Выбрать главу

— Meu nome é Richard Crosse. Meu pai é Sir Charles Crosse, membro do parlamento de Chalfont, St. Giles.

Struan encontrara Sir Charles duas vezes, há alguns anos. Naquele tempo, Sir Charles era um pequeno proprietário rural sem recursos, um veemente defensor do livre comércio e da importância do comércio asiático, bem-visto no Parlamento. Ao longo dos anos, Struan dera-lhe apoio financeiro e nunca lamentara o investimento. Devia ser a respeito da ratificação, pensou, com ansiedade.

— Por que não disse logo isso?

Crosse esfregou os olhos, cansado.

— Posso beber alguma coisa, por favor?

— Grogue, conhaque, xerez... sirva-se.

— Obrigado, senhor. — Crosse se serviu de um pouco de conhaque. — Obrigado. Desculpe, mas... bom, estou um pouco cansado. Papai me disse para ter muito cuidado... para usar um pseudônimo. E falar só com o senhor... ou, se estivesse morto, com Robb Struan. — Desabotoou a camisa e abriu uma bolsa que tinha amarrado em torno da cintura. — Ele lhe mandou isto. — Entregou a Struan um envelope sujo, com muitos selos, e se sentou.

Struan pegou o envelope. Estava endereçado a ele, datado de Londres. 29 de abril. Abruptamente, ele ergueu os olhos e sua voz desafinou.

— Você é um mentiroso! É impossível que tenha chegado aqui tão depressa. A carta é de apenas sessenta dias atrás!

— Sim, é, senhor — disse Crosse, alegremente — fiz o impossível. — Riu, nervosamente. — Papai jamais me perdoará.

— Ninguém fez nunca a viagem em sessenta dias. Qual o seu jogo?

— Parti numa terça-feira, 29 de abril. Diligência de Londres a Dover. Peguei o paquete para Calais no último minuto. Uma diligência para Paris e outra para Marselha. O paquete francês para Alexandria, faltando um segundo para a partida. Por terra para Suez, através dos bons ofícios de Mehemet Ali... a quem papai encontrou certa vez, e, depois, o paquete de Bombaim, por um átomo de segundo. Apodreci em Bombaim durante três dias e, então, tive um golpe fabuloso de sorte. Comprei passagem num clíper de ópio para Calcutá. Então...

— Que clíper?

— O Flying Witch, pertencente a Brock e Filhos.

— Continue — disse Struan, erguendo as sobrancelhas.— E, depois, um navio mercante de carreira indiana para Cingapura. O Bombay Prince. Então, que falta de sorte, não havia nenhum navio programado para Hong Kong por semanas. Mas tive sorte. Consegui convencer o pessoal de um navio russo, aquele e embarquei — disse Crosse, apontando pelas vigias da popa. — Era o jogo mais arriscado de todos, mas era minha última chance. Dei ao capitão os últimos guinéus que tinha. Antecipadamente! Pensei que eles, com certeza, iriam cortar a minha garganta e me atirar no mar, logo que partíssemos, mas era minha última chance. Cinqüenta e nove dias, na verdade, senhor... de Londres a Hong Kong.

Struan levantou-se e serviu outra dose a Crosse e uma dupla para si mesmo. Sim, é possível, pensou. Não é provável, mas é possível.

— Sabe o conteúdo da carta?

— Não, senhor. Pelo menos, sei apenas a parte que se refere a mim.

— E qual é?

— Papai diz que sou gastador, trapalhão, jogador e louco por cavalos — disse Crosse, com franqueza cândida. — E há um mandado de prisão por dívida contra mim, na prisão de Newgate. Que ele me confia à sua generosidade, e espera que seja capaz de encontrar um uso para meus “talentos”... qualquer coisa que me mantenha fora da Inglaterra, e distante dele pelo resto de sua vida. E expõe as paradas da aposta.

— Que aposta?

— Cheguei ontem, senhor. 28 de junho. Seu filho e muitos outros são testemunhas. Talvez deva ler a carta, senhor. Posso garantir-lhe que meu pai jamais aposta comigo, a não ser em questões da “máxima importância”.

