O médico era um ancião, com um longo rabicho bem oleoso, usando uma roupa negra antiga e surrada. Seus olhos eram claros e alguns cabelos compridos cresciam numa verruga em sua face.Ele tinha dedos longos e finos e as costas de suas mãos magras eram cheias de veias azuis.
— Sinto muito, Tai-Pan — disse Gordon, e fez uma curvatura, juntamente com o médico. — Este é Kee Fa Tan, o melhor médico do Tai Ping Shan. Viemos tão rápido quanto pudemos.
— Obrigado. É melhor virem por... — Ele parou. Ah Sam se aproximara do médico, fizera uma profunda curvatura e lhe mostrara a estátua, indicando partes dela, da mesma maneira que May-may. E agora respondia a perguntas, loquazmente.
— Que diabo ele está fazendo?
— Dando um diagnóstico — disse Gordon Chen, ouvindo atentamente Ah Sam e o médico.
— Com a estátua?
— Sim. Pareceria impróprio para ele ver a Senhora sem necessidade, Tai-Pan. Ah Sam está explicando onde são as dores. Por favor, tenha paciência, tenho certeza de que não é grave.
O médico contemplou a estátua em silêncio. Finalmente, ergueu os olhos para Gordon e disse alguma coisa, com brandura.
— Ele diz que o diagnóstico não é fácil. Com sua permissão, gostaria de examinar a Senhora. Fervendo de impaciência, Struan mostrou o caminho até o quarto. May-may deixara cair as cortinas que rodeavam a cama. Era apenas uma discreta sombra, por trás delas.
O médico foi à cabeceira de May-may e, outra vez, ficou em silêncio. Depois de alguns minutos, falou tranqüilamente. Obedientemente, a mão esquerda de May-may saiu de debaixo das cortinas. O médico tomou-lhe a mão e examinou-a com muita atenção. Depois, colocou os dedos em seu pulso e fechou os olhos. Seus dedos começaram a bater suavemente na pele.
Os minutos se passaram. Os dedos batiam devagar, como se procurassem algo impossível de achar.
— O que ele está fazendo agora? — perguntou Struan.
— Auscultando-lhe o pulso, senhor — sussurrou Gordon. — Precisamos ficar muito silenciosos. Há nove pulsos em cada punho. Três na superfície, três um pouco mais abaixo e mais três muito profundos. Estes lhe dirão a causa da doença. Por favor, Tai-Pan, seja paciente. É muito difícil escutar com os dedos.
As batidas de dedos continuaram. Era o único som na cabina. Ah Sam e Gordon Chen olhavam fascinados. Struan mexeu-se, desajeitadamente, mas não fez nenhum som. O médico parecia estar num devaneio místico. Depois, de repente — como se encontrassem uma presa fugidia — as batidas pararam e o médico fez uma forte pressão. Por um minuto, ficou como uma estátua. Depois, deixou o pulso cair sobre a colcha da cama, e May-may, silenciosamente, deu-lhe o pulso direito, e ele repetiu o procedimento.
E, outra vez, após muitos minutos, as batidas cessaram, abruptamente. O médico abriu os olhos, suspirou e colocou o pulso de May-may sobre a colcha. Fez sinal para Gordon Chen e para Struan. Gordon Chen fechou a porta atrás deles. O médico riu suavemente, com nervosismo, e começou a falar de maneira tranqüila e rápida. Os olhos de Gordon se arregalaram.
— O que há? — disse Struan, asperamente.
— Eu não sabia que a Mãe estava grávida, Tai-Pan. — Gordon virou-se outra vez para o médico e fez uma pergunta e o médico respondeu longamente. Depois, houve um silêncio.
— Bom, que diabo ele disse?
Gordon olhou para ele e tentou, sem conseguir, aparentar calma.
— Ele diz que Mãe está muito doente, Tai-Pan. Que um veneno lhe entrou no sangue, através dos membros inferiores. Este veneno centralizou-se em seu fígado e o fígado está agora — ele procurou a palavra — mal-ajustado. Logo haverá febre, muita febre. Uma febre alta. E depois de três ou quatro dias, novamente febre. Repetidas vezes.
— Malária? A febre do Vale Feliz?
Gordon se virou e fez a pergunta.
— Ele diz que sim.
— Todos sabem que são os gases noturnos... e não um veneno através da pele, por Deus — ele gritou para Gordon. — Há semanas que ela não vai lá! Gordon encolheu os ombros.
— Só estou dizendo o que ele diz, Tai-Pan. Não sou médico. Mas eu confiaria neste médico... acho que deve confiar.
— Qual é a cura?
Gordon perguntou ao médico.
