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— Ah, é?

— Sua Excelência não lhe falou nisso? Diabo!. .. quero dizer, será que faria esse favor? — Jamais Blore trabalhara com tanto afinco e nem se excitara tanto. — Quer me acompanhar, por favor? Guiou Zergeyev apressadamente, através da multidão.

— Blore é um rapaz simpático — disse Shevaun, satisfeita por estar, afinal, a sós com Struan. — Onde o encontrou?

— Ele me encontrou — disse Struan. — E estou satisfeito com isso.

Sua atenção foi distraída por uma discussão perto de uma das tendas. Um grupo de soldados-guardas estava expulsando um chinês do cercado. O chapéu do cule caiu e, com ele, o longo rabicho. O homem era Aristotle Quance.

— Desculpe-me por um segundo — disse Struan. — Ele foi até lá correndo e ficou diante do homenzinho, protegendo-o com seu corpo. — Está tudo bem, rapazes, ele é um amigo meu! — disse.

Os soldados deram de ombros e se afastaram.

— Com todos os raios, Tai-Pan — desabafou Quance, ajeitando suas roupas sujas.

— Salvo no último minuto. Que Deus o abençoe!

Struan empurrou o chapéu de cule outra vez na cabeça de Quance e o puxou para baixo de uma das abas da tenda.

— Que diabo está você fazendo aqui? — sussurrou.

— Eu tinha de ver as corridas, por Deus! — disse Quance, ajeitando o chapéu de modo que o rabicho caísse às suas costas. .. e queria falar com você.

— Isso não é hora! Maureen está em meio à multidão, em algum lugar.

Quance empalideceu.

— Que Deus me proteja!

— Sim, muito embora eu não saiba por que Ele iria fazer isso. Suma, enquanto ainda está salvo. Ouvi dizer que ela comprou passagem para a Inglaterra, na próxima semana. Se suspeitar... bom, você pode imaginar por si mesmo!

— Só a primeira corrida, Tai-Pan? — implorou Quance. — Por favor. E tenho uma informação para você.

— O quê?

Para choque de Struan, Quance lhe contou a respeito do que Gorth fizera com a prostituta.

— Que horror! A pobre moça está quase morta. Gorth é louco, Tai-Pan. Louco.

— Mande informar-me, se a moça morrer. E então... bom, terei de pensar a respeito do que fazer. Obrigado, Aristotle. Mas suma, enquanto é tempo.

— Só a primeira corrida? Por favor, pelo amor de Deus! Não sabe o que isso significa para um pobre velho!

Struan deu uma olhada em torno. Shevaun, deliberadamente, ignorava-os. Depois, notou Glessing, que passava por perto.

— Capitão!

Quando Glessing reconheceu Quance, seus olhos se reviraram para o céu.

— Por Júpiter! Pensei que já se encontrasse em alto-mar!

— Faça-me um favor, sim? — disse Struan, depressa. — A Sra. Quance está junto ao poste de partida. Quer livrar Aristotle de problemas e afastá-lo do caminho dela? Melhor ainda, leve-o para lá. — Struan apontou para o local onde os chineses estavam dando voltas. — Deixe-o olhar a primeira corrida e, depois, leve-o para casa.

— Pois não. Bom Deus, Aristotle, estou satisfeito de vê-lo — disse Glessing e, depois, dirigindo-se a Struan: — Teve notícias de Culum? Estou terrivelmente preocupado com a Srta. Sinclair.

— Não. Mas eu disse a Culum que fosse vê-la logo ao chegar. Deveremos ter notícias a qualquer momento. Tenho certeza de que ela está bem.

— Espero que sim. Ah, onde devo levar Aristotle depois da corrida?

— Para a casa da Sra. Fortheringill.

— Por Júpiter! Como é aquilo lá, Aristotle? — perguntou Glessing, deixando a curiosidade dominar o que havia de melhor nele.

— É aterrorizante, meu rapaz, aterrorizante. — Quance agarrou-lhe o braço e sua voz ficou rouca. — Não se pode dormir um minuto e a comida é horrível. Só tem quentão para o desjejum, almoço, chá, jantar e ceia. Pode me emprestar alguns guinéus, Tai-Pan?

Struan resmungou e se afastou.

— O que é quentão, Aristotle?

— É, ah... uma espécie de mingau.

Struan tornou a se unir a Shevaun.

