— Ah... é o que quer, Aristotle?
— Ela quebrou meus pincéis — disse Quance, desamparadamente. — Era tudo que eu possuía. Meus pincéis e tintas.
— Nós entramos em acordo, não foi meu caro? Em nome de tudo que é. sagrado? Hein? Parar com a pintura? Um bom emprego fixo e assumir suas responsabilidades para com a família, nada mais de vagabundagem.
— Sim — disse Aristotle, entorpecidamente.
— Eu ficaria satisfeito de oferecer um emprego, Sra. Quance — interveio Struan. — Preciso de um funcionário. O salário é de quinze xelins por semana. Oferecerei, de quebra, suas instalações no pontão, por um ano. Depois disso, ficarão por conta própria.
— Que os santos o protejam, Tai-Pan. Feito. Agora, agradeça ao Tai-Pan — disse Maureen.
— Obrigado, Tai-Pan.
— Esteja no escritório às sete, amanhã de manhã, Aristotle. Pontualmente.
— Ele estará lá, Tai-Pan, não se preocupe. Que as bênçãos de São Patrício lhe caiam sobre a cabeça, nesses tempos perturbados, por cuidar de uma pobre esposa e de seus filhos famintos. Bom-dia para ambos.
E foram embora. Longstaff serviu-se de uma dose dupla.
— Meu Deus! Eu nunca teria acreditado. Pobre, pobre Aristotle. Você realmente vai fazer de Aristotle Quance um funcionário de escritório?
— Sim. É melhor eu do que outra pessoa qualquer. Preciso de pessoal — Struan pôs
o chapéu na cabeça, muito satisfeito consigo mesmo. — Não me meto em briga de marido e mulher. Mas qualquer pessoa que faz isso com o velho Aristotle não tem direito ao título de “mulher”, por Deus!
Longstaff sorriu, de repente.
— Destaco uma nau capitania, se isto ajudar. E todos os recursos do Governo de Sua Majestade estão à sua disposição.
***
Struan correu para a praia. Fez sinal para uma liteira fechada e orientou os cules.
— Esperem, está bem? — disse, ao chegarem ao destino.
— Está bem, senhor.
Passou pelo surpreendido porteiro, na sala da casa. O aposento era atapetado — grandes sofás, cortinas de chintz, espelhos e bricabraque. Houve um farfalhar nos fundos, e depois, ruído de passos que se aproximavam. Uma pequena senhora idosa atravessou as cortinas de contas. Era limpa, engomada, com cabelos grisalhos, olhos grandes e óculos.
— Olá, Sra. Fortheringill — disse Struan, cortesmente.
— Olá, Tai-Pan, quanto prazer em vê-lo — disse ela. — Não tínhamos o prazer de sua companhia há muitos anos. É um pouco cedo para visitas, mas as moças estão se aprontando. — Ela sorriu e mostrou os dentes postiços, amarelos.
— Bom, sabe, Sra. Fortheringill...
— Compreendo perfeitamente, Tai-Pan — ela disse, com ar sábio. — Chega uma hora, na vida de todo homem, em que ele...
— Vim falar de um amigo meu.
— Não se preocupe, Tai-Pan, o sigilo é norma neste estabelecimento. Não precisa se preocupar. Num momentinho, será atendido. — Ela se levantou às pressas. — Moças! — gritou.
— Sente-se e escute! Vim falar de Aristotle!
— Ah, aquele pobre coitado se meteu numa tremenda confusão.
Struan lhe disse o que queria, e as moças ficaram tristes ao vê-lo ir embora.
Logo que ele chegou em casa, May-may disse:
— Por que você foi a um puteiro, hein?
Ele suspirou e lhe contou.
— Acha que acredito nisso, hein? — Os olhos dela estavam cheios de desprezo.
— Sim. É melhor acreditar.
— Acredito em você, Tai-Pan.
— Então pare de fazer essa cara de dragão! — ele entrou em seu quarto.
— Muito bem — disse May-may, fechando a porta atrás de ambos. — Agora vamos ver se você disse a verdade. Faça amor imediatamente. Estou desejando você loucamente, Tai-Pan.
