— Fortheringill? — perguntou Gordon Chen.
— Exatamente, nobre senhor. Fortheringill. Bom, aquela madame tem a maior casa da Cidade da Rainha. Recentemente, ela comprou seis moças Hoklo e uma cantonesa. Uma das...
— Foram cinco moças Hoklo — disse Gordon Chen.
— Também está nesse negócio? — perguntou May-may, polidamente.
— Ah, sim — ele respondeu. — Tornou-se muito lucrativo.
— Continue, Ah Sam minha bonequinha.
— Bom, Mamãe, como eu estava dizendo, uma das moças Hoklo é parente de Ah Tat que, como sabe, é parente de minha mãe, e essa moça foi destacada para ser a parceira dele, por uma noite. Uma vez foi o bastante! — Ah Sam baixou a voz, ainda mais. — Ele quase a matou. Bateu-lhe na barriga e nas nádegas até sair sangue e, depois, forçou-a a fazer coisas esquisitas com o sexo. Depois...
— Que coisas esquisitas? — perguntou Gordon Chen, em igual sussurro, inclinando-se para mais perto.
— Sim — disse May-may — que coisas?
— Certamente não cabe a mim contar práticas tão estranhas e obscenas, ah, meu Deus, não, mas ela teve de usar todas as partes de seu corpo para satisfazer a ele.
— Todas?
— Todas, Mamãe. E com os terríveis espancamentos e a maneira como ele a mordeu e chutou e maltratou, a pobre moça quase morreu.
— Que extraordinário! — Depois, May-may disse a ela, rudemente: — Ainda acho que você está inventando, Ah Sam. Não tinha dito que isto era tudo — estalou os dedos, imperiosamente — pfff! e só isso, para ele?
— É isso mesmo. E ele sempre culpa, horrivelmente, a moça, embora não seja nunca por causa dela. Esse é o problema principal. Isso, e o fato de ser tão pequeno e mole. — Ah Sam ergueu as mãos para o céu e começou a se lamentar: — Que eu nunca tenha filhos, se menti! Que meus ancestrais sejam consumidos pelos vermes, se menti! Que meus ancestrais jamais descansem em paz, e nunca renasçam, se menti! Que...
— Ah, está bem, Ah Sam — disse May-may, irritada. — Acredito em você. Ah Sam, melindrosamente, voltou a tomar seu chá.
— Como ousaria mentir para minha soberba mãe, e seu nobre parente? Mas acho que os deuses, com certeza, irão punir uma fera bárbara como aquela!
— Sim — disse Gordon Chen.
E May-may sorriu para si mesma.
LIVRO V
Aquela tarde, Struan embarcou no China Cloud. Enviou o Capitão Orlov para uma das lorchas e Zergeyev para alojamentos espaçosos no Resting Cloud. Mandou desfraldar todas as velas e soltar as amarras e saiu do porto, dirigindo-se a águas profundas.
Durante três dias, arremessou o China Cloud, como uma flecha, em direção a sudoeste, com as vergas rangendo, devido ao pano estar todo inflado.
Foi para o mar a fim de se purificar. Limpar as impurezas e as palavras de Sarah e a perda de Robb e Karen.
E abençoar May-may pela alegria que ela representava.
Foi para o seio do oceano como um amante afastado há uma eternidade, e o oceano lhe deu as boas-vindas com ventos e tempestade, mas controlados, jamais colocando em risco o navio e nem a ele, que o dirigia. O mar lhe ofertou generosamente sua riqueza, fortalecendo-o outra vez, dando-lhe vida, dando-lhe dignidade e abençoando-o como só o mar pode abençoar um homem, purificando-o como só o oceano pode purificar um homem.
Arremessava a si próprio como ao navio, sem dormir, testando os limites de sua força. E os turnos dos marinheiros se sucediam, com ele sempre a caminhar pelo tombadilho: de sol a sol, cantando baixinho para si mesmo, quase sem se alimentar. E sem falar jamais, exceto para exigir mais velocidade, ou ordenar que fosse substituído um jovem roto ou desfraldada outra vela. Arremessou-se para as profundezas do Pacífico, para o infinito.
