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O crepúsculo estava agradável. Alguns mosquitos zumbiam em torno deles. Um se instalou em seu tornozelo, mas ela não notou.

O mosquito bebeu sangue até se fartar, e depois saiu voando.

***

Struan entrou na grande cabina do Withe Witch. Os Brocks estavam todos esperando por ele, exceto Lillibet, que já fora para a cama. Culum se encontrava ao lado de Tess.

— Boa-noite — disse Struan. — Sarah manda pedir desculpas. Ela não se sente bem.

— Bem-vindo a bordo — disse Brock, com voz rouca e carregada de preocupação, o rosto melancólico.

— Bom — disse Struan com uma risada — isto não é maneira de iniciar um evento feliz.

— Não é a ocasião, por Deus, como sabe muito bem. Estamos todos em bancarrota... pelo menos terrivelmente prejudicados pela maldita malária.

— Sim — disse Struan. Sorriu para Culum e Tess e, notando a inquietação dos dois, decidiu dar-lhes logo a boa notícia. — Segundo ouvi dizer, Longstaff vai ordenar que a Cidade da Rainha seja abandonada — comentou, despreocupadamente.

— Pelo sangue de Cristo! — explodiu Gorth. — Não podemos abandoná-la. Colocamos dinheiro demais na terra e nas construções. Não podemos abandonar aquilo. Se não fosse a maldita escolha que fez, daquele vale amaldiçoado, nós não...

— Cale a boca — disse Brock. Virou-se para Struan. — Você vai perder mais do que nós, por Deus, mas está com um sorriso nos lábios. Por quê?

— Papai — disse Tess, aterrorizada com a possibilidade de que a raiva estragasse a noite, e a inacreditável aceitação de Culum por seu pai — vamos beber alguma coisa? O champanha está fresco e pronto.

— Sim, claro, Tess, amor — disse Brock. — Mas não entende o que Dirk disse? Vamos perder uma quantidade terrível de dinheiro. Se tivermos de abandonar o local, então nosso futuro vai ser negro como breu. E o dele também, por Deus!

— O futuro da Casa Nobre será branco como os rochedos de Dover — disse Struan, tranqüilamente. — E não só o nosso, como o de vocês também. Longstaff vai reembolsar a todos nós do dinheiro que gastamos no Vale Feliz. Cada tostão. À vista.

— Não é possível! — exclamou Brock.

— É uma mentira, por Deus! — disse Gorth. Struan virou-se para ele. — Ouça um conselho, Gorth. Não me chame de mentiroso pela segunda vez. — Então, disse-lhe o que Longstaff pretendia fazer.

Culum ficou maravilhado com a perfeição do acerto. Viu claramente que, embora seu pai em nenhum momento insinuasse que influenciara a decisão de Longstaff, deveria ter colaborado para tudo ser ajeitado de maneira tão sutil. Lembrou-se de seu primeiro encontro com Longstaff, e de como seu pai manipulara o homem, como a um fantoche. A fé de Culum em si mesmo ficou abalada. Percebeu que as palavras de Gorth não eram completamente verdadeiras, ele nunca poderia dominar Longstaff como seu pai fizera — para salvá-los outra vez.

— É quase um milagre — disse, e segurou a mão de Tess.

— Por tudo que é sagrado, Tai-Pan — falou Gorth — retiro o que disse. Desculpe... eu estava sob o efeito do choque. Sim... eu lhe dou os parabéns.

— Dirk — começou Brock, com um sombrio bom humor — estou satisfeito... muito satisfeito, por ter você como parente. Você salvou nossa situação, Deus é testemunha.

— Não fiz nada. Foi idéia de Longstaff.

— Muito bem — disse Brock, sardonicamente.— Mais poder para ele. Liza, bebidas, por Deus! Dirk, você nos deu uma grande razão para comemorar esta noite. Você fez a noite, por Deus! Então, vamos beber e festejar. — Pegou uma taça de champanha, e depois de todos apanharem suas taças, ergueu a dele, num brinde. — Para Tess e Culum, que tenham sempre em sua vida mar calmo e porto seguro.

Todos beberam. Então Brock apertou a mão de Culum, Struan abraçou Tess e houve amizade entre todos.