— Obrigado, mas estou ocupado — ele disse, achando difícil não rir.
— Ayeeee yah que você está ocupado! — ela disse, começando a desabotoar seu pijama cor-de-mel. — Vamos fazer amor imediatamente. Logo verei se alguma puta tirou sua força, por Deus! E, então, sua velha mãe vai cuidar de você, por Deus!
— Você também está ocupada — disse Struan.
— Estou muito ocupada. — Ela saiu de dentro das calças de seda. Seus brincos tiniam como sinos. — E é melhor você se ocupar logo.
Ele a examinou e não deixou transparecer nem um pouco de sua felicidade. O estômago de May-may estava com uma bela curva, com a criança de quatro meses no útero. Ele a tomou depressa nos braços e beijou-a violentamente, deitando-se na cama e deixando que seu peso a esmagasse um pouco.
— Cuidado, Tai-Pan — ela disse, sem fôlego — não sou nenhuma de suas ossudas
gigantes bárbaras! Beijar não prova nada. Tire as roupas e então veremos a verdade. Ele a beijou de novo. Então ela disse, com voz diferente:
— Tire a roupa.
Ele se apoiou nos cotovelos, olhou para ela e, depois, esfregou o nariz contra o de May-may, sem a pressionar mais.
— Não há tempo, agora. Preciso ir a uma festa de noivado, e você tem de fazer as malas.
— Fazer as malas para quê? — ela perguntou, espantada.
— Vamos nos mudar para o Resting Cloud.
— Por quê?
— Nosso feng-shui está ruim aqui, garota.
— Ah, ótimo, que maravilha! — ela atirou os braços em torno do pescoço dele. — Ir mesmo embora daqui? Para sempre?
— Sim.
Ela o beijou, deslizou rapidamente para fora de seus braços e começou a se vestir.
— Pensei que você queria fazer amor — ele disse.
— Ora! Para que serve essa prova? Conheço você muito bem. Mesmo que tivesse andado com uma puta há uma hora, você é macho bastante para fingir e enganar sua pobre velha mãe. — Ela riu e atirou outra vez os braços em tomo do pescoço dele. — Ah, que bom deixar um feng-shui ruim. Vou fazer as malas correndo.
Ela correu à porta e gritou:
— Ah Sam-ahhhhhhh!
Ah Sam chegou às pressas, ansiosa, seguida por Lim Din e, depois de um tumulto, gritos e tagarelice, Ah Sam e Lim Din saíram a toda, invocando os deuses, com enorme e barulhenta excitação. May-may voltou, sentou-se na cama e se abanou com o leque.
— Já estou fazendo as malas — disse alegremente. — Agora, vou ajudar você a se vestir.
— Obrigado, eu mesmo posso fazer isso.
— Então, vou ficar espiando. Esfregue bem as costas. O banho está à espera. Estou muito alegre e cheia de benevolência, porque você decidiu ir embora.
Conversava animadamente, enquanto ele tirava a roupa. Após ele se banhar, ela gritou, pedindo toalhas quentes e, ao chegarem, enxugou-lhe as costas. O tempo todo, pensava se ele estivera com uma prostituta, após combinar as coisas referentes ao artistazinho engraçado que pintara um retrato seu tão lindo. Não que eu me incomode, disse a si mesma, esfregando-o vigorosamente. Só que ele não deveria ir a um desses lugares. Absolutamente não. Prejudica seu prestígio. E prejudica o meu. Muito ruim. Logo esses miseráveis criados vão começar a espalhar boatos de que eu não posso cuidar do meu homem. Ah, deuses, dai-me proteção contra os sujos boatos e a ele contra as sujas putas de todos os tipos.
Anoiteceu antes que ela, Ah Sam e Lim Din estivessem prontos e todos ficaram exaustos com o drama e a excitação da partida. Cules levaram a bagagem. Outros esperaram pacientemente, ao lado da liteira que a conduziria ao escaler.
May-may usava pesados véus. Ela ficou por um momento no portão do jardim, com Struan, e olhou para trás, para sua primeira casa em Hong Kong. Se não fosse o feng-shui ruim — e a febre era parte do feng-shui — teria detestado partir.