— Um amigo seu, Tai-Pan?

— Não é boa política notar alguns amigos, Shevaun.

Ela lhe bateu de leve no braço, com seu leque.

— Não é preciso nunca me advertir a respeito de política, Dirk. Senti sua falta — ela acrescentou, gentilmente.

— Sim — disse ele, percebendo que seria fácil e sensato casar com Shevaun. Mas não é possível. Por causa de May-may, — Por que você quer ser pintada nua? — ele perguntou de repente, e percebeu, pelo relâmpago nos olhos dela, que seu palpite era correto.

— Aristotle disse isso? — a voz dela era neutra.

— Bom Deus, não! Ele jamais faria isso. Mas, há alguns meses, estava a nos atormentar. Disse que tinha uma nova encomenda. Para um nu. Por quê? Ela corou e se abanou, rindo.

— Goya pintou a Duquesa de Alba. Duas vezes, eu acho. Ela se tornou famosa no mundo inteiro. Os olhos dele se enrugaram, de divertimento.

— Você é um demônio, Shevaun. Você realmente o deixou... bom, ver o tema?

— Foi licença poética da parte dele. Discutimos a idéia de dois retratos. Você não aprova?

— Acho que seu tio e seu pai iriam subir pelos ares, se ouvissem falar disso, ou se os retratos caíssem em mãos erradas.

— Você os compraria, Tai-Pan?

— Para esconder?

— Para apreciar.

— Você é uma moça estranha, Shevaun.

— Talvez eu despreze hipocrisia. — Ela o olhou inquisitivamente. — Como você.

— Sim. Mas você é uma moça, num mundo dominado pelos homens, e certas coisas você não pode fazer.

— Há uma porção de “certas coisas” que eu gostaria de fazer.

— Houve vivas e os cavalos começaram a desfilar. Shevaun tomou uma decisão final. — Acho que deixarei a Ásia. Dentro de dois meses.

— Isso soa como uma ameaça.

— Não, Tai-Pan. É apenas porque estou apaixonada... e também apaixonada pela vida. E concordo com você. Que a hora de escolher o vencedor é quando eles estão no portão de partida.

— Ela se abanou, rezando para que seu jogo justificasse o risco.

— Qual você escolhe?

Ele não olhou para os cavalos.

— A potranca, Shevaun — disse, tranqüilamente.

— Qual é o nome dela? — ela perguntou.

— May-may — disse ele, com uma suave luz nos olhos.

O leque de Shevaun hesitou e, depois, continuou como antes.

— Uma corrida jamais está perdida até o vencedor ser julgado e engrinaldado. — Ela sorriu e se afastou, com a cabeça erguida, mais bonita do que nunca. A potranca perdeu a corrida. Só por uma cabeça. Mas perdeu.

***

— De volta, tão cedo, Tai-Pan? — perguntou May-may, com voz fraca.

— Sim. Cansei da corrida, e estava preocupado com você.

— Eu ganhei?

Ele abanou a cabeça. Ela sorriu e suspirou.

— Ah, está bem, não tem importância. — O branco de seus olhos estava cor-de-rosa e seu rosto pálido sob o dourado.

— O médico esteve aqui? — perguntou Struan.

— Ainda não. — May-may deitou-se de lado, e se encolheu, mas isto não aliviou seu desconforto. Ela afastou o travesseiro, mas também não ajudou, e então recolocou-o no lugar. — Sua pobre velha mãe está mesmo velha demais — disse, com uma tristeza desesperançada.

— Onde dói?

— Em lugar nenhum, em toda parte. Um bom sono vai curar tudo, não se preocupe.

Ele lhe massageou o pescoço e as costas e não quis permitir-se pensar o impensável. Mandou vir chá novo e comida leve e tentou convencê-la a comer, mas ela não tinha apetite algum.

Ao anoitecer, Ah Sam entrou e falou rapidamente com May-may.

— O médico chegou. E Gordon Chen — disse May-may a Struan.

— Ótimo! — Struan se levantou e se espreguiçou.

Ah Sam aproximou-se de uma caixa de jóias e tirou uma pequena estátua de marfim, uma mulher nua deitada de lado. Para pasmo de Struan, May-may apontou para partes da estatueta e falou demoradamente com Ah Sam. Esta fez um aceno afirmativo com a cabeça e saiu, seguida por Struan, completamente confuso.