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— O que, Tai-Pan?

— A ajuda está aí, rapaz. Faça uma grande cena quando embarcar no Calcutta Mahrajah... acene, grite, enquanto estiver afastando-se do porto. Deixe todos saberem que você está a bordo.

— Deus lhe abençoe, Tai-Pan. — Um bruxuleio de luz voltou-lhe aos olhos. — Mas não quero partir da Ásia. Não posso ir embora.

— Há roupas de cule na sampana. Você pode passar para a lorcha do piloto, quando estiver fora do porto. Subornei a tripulação, mas não o piloto, então mantenha-se longe da vista dele.

— Com mil demônios! — Quance parecia ter crescido polegadas. — Mas... onde poderei esconder-me no Tai Ping Shan?

— A Sra. Fortheringill está à sua espera. Acertei uma permanência de dois meses. Mas você me deve o dinheiro que gastei, por Deus!

Quance atirou os braços em torno de Struan e soltou um berro, que Struan interrompeu.

— Pelo sangue de Cristo, tenha cuidado. Se Maureen tiver qualquer suspeita, vai tornar as nossas vidas um inferno e nunca irá embora.

— Tem toda razão — disse Quance, num sussurro gutural, e correu para a porta.

Parou logo. — Dinheiro! Vou precisar de dinheiro. Pode me emprestar algum, Tai-Pan? Struan já segurava uma pequena bolsa de ouro.

— Aqui tem cem guinéus. Vou acrescentar na sua conta.

A bolsa desapareceu no bolso de Quance. Aristotle abraçou Struan outra vez e atirou um beijo para o retrato sobre a lareira.

— Dez retratos da lindíssima May-may. Dez guinéus abaixo do meu preço normal,

por Deus. Ah, imortal Quance, eu o adoro! Livre! Livre, por Deus! Dançou uma Kankana e, depois, deu um grande salto e desapareceu.

***

May-may olhou para o bracelete de jade. Ela o levou para mais perto da luz do sol, que jorrava através da vigia, aberta, e examinou-o meticulosamente. Não se enganara quanto à seta que estava delicadamente entalhada nele, e nem quanto aos caracteres, que diziam: “Filhotes de esperança.”

— É um belo jade — ela disse, em mandarim.

— Obrigado, Suprema entre as Supremas — respondeu Gordon Chen, no mesmo idioma.

— Sim, muito lindo — respondeu May-may e devolveu-o a ele.

Gordon pegou o bracelete e gozou seu contato, por um momento, mas não tornou a colocá-lo em seu pulso. Em vez disso, atirou-o habilmente pela portinhola e ficou a observá-lo até desaparecer no mar.

— Eu ficaria honrado se o tivesse aceitado como presente, Suprema Senhora. Mas certos presentes pertencem à escuridão do mar.

— Você é muito sábio, meu filho — disse ela. — Mas não sou uma Suprema Senhora. Apenas uma concubina.

— Meu pai não tem esposa. Portanto, é a Suprema das Supremas.

May-may não respodeu. Ela ficara desconcertada, ao verificar que o mensageiro era Gordon Chen. E, não obstante o bracelete, decidiu ser muito cautelosa e falar através de enigmas, para o caso de ele ter interceptado o bracelete — como sabia também que Gordon Chen seria igualmente cauteloso e falaria através de enigmas.

— Quer chá?

— Seria muito trabalho, Mãe.

— Nenhum trabalho, meu filho — ela disse.

Foi para a cabina contígua. Gordon Chen seguiu-a e ficou maravilhado com a beleza de seu andar e com seus pequenos pés, a cabeça tonta com a delicadeza de seu perfume. Você a amou desde o primeiro momento em que a viu, disse para si próprio. Ela é uma criação sua, de certa maneira, pois foi você quem lhe deu a língua bárbara e pensamentos bárbaros.

Ele abençoou seu pagode por o Tai-Pan ser seu pai e seu respeito por ele ser imenso. Sabia que, sem este respeito, seu amor por May-may não poderia permanecer filial. O chá foi trazido e May-may dispensou Lim Din. Mas, por uma questão de decoro, permitiu a Ah Sam que ficasse. Sabia que Ah Sam não poderia entender o dialeto de Soochow, no qual recomeçou sua conversa com Gordon.

