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— Sim, com toda certeza — Longstaff deu uma risadinha. Estava sozinho em seus aposentos no H.M.S. Vengeance, admirando a si próprio no espelho. — Você é realmente muito inteligente, meu querido amigo — disse a si mesmo, em voz alta. — Sim, realmente. Muito mais inteligente do que o Tai-Pan, e ele é a personificação da inteligência. — Depôs o espelho e esfregou água-de-colônia no rosto, olhando em seguida para o seu relógio de bolso. Struan deveria chegar dentro de poucos minutos. — Mesmo assim, não é preciso deixar sua mão direita saber o que a esquerda está fazendo, hein? — ele riu.

Longstaff mal podia acreditar que tivesse conseguido acertar a aquisição das sementes de chá com tanta facilidade. Pelo menos, lembrou a si próprio, satisfeito, Horatio conseguira. Fico imaginando por que o homem está tão perturbado com o desejo de sua irmã de casar com Glessing. Eu teria pensado que era um excelente casamento. Afinal de contas, ela é bastante mal-vestida e insignificante — embora estivesse lindíssima, no baile. Mas é uma sorte grande que ele deteste Glessing, não? E uma sorte grande que sempre tenha detestado o comércio de ópio. E foi muito inteligente a maneira como eu pus a idéia em sua cabeça — com a isca da remoção de Glessing.

— Puxa vida, Horatio — ele dissera, há uma semana, em Cantão — é um maldito negócio, esse comércio de ópio, não? E tudo porque temos de pagar barras de prata pelo chá. É uma pena que a índia Britânica não o cultive, não? Assim, não haveria necessidade de ópio. Simplesmente o proibiríamos, pouparíamos os pagãos para coisas melhores, não? Plantar sementes de bondade entre eles, em vez daquela droga maldita. Então, a frota poderia voltar para a Inglaterra e viveríamos em paz e tranqüilidade para sempre.

Dentro de dois dias Horatio o puxara de lado e, excitadamente, expusera a idéia de obter sementes de chá dos chineses e mandá-las para a índia. Ele ficara adequadamente espantado, mas permitira a Horatio convencê-lo das potencialidades da idéia.— Mas, por Deus, Horatio — dissera — como poderemos obter as sementes de chá?

— Este é meu plano: falarei em particular com o Vice-Rei Ching-so, Excelência. Direi que o senhor é um amante da jardinagem e teve a idéia de transformar Hong Kong num jardim. Pedirei cinqüenta libras de cada semente: de amora, algodão, arroz camélias e outras flores, bem como chás variados. Isto desviará sua atenção do chá, especificamente.

— Mas, Horatio, ele é um homem muito inteligente. Deve saber que poucas ou nenhuma dessas plantas crescerão em Hong Kong. Claro. Ele simplesmente vai achar que é uma estupidez dos bárbaros.

Horatio estava fora de si, de excitação.

— Mas, como você conseguiria fazer com que ele guardasse segredo sobre isso? Ching-so contaria aos mandarins, ou à Co-hong, e eles, certamente, contariam aos comerciantes. Você sabe que esses malditos piratas moveriam céus e terras para impedir o que você propõe. Com certeza adivinhariam quais as suas intenções. E o Tai-Pan? Você percebe, claro, que sua proposta iria colocá-lo fora do negócio.

— Ele é suficientemente rico agora, Excelência. Temos de acabar com o mal do ópio. É nosso dever.

— Sim, mas tanto chineses como europeus ficariam implacavelmente contra o plano. E, se Ching-so perceber o que você tem realmente em mente, como pode acontecer... então, bom, você nunca vai conseguir as sementes.

Horatio ficou pensando por um momento. Depois, disse:

— Sim. Mas se eu fosse prometer isso em troca do favor feito a mim... e eu só quero que o senhor, meu patrão, fique satisfeito com o presente-surpresa, então eu, que tenho de contar os caixotes de prata e assinar os papéis por eles, poderia deixar passar um caixote, e então ele, com certeza, guardaria esse segredo.

— Quanto vale um caixote?

— Quarenta mil taéis de prata.

— Mas a prata pertence ao Governo de Sua Majestade, Horatio.

