A nau capitania estava tranqüilamente ancorada no porto, com sampanas a cercá-la, no mar cintilante. O China Cloud encontrava-se mais além, com âncoras de tempestade, tendo próximo o White Witch.
— Os navios são tão lindos — ela disse. — Qual você acha mais interessante?
Ele se aproximou das vigias. Não pensou que poderia ser Longstaff. Não haveria nenhum objetivo nisso, não para ela. Para Jin-qua, talvez, mas não para ela.
— Acho que é aquele — disse ele, gravemente, fazendo um aceno de cabeça em
direção ao China Cloud. May-may arquejou e deixou cair o leque.
— Pelo sangue de Cristo — disse, em inglês. Ah Sam ergueu os olhos, por um momento, e May-may recuperou instantaneamente o controle. Gordon Chen pegou o leque e fez uma profunda curvatura ao devolvê-lo a ela.
— Obrigada — ela continuou, em dialeto Soochow. — Mas prefiro aquele navio. — Apontou com o leque para o White Witch. Ainda estava abalada por perceber, horrorizada, que Gordon Chen pensava ser seu desejo a morte do adorado Tai-Pan. — O outro é jade valiosíssimo. De valor incalculável, entende? Inviolável, por todos os deuses. Como ousa ter a impertinência de pensar de outra maneira?
O alívio dele foi palpável.
— Perdoe-me, Suprema Senhora. Eu me prosternaria mil vezes, em abjeto pedido de desculpas, aqui e agora, mas sua escrava poderia achar curioso — disse, numa apressada mistura de palavras em Soochow e Mandarim, deliberadamente misturadas. — Por um momento, um demônio entrou em minha tola cabeça e não a entendi claramente. Claro que jamais, jamais consideraria uma comparação entre esses navios, um contra o outro.
— Sim — ela disse. — Se um fio de corda de cânhamo, se uma lasca de madeira fossem tocados no outro, eu seguiria quem tivesse ousado desafiar uma coisa tão preciosa até às profundezas do inferno, e ali dilaceraria seus testículos e lhe arrancaria os olhos e o faria comer as próprias entranhas!
Gordon Chen piscou, mas manteve a voz em tom casual.
— Não tema, Suprema Senhora. Não tema, de maneira alguma. Eu me prosternarei cem vezes, em penitência, por não ter entendido a diferença entre jade e madeira. Eu não quero jamais sugerir... eu não quero que pense que não entendo.
— Ótimo.
— Se me dá licença agora, Suprema Senhora, vou cuidar dos meus negócios.
— Seu negócio não terminou — ela disse, rudemente. — E a boa educação sugere que tomemos mais chá. — Bateu palmas majestosamente para Ah Sam, e mandou-a trazer chá novo. E toalhas quentes. Quando Ah Sam voltou, May-may falou em cantonês:
— Ouvi dizer que muitos navios estarão partindo para Macau muito em breve — disse ela, e Gordon Chen, imediatamente, entendeu que Brock deveria ser liquidado em Macau, e imediatamente.
Ah Sam se animou.
— Acha que iremos? Ah, adoraria ver Macau outra vez. — Ela sorriu, timidamente, para Gordon Chen. — Conhece Macau, nobre senhor?
— Claro — ele disse.
Normalmente, uma escrava não teria ousado dirigir-se a ele. Mas sabia que Ah Sam era a confidente pessoal de May-may e sua escrava particular e, como tal, tinha múltiplos privilégios. Também a achou muito bonita — para uma barqueira Hoklo. Tornou a olhar para May-may.
— Infelizmente, não poderei ir este ano. Embora muitos de meus amigos naveguem sempre de cá para lá.
May-may fez um sinal afirmativo com a cabeça.— Ouvi dizer que a noite passada o filho bárbaro de Papai ficou noivo? Pode imaginar uma coisa dessas? Com a filha de seu inimigo. Gente extraordinária, esses bárbaros.
— Sim — disse Gordon, surpreso por May-may achar necessário tornar mais clara a remoção de Brock. Não iria ela querer a destruição de toda família, não? — Inacreditável.