— Uma seta pode ser muito perigosa.

— Sim, Suprema Senhora, se estiver em mãos erradas. Está interessada na arte de atirar com o arco?

— Quando eu era muito pequena, costumávamos empinar papagaios, meus irmãos e eu. Uma vez, usei um arco, mas me assustou. Porém, suponho que, algumas vezes, o arco seja um presente dos deuses, e não represente perigo.

Gordon Chen pensou por um momento.

— Sim. Se estivéssemos nas mãos de um homem faminto, e ele quisesse caçar e atingir sua presa.

O leque de May-may movimentava-se graciosamente. Estava satisfeita por ele saber a maneira como sua mente funcionava; isto tornava a transferência de informações mais fácil e mais excitante.

— Um homem assim precisaria ser muito cuidadoso, se só tivesse uma possibilidade de atingir o alvo.

— É verdade, Suprema Senhora. Mas um caçador esperto tem muitas setas em sua aljava. — Que caça tinha de ser perseguida?, ele perguntou a si mesmo.

— Uma pobre mulher jamais poderá experimentar as alegrias masculinas da caça — ela disse, calmamente.

— O homem é o princípio yang... ele é o caçador, por escolha dos deuses. A mulher é o princípio yin... aquela para quem o caçador traz a comida a ser preparada.

— Os deuses são muito sábios. Muito. Ensinam ao caçador a caça que serve para alimentar e a que não serve.

Gordon Chen bebeu seu chá, delicadamente. Quererá ela dizer que deseja que alguém seja encontrado? Ou alguém seja caçado e morto? Quem será que ela quer encontrar? Quem sabe a última amante do tio Robb e sua filha? Provavelmente não, pois não haveria necessidade de tal sigilo — e, certamente, Jin-qua jamais me envolveria. Por todos os deuses, que poder tem esta mulher sobre a cabeça de Jin-qua? O que lhe fez, para forçá-lo a me ordenar — e, através de mim, todo o poder dos Tríades — a fazer o que ela quiser?

Então, um boato que ouvira assumiu seu sentido: o boato de que Jin-qua sabia, antes de todos os outros, que a frota voltaria imediatamente a Cantão, e não iria para o norte, como todos haviam suposto que faria. Ela deveria ter mandado a informação em particular a Jin-qua, e assim o colocara em posição de seu devedor! Ayeee yah, e que dívida! Saber antecipadamente de uma coisa dessas certamente poupara a Jin-qua três ou quatro milhões de taéis.

Seu respeito por May-may aumentou.

— Algumas vezes, o caçador tem de usar suas armas para se proteger contra os animais selvagens da floresta — disse, oferecendo-lhe uma abertura diferente. — É verdade, meu filho. — Seu leque se fechou abruptamente e ela estremeceu. — Que os deuses protejam uma pobre mulher contra esses males.

Então, ela quer que alguém seja morto, pensou Gordon. Examinou a xícara de porcelana e ficou imaginando quem.

— O pagode determina que o mal caminhe em muitos lugares. Elevados e baixos. No continente, nesta ilha.

— Sim, meu filho — disse May-may, e seu leque adejava, os lábios tremiam ligeiramente. — Até mesmo no mar. Até entre aqueles de nobre estirpe e os muito ricos. Terríveis são os caminhos dos deuses.

Gordon Chen quase deixou a xícara cair. Ele se virou de costas para May-may e tentou recompor seu espírito abalado. “Mar” e “de nobre estirpe” só poderiam significar duas pessoas. Longstaff ou o próprio Tai-Pan. Dragões da morte, ir de encontro a qualquer um dos dois precipitaria um holocausto! Seu estômago deu voltas. Mas por quê?

E seria o Tai-Pan? Não o meu pai, ó deuses. Não permiti que seja meu pai.

— Sim, Suprema Senhora — disse ele, com um traço de melancolia, pois sabia que seu juramento o comprometia a fazer qualquer coisa que ela ordenasse. — Os deuses têm caminhos terríveis.

May-may observara a repentina mudança em Gordon Chen e não conseguia entender

o motivo. Hesitou, desconcertada. Depois, levantou-se e caminhou para as vigias da popa.