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“Sinto muito dar notícias tão más. Faço isso com boa fé, esperando que, de alguma maneira, a informação seja útil e o senhor possa sobreviver à luta, mais uma vez. Ainda acredito que seu plano para Hong Kong seja o correto. E pretendo continuar a tentar executá-lo.

“Sei pouco a respeito de Sir Clyde Whalen, o novo Capitão-Superintendente do Comércio. Ele serviu com distinção na Índia e tem uma excelente reputação como soldado. Não é administrador, segundo creio. Ouvi dizer que parte amanhã para a Ásia; assim, sua chegada deve estar iminente.

“Para finalizar: confio meu filho mais moço ao senhor. Ele é um gastador, uma ovelha negra, um trapalhão cujo único propósito na vida é jogar, preferivelmente em cavalos. Há um mandado por dívidas contra ele, da prisão de Newgate. Eu lhe disse que — pela última vez — pagaria seus débitos aqui, se ele, imediatamente, empreendesse esta perigosa viagem. Ele concordou, apostando que, se realizasse o feito impossível de chegar a Hong Kong em menos de sessenta e cinco dias — metade do tempo normal — eu lhe daria mil guinéus, como despedida.

“Para garantir que a entrega fosse a mais rápida possível, eu estipulei mil guinéus para menos de sessenta e cinco dias; quinhentos a menos para cada dia que ultrapassasse o período determinado; desde que ele permanecesse fora da Inglaterra pelo resto de minha vida — e o dinheiro seria pago na proporção de cem guinéus por ano, até se esgotar. Anexo está o primeiro pagamento. por favor, avise-me pela volta do correio da data em que ele chegou.

“Se houver alguma maneira pela qual possa usar seus ‘talentos’ e controlá-lo, conquistará a imorredoura gratidão de um pai. Tentei, que Deus me perdoe, e a ele também, e fracassei. Muito embora eu o ame profundamente.

“Por favor, aceite o meu pesar, por sua má sorte. Meus cumprimentos para o Sr. Robb, e concluo com a esperança de que terei o prazer de encontrá-lo pessoalmente, em circunstâncias mais favoráveis. Tenho a honra de ser, senhor, seu mais obediente criado, Charles Crosse.”

Struan fitou o porto, lá fora, e a ilha. Lembrou-se da cruz que queimara no primeiro dia. E dos vinte guinéus de ouro de Brock. E das três moedas restantes de Jin-qua. E dos loques de prata que deveriam ser investidos em alguém que, um dia, viria com um certo carimbo. Agora, todo suor e todo trabalho e todos os planos e todas as mortes estariam desperdiçados. Devido à estúpida arrogância de um homem — Lord Cunnington. Bom e doce Cristo, o que farei, agora?

Struan superou o choque da notícia e forçou a si próprio a pensar. O Ministro de Relações Exteriores é um homem brilhante. Ele não repudiaria Hong Kong impensadamente. Deve haver uma razão. Qual será? E como controlarei Whalen? Como encaixar um “soldado e não administrador” no futuro?

Talvez eu devesse parar de comprar a terra hoje. Vamos deixar o resto dos negociantes comprar e que vão para o inferno. Brock será liquidado, junto com os outros, porque Whalen e a notícia não chegarão antes de um mês, ou mais. Nessa ocasião, estarão mergulhados numa frenética atividade de construção. Sim, esta é uma saída e, quando a notícia for do conhecimento geral, nós nos retiraremos todos para Macau — ou para um dos portos obtidos por Whalen através de tratado — e os demais serão liquidados. Ou quase. Sim. Mas se eu posso obter essa informação, Brock também pode. Então, talvez ele não seja destruído. Talvez.

Sim. Mas dessa maneira você perde a chave para a Ásia: este miserável rochedo gasto, sem o qual todos os portos abertos e o futuro não terão sentido.

A alternativa é comprar, construir e apostar no fato de que, como Longstaff, Whalen pode ser persuadido a ir além das determinações, que o próprio Cunnington pode ser envolvido. Para derramar a riqueza da Casa Nobre na nova cidade. Um jogo. Fazer Hong Kong florescer. De modo que o governo seja forçado a aceitar a colônia.