— Ele diz, Tai-Pan: “Tratei de alguns daqueles que sofriam do veneno do Vale Feliz. As recuperações bem-sucedidas foram de homens fortes, que tomaram um certo remédio antes do terceiro ataque da febre. Mas esta paciente é uma mulher, e embora tenha vinte e um anos e seja forte, com um espírito de fogo, toda sua força está indo para o filho que está com quatro meses em seu útero”. — Gordon parou, constrangido. — Ele teme pela vida da Senhora e da criança.
— Diga-lhe que traga o remédio e trate dela agora. Não depois de nenhum ataque.
— Esse é o problema. Ele não pode, senhor. Não sobrou nenhum remédio.
— Então lhe diga para conseguir algum, por Deus!
— Não existe nenhum em Hong Kong, Tai-Pan. Ele tem certeza.
O rosto de Struan se ensombreceu.
— Deve haver algum. Diga-lhe para conseguir... custe o que custar.
— Mas, Tai-Pan, ele...
— Pelo sangue de Deus, diga a ele! Outra vez, houve uma conversa.
— Ele diz que não existe nenhum em Hong Kong, não haverá nenhum em Macau e nem em Cantão. Que o remédio é feito com a casca de uma árvore muito rara, que cresce em alguma parte nos Mares do Sul, ou em terras do outro lado do oceano. A pequena quantidade que ele tinha veio de seu pai que também era médico, e que a recebeu de seu pai. — Gordon acrescentou, desamparadamente: — Ele diz que tem completa certeza de que não há mais.
— Vinte mil taéis de prata, se ela for curada.
Os olhos de Gordon se arregalaram. Ele pensou um momento e depois falou rapidamente com o médico. Ambos fizeram curvaturas e saíram correndo. Struan tirou seu lenço, enxugou o suor do rosto e caminhou de volta para o quarto.
— Olá, Tai-Pan — disse May-may, com voz ainda mais fraca. — Qual o meu pagode?
— Eles foram pegar um remédio especial que a curará. Não precisa se preocupar.
Ele a ajeitou o melhor que pôde, com a mente atormentada. Depois, correu para a nau capitania e perguntou ao médico-chefe da Marinha a respeito da casca de árvore.
— Sinto muito, meu caro Sr. Struan, mas esta é uma história da carochinha. Existe uma lenda a respeito da Condessa Cinchón, mulher do vice-rei espanhol no Peru, que introduziu na Europa uma casca de árvore vinda da América do Sul, no século dezessete.
Era conhecida como “casca de árvore dos jesuítas” e, algumas vezes, como “casca de árvore cinchona”. Transformada em pó e tomada com água, segundo se supunha curava a febre. Mas, quando foi tentada na índia, falhou completamente. Era inútil! Os malditos papistas dizem qualquer coisa para conseguir convertidos.
— Onde diabo posso obter um pouco dessa casca?
— Realmente não sei, meu caro senhor, no Peru, suponho. Mas, por que sua ansiedade? A Cidade da Rainha está abandonada, agora. Não precisa se preocupar, se não está respirando o gás noturno.
— Um amigo acaba de adoecer com malária.
— Ah! Então é bom dar um forte purgativo calomelo. Logo que possível. Não posso prometer nada, naturalmente. Faremos sangrias, imediatamente.
Struan tentou, em seguida, o médico-chefe do Exército e, sucessivamente, à medida que o tempo passava, todos os médicos de menor importância — tanto militares como civis — e todos lhe disseram a mesma coisa.
Então, Struan lembrou-se de que Wilf Tillman estava vivo. Foi apressadamente para o pontão de transporte de ópio de Cooper-Tillman.
E todo esse tempo, enquanto Struan questionava os médicos, Gordon Chen voltara ao Tai Ping Shan e mandara chamar os dez líderes da Tríade que estavam sob seu comando. Depois, eles foram para seus quartéis-generais e mandaram chamar os dez líderes sob o comando de cada um deles. Espalhou-se a notícia, com incrível rapidez, de que uma certa casca, de uma certa árvore, deveria ser encontrada. Por sampana, por junco, a notícia se filtrou, através do porto, até Kowloon, logo chegando a povoados e vilas, burgos e cidades. Em toda extensão da costa, no continente. Logo todos os chineses de Hong Kong — pertencentes ou não à Tríade — sabiam que estava sendo procurada uma rara casca de árvore. Não sabia por quem, e nem qual a razão: só que uma grande recompensa era oferecida. E a história caiu nos ouvidos dos agentes anti-Tríade dos mandarins. Eles começaram a procurar a casca de árvore, e não só por causa da recompensa; sabiam que uma porção da casca poderia, talvez, ser usada como isca para desmascarar os líderes da Tríade.