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Struan ofereceu um charuto e acendeu-o.

— Por quanto tempo você teria esperado, Culum?

— Não entendo.

— Que eu voltasse. O mar poderia ter-me engolido.

— Ah, não você, Tai-Pan.

— Um dia poderá engolir... engolirá. — Struan soprou uma baforada de fumaça e olhou-a flutuar. — Se eu, algum dia, for embora outra vez sem lhe dizer para onde, espere quarenta dias. Não mais. Ou estou morto ou não tornarei a voltar.

— Está bem. — Culum ficou imaginando onde seu pai queria chegar. — Por que você partiu assim?

— Por que você conversa com Tess?

— Isso não é resposta.

— O que mais aconteceu desde que eu fui embora?

Culum estava desesperadamente tentando entender, mas não conseguia. Ele tinha pelo pai um respeito ainda maior do que antes, mas não sentia nenhum amor filial. Conversara durante horas com Tess e descobrira nela uma fantástica profundidade. E haviam discutido seus pais, tentando avaliar aqueles dois que eles amavam, temiam, e, algumas vezes, odiavam mais do que qualquer outra coisa na terra, mas para quem corriam, ao primeiro sinal de Perigo.

— As fragatas voltaram de Quemoy.

— E?...

— Destruíram entre cinqüenta e cem juncos. Grandes e pequenos. E três ninhos de piratas na costa. Talvez tenham afundado Wu Kwok, talvez não.

— Acho que logo saberemos.

— Anteontem, eu visitei sua casa no Vale Feliz. Os vigias... ah, você sabe que ninguém quer ficar ali à noite... acho que a casa foi invadida e muito saqueada. Struan ficou pensando se o cofre secreto havia sido violado.

— Não há nenhuma notícia boa?

— Aristotle Quance fugiu de Hong Kong.

— Hein?

— Sim. A Sra. Quance não acredita, mas todos, pelo menos quase todos, o viram no navio, o mesmo que levou a tia Sarah para a Inglaterra. A pobre mulher acredita que ele ainda está em Hong Kong. Você sabia a respeito de George e Mary Sinclair? Eles vão casar. Isto é bom, embora Horatio esteja terrivelmente aborrecido. Mas, também, nem tudo está bem. Acabamos de saber que Mary está muito doente.

— Malária?

— Não, uma enfermidade qualquer, contraída em Macau. É muito estranho. George recebeu uma carta, ontem, da madre superiora da Ordem Católica de Enfermeiras. O pobre coitado está mortalmente preocupado! Não se pode confiar nesses papistas.

— O que disse a madre superiora?

— Só que achava seu dever informar a respeito de Mary ao parente mais próximo. E que Mary dissera para escrever a George. Struan franziu a testa.

— Por que diabo ela não foi para o Hospital Missionário? E por que não informou Horatio?

— Não sei.

— Você contou a Horatio?

— Não.

— Será que Glessing disse a ele?

— Duvido. Eles parecem se odiar agora.

— É melhor você ir com os Brocks, e ver como ela está.

— Achei que você ia querer notícias em primeira mão, por isso enviei o sobrinho de Vargas, Jesus, de lorcha, ontem. O pobre George não conseguiu uma licença, por parte de Longstaff e eu também queria ajudá-lo.

Struan se serviu de mais chá e, depois, olhou para Culum com um respeito novo.

— Muito bem.

— Bom, eu sei que ela é quase como uma tutela sua.

— Sim.

— A única coisa além disso é que o inquérito sobre o acidente com o arquiduque foi arquivado, há alguns dias. O júri achou que fora apenas um acidente mesmo.

— Você acha que foi?

— Claro. Não acha?

— Visitou Zergeyev?

— No mínimo uma vez por dia. Ele esteve no inquérito, claro, e... disse muitas coisas lisonjeiras a seu respeito. Como você o ajudou, salvou-lhe a vida, coisas assim. Zergeyev não pôs a culpa em ninguém e disse que já informara o tzar, neste sentido. Disse, abertamente, que acreditava dever sua vida a você. Skinner tirou uma edição especial do Oriental Times, dando cobertura ao inquérito. Eu a guardei para você. — Culum entregou-lhe o jornal. — Não ficaria surpreso se você receber uma comenda real do tzar, pessoalmente..