— Claro. Em suas negociações, o senhor poderia “privadamente” garantir que haja um caixote extra, não oficial, e, assim, a Coroa não teria prejuízo. As sementes serão seu presente para o Governo de Sua Majestade, senhor. Eu ficaria honrado se dissesse que a idéia foi sua. Tenho certeza de que foi. Algo que me disse deflagrou-a em minha mente. E, com justiça, o senhor deverá receber o crédito. Afinal de contas, é o plenipotenciário.

— Mas, se seu plano for bem-sucedido, então você não apenas estará destruindo os negociantes na China, mas também a si próprio. Não faz sentido.

— O ópio é um vício terrível, senhor. Qualquer risco que corrermos é justificável. Mas meu emprego depende de seu sucesso, não do ópio.

— Se este plano for bem-sucedido, você está minando os próprios alicerces de Hong Kong.

— Mas demorará muitos anos para o chá vicejar em outro lugar. Hong Kong estará segura durante seu tempo, senhor. Hong Kong será ainda o empório do comércio asiático. Quem sabe o que acontecerá, no curso dos anos?

— Então, quer que eu investigue as possibilidades do cultivo do chá junto ao Vice-Rei da índia?

— Quem, senão o senhor, Excelência, poderia levar a idéia, a sua idéia, a uma execução perfeita? Relutantemente, deixara-se persuadir, e advertira a Horatio sobre a necessidade de

extremo segredo. Já no dia seguinte, Horatio informara, cheio de alegria:

— Ching-so concordou! Ele disse que, dentro de seis semanas a dois meses, os caixotes de sementes serão entregues em Hong Kong, Excelência. Agora, tudo que falta para tornar as coisas todas perfeitas, para mim, é o envio imediato de Glessing para nosso país. Creio que Mary está apenas totalmente apaixonada. É uma pena que ela não possa dispor de um ano, ou um pouco mais, para ter certeza absoluta quanto ao que está fazendo, fora do alcance da influência diária...

Longstaff dera outra risadinha, diante da transparente tentativa do jovem, de ser sutil. Escovou o cabelo, abriu a porta da cabina e foi para a casa de navegação. Procurou em meio aos papéis de seu cofre e descobriu a carta que Horatio traduzira, há semanas.

— Isto não é mais necessário — disse, alto. Rasgou o papel, debruçou-se por uma vigia e atirou os pedaços ao mar, observando-os enquanto se afastavam, a flutuar.

Talvez Glessing fosse enviado para a Inglaterra. A moça é menor e Horatio está numa posição muito difícil. Bom, vou pensar a respeito. Depois que as sementes estiveram em viagem para a índia.

Viu a chalupa de Struan, que se aproximava. Struan estava sentado, desconsoladamente, no meio da embarcação. A gravidade do Tai-Pan fez Longstaff lembrar a malária. Que diabo você vai fazer com relação a isso, hein? Arruína toda a estratégia de Hong Kong, não é?

***

Struan espiava através das vigias da popa, esperando pacientemente que Longstaff terminasse.

— Puxa vida, Dirk, era quase como se Ching-so soubesse que íamos pedir seis milhões de taéis. O resgate foi posto imediatamente à disposição. Até o último centavo. Ele quase pediu desculpas pelo saque da Colônia. Disse que foram aqueles malditos anarquistas, os Tríades. Já ordenou que seja feita uma investigação completa e espera poder destruí-los, de uma vez por todas. Parece que um dos líderes caiu-lhe nas mãos. Se ele não conseguir extrair alguma coisa do homem, é porque ninguém mais poderia. Prometeu dizer-me imediatamente os nomes dos Tríades aqui.

Struan afastou-se das vigias e se sentou numa poltrona funda, de couro.

— Muito bem, Will. Eu diria que você fez um trabalho notável.

Longstaff sentiu-se muito satisfeito.

— Devo dizer que as coisas saíram de acordo com o plano. Ah, a propósito. A informação que você mandou a respeito do pirata Wu Kwok. Eu teria preferido que você liderasse a flotilha, mas o almirante mostrou-se inflexível. E foi ele próprio.

— É privilégio dele. Vamos esperar que faça um bom serviço esta noite. Vou descansar um pouco mais, sabendo que aquele demônio naufragou.