— Para a Austrália, claro.
— Por que não vai ver o general primeiro?
— Hein?
— Pelo que me lembro, eles têm alguma cavalaria. Peça emprestados alguns cavalos. Eu acho que o senhor pode fazer a primeira corrida no próximo sábado.
— Será?
— Sim. Sábado é um bom dia para corridas. E a Índia é mais próxima do que a Austrália. Eu o enviarei para lá, pelo primeiro navio disponível.
— Enviará?
Struan sorriu.
— Sim. — Ele entregou de volta o papel. — Os quinhentos são um bônus sobre seu primeiro ano de salário, Sr. Blore, quinhentos por ano. O restante é o dinheiro para o prêmio das primeiras quatro ou cinco corridas. Vamos dizer oito corridas, com cinco cavalos cada, sábado sim, sábado não.
— Que Deus o abençoe, Sr. Struan.
Então, Struan ficou sozinho. Acendeu um fósforo e ficou olhando a carta arder. Misturou as cinzas à poeira do chão e depois desceu. May-may ainda estava na cama, mas trocara de roupa e estava linda.
— Olá, Tai-Pan — disse May-may. Ela o beijou, rapidamente, e depois continuou a se abanar. — Estou muito satisfeita por você ter voltado. Quero que compre para mim um
pequeno lote de terra, porque decidi me tornar negociante.
— Que tipo de negociante? — ele perguntou, ligeiramente agastado com a brusca recepção, mas satisfeito por ela aceitar suas idas e vindas sem perguntas e sem brigas.
— Você verá, não se preocupe. Mas quero alguns taéis para começar. Pago dez por cento de juros, o que é muito bom. Cem taéis. Você será um sócio inativo. Ele estendeu o braço e colocou a mão sobre o seio dela.
— Por falar em inatividade, eu acho... Ela tirou a mão dele.
— Os negócios antes do repouso. Você compra a terra para mim e me empresta os taéis?
— Repouso antes dos negócios?
— Ayeeee yah, com esse calor? — ela disse, com uma risada. — Muito bem. É péssimo fazer qualquer esforço com esse calor... sua camisa já está grudando nas costas. Mas venha, não se preocupe. — Ela, obedientemente, caminhou em direção à porta do quarto de dormir, mas ele a agarrou.
— Só estava brincando. Como vai você? O bebê lhe deu algum problema?
— Claro que não. Sou uma mãe muito cuidadosa e só como alimentos muito especiais, para construir um belo filho. E fico pensando coisas bem agressivas, para que ele se torne um bravo Tai-Pan.
— Quantos taéis você quer?
— Cem. Eu já disse. Não tem ouvidos? Você está estranhíssimo hoje, Tai-Pan. Sim. Seguramente muito estranho. Não está doente, não é? Recebeu más notícias? Ou apenas se sente cansado?
— Só cansado. Cem taéis, pode contar com isso. E qual é o “negócio”?
Ela bateu palmas, toda excitada e tornou a se sentar à mesa.
— Ah, você verá. Pensei muito, desde que você foi embora. O que faço por você? Faço amor, oriento você... são coisas excelentes, claro, mas não é o bastante. Então, agora quero ganhar taéis para você também e para a minha velhice. — Ela riu outra vez, e ele ficou deliciado com sua risada. — Mas só com os bárbaros. Ganharei fortunas... ah, você vai achar que eu sou genteintelíssima.
— Não existe essa palavra.
— Você sabe muito bem o que eu quero dizer. — Ela o abraçou. — Quer fazer amor agora?
— Há uma venda de terras dentro de uma hora.
— É verdade. Então é melhor você trocar de roupa e voltar correndo. Um pequeno lote na Estrada da Rainha. Mas não pago mais do que dez taéis de aluguel por ano! Você trouxe presente para mim?
— O quê?
— Bom, é um bom hábito — ela disse, com os olhos inocentes — quando o homem deixa a mulher traz presente para ela. Jades. Coisas assim.
— Não trouxe jades. Mas da próxima vez, serei mais atencioso.
Ela deu de ombros.
— É um bom hábito. Sua pobre velha mãe é muito pobre. Comemos mais tarde, hein?
— Sim. — Struan foi para seu camarote particular, no convés logo acima, Lim Din fez uma curvatura.