No quarto dia, deu a volta e impeliu o navio, durante a metade do dia, em direção a noroeste. Depois, colocou-o à capa e desceu, fez a barba, tomou banho, dormiu durante um dia e uma noite e, na madrugada seguinte, comeu uma refeição completa. Em seguida, foi para o convés.
— Bom-dia, senhorrrr — disse Cudahy.
— Tome o curso de Hong Kong.
— Sim, senhorrrr.
Ficou no tombadilho o dia inteiro e parte da noite e, mais uma vez, dormiu. Ao amanhecer, observou o sol e fez uma marca no mapa, determinando outra vez que o navio fosse colocado à capa. Então mergulhou por sobre a amurada e nadou nu no mar. Os marinheiros fizeram o sinal-da-cruz, supersticiosamente. Havia tubarões nadando em torno.
Mas os tubarões se mantiveram à distância:
Tornou a subir a bordo e ordenou que o imaculado navio fosse lavado e os conveses esfregados — com areia, escova e água — o cordame substituído, as velas cuidadas, embornais e canhões limpos. Sua própria roupa e a dos homens ele atirou por sobre a amurada. Entregou novos trajes aos marinheiros e pegou roupas de marinheiro para si mesmo.
Foi servida a todos uma dose dupla de rum.
Ao amanhecer do sétimo dia, Hong Kong apareceu no horizonte, bem em frente. O Cume estava amortalhado em neblina. Havia cirros no alto e nuvens gordas mais embaixo.
Ele ficou em pé no gurupés, com a espuma encapelando-se logo abaixo. — Distribua seus malefícios, Ilha! — gritou, e o vento leste lhe levou a voz. — Estou em casa!
CAPÍTULO TRINTA E UM
O China Cloud voltou para o porto, através do canal oeste. O sol que se levantava era forte, o vento, vindo do leste, firme e úmido.
Struan estava no tombadilho, nu até à cintura, com a pele muito bronzeada e o cabelo vermelho-dourado clareado pelo sol. Focalizou seu binóculo nos navios no porto. Primeiro o Resting Cloud. Bandeiras de código drapejavam na mezena: “Zenith” — o proprietário deve vir imediatamente a bordo. Já era de se esperar, pensou. Lembrou-se da última vez — há uma eternidade — em que lera “Zenith” no Thunder Cloud e isto prenunciava a notícia de tantas mortes e a chegada de Culum.
No porto, havia mais navios para transporte de soldados do que antes. Todos tinham bandeiras da Companhia das índias Orientais. Ótimo. Os primeiros reforços. Viu um grande bergantim perto da nau capitania. A bandeira russa drapejava à popa e a bandeirola tzarista estava acima do mastro principal.
Havia muito mais sampanas e juncos do que o habitual, cortando as ondas.
Depois de examinar meticulosamente o resto da frota, virou-se para a praia, enquanto o cheiro do mar se misturava, agradavelmente, com o da terra. Podia ver atividade perto do Cabo Glessing e muitos europeus e grupos de mendigos caminhando pela Estrada da Rainha. O Tai Ping Shan parecia ter crescido apreciavelmente.
O Leão e o Dragão adejavam sobre a feitoria abandonada da Casa Nobre e o vazio Vale Feliz.
— Quatro pontos a estibordo!
— Sim, sim, senhorrrr — cantou o timoneiro.
Struan, habilmente, pilotou a lorcha para colocá-la ao lado do Resting Cloud. Vestiu uma camisa e subiu para bordo.
— Bom-dia — disse o Capitão Orlov. Conhecia o Tai-Pan bastante bem e não lhe perguntou onde estivera.
— Bom-dia. Estão com o sinal “Zenith”. Por quê?
— Ordens de seu filho.
— Onde está ele?
— Em terra.
— Por favor, traga-o para bordo.
— Chamaram-no, quando seu navio entrou no porto.