Struan reexaminou os selos e os rompeu. A carta dizia: “Westminster, 11 horas da noite de 28 de abril de 41. Meu caro Sr. Struan: acabo de me inteirar, secretamente, de um despacho do Ministro de Relações Exteriores, Lord Cunnington, enviado ontem para o Ilustre William Longstaff, plenipotenciário de Sua Majestade na Ásia. O despacho diz, num trecho: ‘O senhor desobedeceu e negligenciou minhas ordens e parece considerá-las inúteis. Obviamente, parece decidido a resolver os negócios do Governo de Sua Majestade de acordo com seus caprichos. De maneira impertinente desconsiderou as instruções no sentido de que cinco ou seis portos chineses no continente se tornassem acessíveis aos interesses comerciais britânicos, e plenos canais diplomáticos permanentemente estabelecidos, nesse particular; de que isto fosse feito prontamente, de preferência através de negociações, mas, se as negociações fossem impossíveis, através do uso da força enviada para este explícito propósito e com despesas consideráveis. Em vez disso, o senhor procura um miserável rochedo, que mal tem nele uma só casa, e isto através de um tratado inteiramente inaceitável, e, ao mesmo tempo, a se dar crédito aos despachos navais e militares, continuamente vem empregando mal as Forças de Sua Majestade que estão sob seu comando. De maneira alguma pode Hong Kong se tornar, um dia, o empório comercial na Ásia — como Macau não se tornou. O Tratado de Chuenpi é totalmente repudiado. Seu sucessor, Sir Clyde Whalen, chegará aí a qualquer momento, meu caro senhor. Talvez possa ter a gentileza de transmitir seu cargo ao vice, Sr. C. Monsey, ao receber este despacho, e partir da Ásia imediatamente, numa fragata para tanto destacada, pela presente. Apresente-se no meu escritório logo que puder...”

“Estou sem saber que...”

Impossível! Impossível que tenha podido cometer um erro tão estúpido, louco e absurdo!, pensou Struan. Continuou a ler: “Estou sem saber que atitude tomar. Não há nada que possa fazer até a informação ser dada oficialmente na Casa. Não ouso usar abertamente esta informação secreta. Cunnington pediria minha cabeça e eu seria afastado da política. Mesmo colocar isto no papel, para si, desta maneira, é dar aos meus inimigos

— e quem, em política, só tem poucos? — uma oportunidade para me destruir e, comigo, todos aqueles que defendem o livre comércio e a posição pela qual o senhor vem lutando durante todos esses anos. Peço a Deus que meu filho coloque isto só em suas mãos.

“(A propósito, ele nada sabe a respeito do conteúdo particular desta carta.)

“Como sabe, o Ministro de Relações Exteriores é um homem autoritário, guia-se por seus próprios princípios, é o baluarte do nosso partido Whig. Sua atitude, no despacho, é perfeitamente clara. Temo que Hong Kong seja uma questão vencida. E, a menos que o Governo seja derrotado e os Conservadores de Sir Robert Peel subam ao poder — uma impossibilidade, eu diria, em futuro previsível — Hong Kong, provavelmente, permanecerá uma causa vencida.

“A notícia da falência do seu banco espalhou-se nos círculos internos na City — muito ajudada por seus rivais, liderados pelo jovem Morgan Brock. ‘Em grande confiança’, Morgan Brock, judiciosamente, lançou as sementes da desconfiança, juntamente com a informação de que os Brocks agora possuem a maioria — senão todas — das suas ações importantes, e isto prejudicou incomensuravelmente sua influência aqui. Além disso, uma carta do Sr. Tyler Brock e de certos outros negociantes chegou, quase simultaneamente com o despacho do Tratado de Chuenpi, de Longstaff, em violenta oposição ao estabelecimento em Hong Kong e à conduta de Longstaff, durante as hostilidades. A carta era endereçada ao Primeiro-Ministro, ao Ministro de Relações Exteriores, e cópias foram enviadas aos seus inimigos — que, como sabe, são muitos.

“Sabendo que pode ter posto o remanescente de seus recursos, se ainda tem alguns, em sua querida ilha, escrevo para lhe dar uma oportunidade de se desemaranhar e salvar alguma coisa do desastre. Talvez tenha entrado em algum tipo de acordo com Brock — rezo para que sim — embora, a se acreditar no arrogante Morgan Brock, o único acordo que agradaria a eles seria a eliminação de sua Casa. (Tenho boas razões para acreditar que Morgan Brock e um grupo de interesses bancários continentais — franceses e russos, segundo outros boatos — iniciaram a repentina corrida ao banco. O grupo continental propôs a manobra quando, de alguma maneira, transpirou a notícia da planejada estrutura internacional do Sr. Robb Struan. Eles quebraram seu banco, em troca de cinqüenta por cento num plano similar que Morgan Brock está, agora, tentando executar.)