— O banho está bem frio, senhor. Quer assim?
— Sim.
Struan tirou as roupas amassadas e ficou deitado na banheira, deixando a mente considerar as implicações da notícia dada por Sir Charles, sua fúria com a estupidez de Cunnington quase a esmagá-lo. Ele se enxugou e vestiu roupas limpas, mas em poucos minutos sua camisa estava úmida de suor outra vez.
É melhor eu me sentar para pensar no assunto, ele pensou. Deixar Culum se encarregar da terra. Aposto minha vida que Tess contou ao pai sobre o plano dele com relação ao morro. Talvez Culum seja acuado e forçado a fazer lances altos demais. O rapaz fez tudo bem; devo confiar isso a ele.
Então, mandou recado a Culum para fazer os lances em nome da Casa Nobre, e também lhe disse para comprar um lote pequeno, porém bom, na Estrada da Rainha. E mandou recado a Horatio de que Mary não estava bem e determinou que uma lorcha o levasse imediatamente a Macau.
Depois, sentou-se numa funda poltrona de couro e ficou olhando para a ilha, através de uma vigia, deixando a mente vaguear.
***
Culum comprou os lotes marinhos e suburbanos, orgulhoso de estar fazendo os lances pela Casa Nobre e ganhando mais prestígio. Muitos lhe perguntaram onde estava o Tai-Pan — onde ele estivera — mas respondeu laconicamente que não tinha idéia e continuou a deixar implícita a hostilidade não mais sentida.
Comprou o morro — e os lotes que o tornavam seguro – e ficou aliviado ao ver que os Brocks não faziam lances contra ele, provando ser Tess digna de confiança. Mesmo assim, decidiu ser mais cauteloso, no futuro, e não a colocar em tal posição outra vez. Era perigoso ser aberto demais com relação a certos assuntos, pensou. Perigoso para ela e perigoso para ele próprio. Por exemplo, o fato de que pensar nela, ou seu mais leve toque o deixavam quase louco de desejo. Fato que ele não poderia jamais discutir com ela e nem com seu pai, mas só com Gorth, que o compreendia: “Sim, Culum, rapaz. Sei disso muito bem. É uma dor terrível, terrível. A pessoa fica quase sem poder caminhar. Sim... e é terrivelmente difícil de controlar. Mas não se preocupe rapaz. Somos amigos e eu entendo. É bom sermos francos, eu e você. É terrivelmente perigoso para você viver como um monge. Sim. Pior do que isso, é acumular problemas para o futuro... e ainda pior, ouvi dizer que, com isso, os filhos nascem doentes. A dor em suas entranhas pode ser uma advertência de Deus. Sim, essa dor deixa um homem doente pelo resto da vida, esta é a verdade absoluta e então, que Deus me perdoe! Não se preocupe, conheço um lugar em Macau. Não se preocupe, meu velho.
E, embora Culum não acreditasse realmente nas superstições que Gorth enumerou, as dores que suportava noite e dia minaram sua vontade de resistir. Queria alívio. Mesmo assim, jurou, se Brock concordar que nos casemos no próximo mês, então não irei a um bordel. Não irei!
***
Ao anoitecer, Culum e Struan foram para bordo do White Witch. Brock os esperava no tombadilho, com Gorth a seu lado. A noite estava fresca e agradável.
— Decidi a respeito do seu casamento, Culum — disse Brock. — No próximo mês seria impróprio. No próximo ano, provavelmente melhor. Mas, daqui a três meses Tess estará fazendo dezessete anos e então, nesse dia, dia dez, você pode casar.
— Obrigado, Sr. Brock — disse Culum. — Obrigado.
Brock sorriu para Struan.
— Isso convém a você, Dirk?
— É sua decisão, Tyler, não minha. Mas acho que três meses ou dois não fazem muita diferença de um mês. Ainda digo que seria bom no próximo mês.
— Setembro convém a você, Culum? Como eu disse? Seja honesto, rapaz.
— Sim. Naturalmente. Eu esperei, mas... bom, sim Sr. Brock. — Culum jurou que esperaria os três meses. Mas lá dentro dele mesmo, sabia que não poderia.
— Então isto será acertado convenientemente.