— Como vai Zergeyev?

— Está caminhando, agora, mas seu quadril ficou muito rígido. Acho que sente muitas dores, embora jamais fale disso. Diz que nunca cavalgará outra vez.

— Mas está bem?

— Tão bem quanto é possível a um homem que vive para cavalgar.

Struan foi até o aparador e serviu xerez para dois. O rapaz mudou, pensou. Sim, mudou muito. Estou orgulhoso de meu filho. Culum aceitou o copo e ficou a olhá-lo. — À sua saúde, Culum. Você se saiu muito bem.

— À sua, .papai. — Culum escolheu a palavra intencionalmente.

— Obrigado.

— Não me agradeça. Quero ser Tai-Pan da Casa Nobre. E muito. Mas não quero esperar por uma herança.

— Nunca pensei que você fosse esperar por herança — replicou Struan.

— Sim, mas considerei o assunto. E sei que, na verdade, não gosto da idéia.

Struan perguntou a si mesmo como seu filho podia dizer uma coisa dessas tão calmamente.

— Você mudou muito nas últimas semanas.

— Estou aprendendo a respeito de mim mesmo, talvez. Por causa de Tess, principalmente... e por ter ficado sozinho por sete dias. Descobri que não estou preparado ainda para ficar sozinho.

— Gorth tem a mesma opinião que você, sobre a questão da herança?

— Não posso responder por Gorth, Tai-Pan. Só por mim mesmo. Sei que você tem razão na maioria das coisas, que eu amo Tess, que você está indo contra tudo em que acredita para me ajudar.

Outra vez, Struan lembrou as palavras de Sarah.

Bebeu seu xerez, contemplativamente.

***

Roger Blore tinha vinte e poucos anos, e um rosto tão tenso quanto seus olhos. Suas roupas eram caras, mas surradas, e seu físico de pequenas dimensões, enxuto e destituído de gordura. Tinha cabelo louro-escuro e seus olhos azuis estavam profundamente fatigados.

— Por favor, sente-se, Sr. Blore — disse Struan. — E agora, por que todo esse mistério? E por que precisava ver-me a sós? Blore continuou em pé.

— O senhor é Dirk Lochlin Struan?

Struan ficou surpreendido. Muito poucas pessoas sabiam de seu nome intermediário.

— Sim. E quem poderá ser o senhor?

Nem o rosto do homem e nem o seu nome significavam nada para Struan. Mas seu sotaque era de pessoa bem-educada — Eton, Harrow ou Charter House.

— Posso ver o seu pé esquerdo, senhor? — pediu o jovem, cortesmente.

— Pela morte de Cristo! Mas que sujeitinho insolente! Diga o que quer e saia!

— Tem toda razão em se irritar, Sr. Struan. As possibilidades de que o senhor seja o Tai-Pan são de cinqüenta contra uma. Cem contra uma. Mas preciso ter certeza de que o senhor é quem diz ser.

— Por quê?

— Porque tenho uma informação para Dirk Lochlin Struan, o Tai-Pan da Casa Nobre, cujo pé esquerdo foi meio arrancado por um tiro... uma informação da maior importância.

— Da parte de quem?

— Do meu pai.

— Não me lembro do seu nome e nem do seu pai, e tenho uma boa memória para nomes, por Deus!

— Meu nome não é Roger Blore, senhor. Trata-se apenas de um pseudônimo... por uma questão de segurança. Meu pai é membro do Parlamento. Tenho quase certeza de que o senhor é o Tai-Pan. Mas, antes de dar a informação, preciso ter absoluta certeza. Struan tirou o punhal de sua bota direita e levantou a bota esquerda.

— Pode puxar — disse, com um tom perigoso. — E se a informação não for “da maior importância”, vou gravar minhas iniciais em sua testa.

— Então suponho que estou arriscando a minha vida. Uma vida pela outra. Ele arrancou a bota, suspirou de alívio e se sentou, debilmente.