ela o olhou, com doçura. — Não é?
— Sim — disse ele. — Eu a amo porque você é esperta.
— Você me ama porque eu ponho você maluco, mas eu sei fazer você dormir, eu ponho você para dormir, até você estourar. — Riu, muito satisfeita consigo mesma. — Em seguida: faça com que eles comecem a construir sua casa. Amanhã. Desvie os pensamentos deles para isso, afastando-os do fan-quai Gorth. Ela è jovem, hein? Então, pensar em sua própria casa será uma ocupação fantástica para sua mente. Isso irritará os Brocks e eles começarão a decidir que tipo de casa, etc, o que a aborrecerá, e a trará para mais perto de você, que lhe dá sua casa. Gorth vai se opor completamente a um casamento rápido, fazendo, assim, Culum voltar-se contra ele, porque perderá, como vocês dizem?... seu tronfo.
— Trunfo. — Ele a abraçou, encantado. — Você é fantástica! Eu deveria ter pensado nisso. Há outra venda de terras, na próxima semana. Vou comprar para você um lote marinho. Porque é sábia.
— Ora! — ela disse, zangada. — Acha que eu protejo meu homem em troca da suja terra de Hong Kong? Um único e miserável lote suburbano? Por taéis de prata? Por jades? O que você acha que é esta valiosíssima Tchung May-may, hein? Uma puta qualquer?
Ela tagarelou sem parar mas, com hesitação, acabou permitindo-lhe presenteá-la, orgulhosa por ele entender o valor da terra para uma pessoa civilizada, e grata por ele lhe dar tal prestígio, fingindo que não sabia como ela estava satisfeita.
O quarto se achava silencioso, agora, a não ser pelo zunir dos mosquitos.
May-may aninhou-se contra Struan e desviou seus pensamentos para uma solução da terceira coisa. Decidiu pensar a respeito em mandarim, e não em inglês, porque não sabia palavras suficientes para os matizes certos de significado. Como nuance, pensou ela. Como se iria dizer isso em bárbaro? Ou finesse? A solução para a terceira coisa requeria uma verdadeira nuance chinesa e perfeita finesse.
A solução é tão deliciosamente simples, ela disse a si própria, alegremente. Assassinar Gorth. Mandar assassiná-lo de uma maneira que ninguém suspeite que os assassinos não passam de assaltantes ou piratas. Se assim for feito, clandestinamente, um perigo para o meu Tai-Pan será afastado; Culum ficará protegido de um óbvio risco futuro; e o pai Brock nada poderá fazer, porque ainda está preso pela espantosa e inacreditável determinação que os bárbaros atribuem a um tal juramento “sagrado”. Tão simples. Mas cheio de perigo. Preciso ser muito cuidadosa. Se meu Tai-Pan chegar a descobrir, ele me levará perante um dos juizes bárbaros — aquele revoltante Mauss, provavelmente! Meu Tai-Pan me acusaria — até a mim, sua adorada concubina. E eu seria enforcada. Que ridículo!
Depois desse tempo todo, e com todos os meus estudos — aprendendo a língua deles, e tentando continuamente compreendê-los — certas atitudes dos bárbaros ainda estão absolutamente além do meu alcance. Como é ridículo ter a mesma lei para todos — ricos e pobres. De que adianta trabalhar e suar, para se tornar rico e poderoso?
Qual será a melhor maneira?, perguntou a si mesma. Sei muito pouco a respeito de assassinatos. Como fazer isso? Onde? Quando?
May-may ficou acordada a noite inteira. Ao amanhecer, decidiu a respeito do melhor procedimento. Então, dormiu suavemente.
CAPÍTULO VINTE E NOVE
Quando chegou o Festival de Verão, o Vale Feliz estava em completo desespero. A malária continuara a se disseminar, mas não havia nenhum padrão estabelecido para a epidemia. Nem todos na mesma casa eram contaminados. Nem todas as casas na mesma área era atingidas.
Os cules não iam para o Vale Feliz até o sol estar alto e voltavam ao Tai Ping Shan antes do anoitecer. Struan, Brock e todos os negociantes estavam quase loucos. Não havia nada que pudessem fazer — a não ser se mudar, e mudar-se representava uma calamidade. Ficar poderia significar um desastre pior. E, embora houvesse muitos que insistiam não ser possível responsabilizar pela malária ao solo envenenado e ao ar noturno poluído, só aqueles que dormiam no vale eram afetados. Os tementes a Deus acreditavam, como Culum, que a febre era a vontade divina, e redobraram suas súplicas ao Todo-Poderoso para protegê-los; os ateus davam de ombros, embora igualmente assustados, e diziam: Pagode. A fuga das famílias de volta para os navios tornava-se cada vez mais numerosa, e a Cidade da Rainha se transformou numa cidade-fantasma.
***
Mas este desespero não atingiu Longstaff. Ele voltara de Cantão na véspera, à noite, na nau capitania, embriagado com o sucesso, e vivia a bordo do navio, sem a menor intenção de residir no Vale Feliz, assim sabendo que se encontrava fora do alcance dos venenosos gases noturnos.
Conquistara tudo que estava decidido a conquistar — e ainda mais.
No dia seguinte ao início da investida a Cantão, os seis milhões de taéis de resgate que pedira foram plenamente pagos, e cancelara o ataque. Mas determinara imediatos preparativos para uma guerra ao norte, em escala completa. E, desta vez, não haveria interrupção — até o tratado ser ratificado. Dentro de poucas semanas, chegariam os prometidos reforços da índia. E então a armada navegaria para o norte, mais uma vez, para o Pei Ho — para Pequim — e o Oriente se abriria, de maneira definitiva.