Mas só temporariamente. Todos sabiam disso. Mas aquela noite estavam preparados para esquecer. Só Tess e Culum se sentiam seguros.

Todos se sentaram para jantar. Tess usava um vestido que favorecia sua silhueta juvenil, e Culum estava quase louco de adoração. Mais vinho foi servido, e houve novas risadas e brindes. Num momento de calma, Struan pegou um envelope grosso e entregou o a Culum. -Um pequeno presente para os dois.

— O que é? — perguntou Culum.

Abriu o envelope. Tess espichou o pescoço para ver também. O envelope continha um maço de papéis, um deles cheio de caracteres chineses.

— É a escritura de um lote de terra, logo acima do Cabo Glessing.

— Mas nunca houve venda de terras ali — disse Brock, com suspeita.

— Sua Excelência aprovou certos títulos de chineses da vila que possuíam terras antes de nos apoderarmos de Hong Kong. Este é um deles. Culum, agora você e Tess têm um acre juntos. A vista é muito bonita. Ah, sim, e junto com a escritura, há material de construção suficiente para uma casa com sete quartos, um jardim e um alpendre.

— Ah, Tai-Pan — disse Tess, com um sorriso cheio de felicidade — obrigada! Obrigada!

— Nossa própria terra? E nossa própria casa? É mesmo verdade? — perguntou Culum, tonto com a magnanimidade do pai.

— Sim, rapaz. Pensei que gostaria de começar a construir imediatamente. Marquei um encontro para ambos com nosso arquiteto amanhã, ao meio-dia. Para começar o projeto.

— Vamos partir para Macau amanhã — disse Gorth, com azedume.

— Mas, Gorth, você não se importaria de adiar a viagem por um ou dois dias, não é? — disse Culum. — Afinal, isto é muito importante...

— Ah, sim — disse Tess.

— ... e com a solução para o caso da Cidade da Rainha e a venda de terras... — Culum parou e se virou, cheio de excitação, para sua noiva. — Sousa é o melhor arquiteto do Oriente.

— Nosso arquiteto, Remédios, é melhor, eu acho — disse Brock, furioso consigo mesmo por não ter pensado em deixá-los construir sozinhos uma casa. Planejara dar-lhes uma das casas da companhia em Macau, como presente de casamento, bem longe da influência de Struan.

— Ah, sim, ele é muito bom, Sr. Brock — disse Culum, depressa, percebendo o ciúme. — Se não ficarmos satisfeitos com Sousa, então poderemos procurá-lo. — Depois, para Tess: — Você concorda? — e, em seguida, para Struan: — Não posso agradecer a você o bastante.

— Não agradeça, Culum. Os jovens devem ter um bom começo na vida e casa própria para morar. — Struan estava encantado com a maneira como provocara Gorth e Brock.

— Sim — disse Liza, com indulgência. — Por Deus, é uma grande verdade. Brock pegou o título e examinou-o.

— Tem certeza de que este documento é legal? — perguntou.

— Não é regular.

— Sim. — Longstaff confirmou-o. Oficialmente. Seu carimbo está na última página.

Brock franziu a testa para Gorth, e suas sobrancelhas cerradas formaram uma barra negra no rosto curtido.

— Andei pensando que talvez seja bom examinarmos esses títulos de propriedade nativos.

— Sim — disse Gorth. Ele olhou diretamente para Struan.

— Talvez não haja mais nenhum à venda, papai.

— Creio que há outros, Gorth — disse Struan, descontraidamente — se você estiver preparado para descobri-los. A propósito, Tyler, logo que os novos lotes de terra tiverem sido demarcados, talvez seja melhor discutirmos nossa posição.

— Também acho — disse Brock. — Como antes, Dirk. Mas você escolhe primeiro, desta vez. — Passou outra vez a escritura a Tess, que a acariciou.

— Culum, você ainda é vice-secretário colonial?

— Acho que sim. — Culum riu. — Embora meus deveres jamais tenham sido especificados. Por quê?

— Por nada.Struan terminou de beber seu vinho e decidiu que era hora.

— Agora que o Vale Feliz será abandonado e o problema resolvido, com a nova cidade a ser erguida na costa da Coroa, o futuro de Hong Kong está garantido.