— Não que eu me preocupe com o pai... ele é velho e, se os deuses forem— justos, seu pagode acabará em breve. — May-may atirou a cabeça para trás e fez tilintarem seus ornamentos de jade e prata. — Quanto à moça, suponho que fará bons filhos... embora, realmente, eu não possa imaginar o que qualquer homem possa apreciar naquela coisa de pernas grossas e peito de vaca.
— Sim — disse Gordon Chen, em tom amável.
Então, não é Brock quem deve ser morto. E nem a filha. Isto deixa de fora a mãe e o irmão. A mãe é bastante improvável; portanto, deverá ser o irmão. Gorth. Mas por que só
o irmão, por que só Gorth Brock? Por que não pai e filho? Obviamente, ambos são um perigo para o Tai-Pan. O respeito de Gordon por seu pai aumentou imensamente. Como era sutil fazer parecer que May-may era a instigadora do estratagema! Que sinuosidade deixar escapar uma sugestão a May-may, que foi a Jin-qua, que veio a mim! Que sutileza! Claro, disse a si próprio, isto significa que o Tai-Pan sabia que May-may passava informações secretas — deveria ter, deliberadamente, dado a ela informação, para colocar Jin-qua como seu devedor. Mas será que ele, conseqüentemente, sabe a respeito dos Tríades? E de mim? Claro que não.
Sentiu-se muito cansado. Sua mente estava esgotada de tanta excitação e perigo. E ele estava muito preocupado com a pressão crescente que os mandarins exerciam contra os Tríades em Kwangtung. E os Tríades de Macau. E até no Tai Ping Shan. Os mandarins contavam com muitos agentes entre os habitantes do morro e, embora a maior parte deles fosse conhecida e quatro já tivessem sido liquidados, a ansiedade provocada por sua presença pesava muito sobre ele. Se chegassem a saber que era o líder da Tríade de Hong Kong, jamais poderia voltar a Cantão, e sua vida aqui não valeria as fezes do proprietário de uma sampana.
Além disso, seus sentidos estavam dominados pelo sutil perfume de May-may e pela clamorosa sexualidade de Ah Sam. Gostaria de levar a criada para a cama, pensou. Mas isto não é aconselhável, e é perigoso. A não ser que a Mãe sugira. É melhor voltar correndo para o Tai Ping Shan, para os braços da concubina mais valiosa do morro. Por todos os deuses, ela quase vale os mil taéis que custou. Faremos amor dez vezes esta noite, de dez maneiras diferentes. Sorriu para si mesmo. Seja honesto Gordon, serão apenas três vezes. E três com pagode — mas como será maravilhoso!
— Sinto muito não poder ir para Macau — ele disse. — Suponho que todos os parentes de Papai, através do casamento, estarão indo, não? Particularmente o filho?
— Sim — disse May-may, com um doce suspiro, percebendo que sua mensagem agora estava clara — suponho que sim.
— Ah! — disse Ah Sam, com desprezo. — Haverá grande felicidade quando o filho partir de Hong Kong.
— Por quê? — perguntou May-may, com atenção, e Gordon Chen ficou igualmente alerta, sua fadiga desaparecendo. Ah Sam guardara a informação rara para uma ocasião importante como aquela.
— Esse filho é um verdadeiro demônio bárbaro. Ele vai para um dos bordéis bárbaros duas ou três vezes por semana. — Ela parou e serviu mais chá.
— Bom, continue, Ah Sam — disse ela, com impaciência.
— Ele as espanca — disse, em tom de importância.
— Talvez desagradem a ele — disse May-may. — Um bom espancamento jamais poderia magoar uma daquelas putas bárbaras.
— Sim. Mas ele as açoita e espezinha antes de se deitar com elas.
— Você quer dizer, todas as vezes? — perguntou May-may, com incredulidade.
— Todas as vezes — disse Ah Sam. — Ele paga pelo espancamento e depois pela... pela... bom, pela manipulação... pois o resto é apenas isso. Pffff! E então tudo acaba — estalou o dedo — assim!
— Ah! E como você sabe de tudo isso, hein? — perguntou May-may. — Acho que você merece um bom beliscão. Acho que você está inventando isso tudo, sua faladora!
— Claro que não, Mãe. Aquela madame bárbara... a velha feiticeira, com um nome incrível? A que tem olhos de vidro e os incríveis dentes que se deslocam?