É mortalmente perigoso. Você não pode forçar a Coroa a fazer isso. Os riscos são terríveis, terríveis. Mesmo assim, você não tem escolha. Tem de jogar.

Pensar em jogo fez com que lembrasse o jovem Crosse. Ora, é um rapaz de méritos. Como posso usá-lo? Como posso fazer que fique de boca calada com relação à sua fantástica viagem? Sim, e como posso dar a Whalen uma impressão favorável de Hong Kong? E me aproximar de Cunnington? Como posso manter o tratado do jeito que eu quero?

— Bom, Sr. Crosse, fez uma viagem notável. Quem sabe quanto tempo o senhor levou?

— Só o senhor.

— Então fique calado a respeito. — Struan escreveu alguma coisa num bloco de papel. — Entregue isto ao chefe dos meus funcionários. Crosse leu a nota.

— Vai me dar o total dos cinco mil guinéus?

— Coloquei no nome de Roger Blore. Acho melhor que conserve este nome... por enquanto, pelo menos.

— Sim, senhor. Agora, eu sou Roger Blore. — Ele se levantou. — Ainda precisa de mim agora, Sr. Struan?

— Quer um emprego, Sr. Blore?

— Temo que... bom, Sr. Struan, tentei dúzias de coisas, mas nunca funciona. Papai tentou tudo e, bom... eu me aceito... talvez seja uma fatalidade... eu me aceito como sou. Sinto muito, mas o senhor está desperdiçando suas boas intenções.

— Aposto com você cinco mil guinéus que aceitará o emprego que vou lhe oferecer. O rapaz sabia que ganharia a aposta. Não havia nenhum emprego que o Tai-Pan pudesse oferecer-lhe e ele aceitasse.

Mas espere. Este não é um homem para se brincar, e nem para se apostar assim sem mais nem menos. Esses olhos calmos e diabólicos são impassíveis. Detestaria vê-los do outro lado de uma mesa de pôquer. Ou no bacará. Tenha cuidado, Richard Crosse Roger Blore. E este é o homem que cobraria uma dívida.

— Bom, senhor Blore? Onde está a sua coragem? Ou não é o jogador que finge ser?

— Os cinco mil guinéus são minha vida, senhor. A última parada que posso ganhar.

— Então aposte sua vida, por Deus!

— Não está arriscando a sua, senhor. Então a aposta é desigual. Essa soma é desprezível para o senhor. Então me dê vantagens. Cem a um. Struan admirou o atrevimento do rapaz.

— Muito bem... a verdade, Sr. Blore. Diante de Deus. — Lhe estendeu a mão e Blore teve uma tontura, porque contara que pedir tais vantagens iria acabar com a aposta. Não faça isso, seu louco, ele disse a si mesmo. Quinhentos mil guinéus! Apertou a mão de Struan.

— Secretário do Jóquei Clube de Hong Kong — disse Struan.

— O quê?

— Acabamos de formar um Jóquei Clube. Você é secretário, a tarefa é conseguir os cavalos. Traçar uma pista de corridas. Uma sede de clube. Começar a mais rica e a mais fina estrebaria da Ásia. Tão boa quanto Aintree, ou qualquer outra no mundo. Quem ganha, rapaz?

Blore procurou, desesperadamente, desafogar-se. Pelo amor de Deus, concentre-se, gritou, para si mesmo.

— Uma pista de corridas?

— Sim. Você vai iniciá-la, administrá-la... cavalos, o jogo, arquibancadas, apostas, prêmios, tudo. Comece hoje.

— Mas, por Jesus Cristo, onde vai conseguir os cavalos?

— Onde o senhor conseguirá os cavalos?

— Na Austrália, por Deus! — exclamou Blore. — Ouvi dizer que eles têm cavalos de sobra, por lá! — Tornou a entregar a ordem de pagamento a Struan e deu um berro de êxtase. — Sr. Struan, jamais se arrependerá disso. — Deu a volta e correu para a porta.

— Aonde vai? — perguntou Struan.