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— Seja honesto, Jeff. É verdade, não. Sobre a soma nominativa?

— Sim — disse Cooper, depois de uma pausa sombria. — Posso comprar os interesses de Tillman nessas circunstâncias. Mas não fiz esse acordo. Não estou comprando uma escrava. Eu amo você. Quero que seja minha mulher.

— E se eu não for, você não comprará os interesses do tio?

— Não sei. Decidirei quando chegar a hora. Seu tio poderia comprar minhas ações, se eu morresse antes dele. Shevaun virou-se para Struan.

— Por favor, compre-me, Tai-Pan.

— Não posso, garota. Mas também não acho que Jeff esteja comprando você. Eu sei que ele está apaixonado por você.

— Por favor, compre-me — ela disse, com voz trêmula.

— Não posso, garota. É contra a lei.

— Não é. Não é. — Ela chorava incontidamente. Cooper abraçou-a, atormentado. Quando Struan voltou para o Resting Cloud, May-may ainda estava dormindo, tranqüilamente.

Enquanto a vigiava, ele ficou imaginando, obtusamente, o que fazer com relação a Gorth e Culum. Sabia que deveria ir para Macau, imediatamente. Mas não até May-may estar curada — ah, Deus, fazei com que ela se cure. Devo mandar o China Cloud, com Orlov? Talvez Mauss? Ou esperar? Eu disse a Culum para se proteger — mas será que ele fará isso? Ah, Jesus Cristo, ajudai May-may.

À meia-noite, houve uma batida na porta.

— Sim?

Lim Din entrou maciamente. Ele olhou para May-may e suspirou.

— Senhor gordo veio ver Tai-Pan, pode?

As costas e o pescoço de Struan doíam e ele tinha a cabeça pesada, enquanto subia o passadiço até seus alojamentos, no próximo convés.

— Desculpe chegar sem ser convidado e tão tarde, Tai-Pan — disse Morley Skinner, erguendo de uma cadeira seu corpanzil gorduroso e suado. — É, um tanto importante.

— Sempre fico satisfeito de me encontrar com a imprensa, Sr. Skinner. Sente-se. Quer uma bebida? — tentou desviar seus pensamentos de May-may e se forçou a concentrar-se, sabendo que aquela não era uma visita casual.

— Obrigado. Uísque.

Skinner deu uma olhada no rico interior da grande cabina: tapetes chineses verdes sobre os conveses bem esfregados; cadeiras e sofás e o odor de couro limpo e oleado, sal e alcatrão; e o fraco e doce e oleoso cheiro de ópio, vindo dos porões abaixo. Lâmpadas a óleo bem-arrumadas forneciam uma luz pura e cálida e lançavam sombras às vigas do convés principal. Comparava tudo com o galpão que tinha em Hong Kong — um quarto miserável, sujo e fedorento, sobre o grande cômodo que abrigava a impressora.

— É uma gentileza sua me ver, tão tarde — disse ele. Struan ergueu seu copo.

— Saúde!

— Sim, “saúde”. É um bom brinde, nesses dias ruins. Com malária e tudo mais. — Os olhinhos de porco se estreitaram. — Ouvi dizer que tem um amigo com malária.

— Sabe onde encontrar cinchona?

Skinner abanou a cabeça.

— Não, Tai-Pan. Tudo que já li a respeito diz que isso é uma história fantástica. Lenda. — Puxou a prova de um exemplar do semanário Oriental Times e entregou-a a Struan. — Achei que gostaria de ver o editorial a respeito das corridas de hoje. Vou tirar uma edição especial amanhã.

— Obrigado. Foi por isso que veio me ver?

— Não, senhor — Skinner deu goles sedentos no uísque e olhou para o copo vazio.

— Sirva-se, se quiser outro.

— Obrigado — Skinner se arrastou até o garrafão, com as nádegas elefantinas meneando-se. — Queria ter a sua forma, Sr. Struan.

— Então, não coma tanto.

Skinner riu.

— Comer nada tem a ver com a gordura. A pessoa é gorda ou não é. Uma dessas coisas que o Senhor Deus estabelece, quando se nasce. Sempre fui corpulento. — Encheu

o copo e voltou. — Uma informação me chegou às mãos, a noite passada. Não posso revelar a fonte, mas queria discuti-la com o senhor, antes de publicá-la.

Que podre você farejou, meu bom amigo?, pensou Struan. Há tantos para escolher. Só espero que seja o certo.

— É verdade que sou proprietário do Oriental Times, sim. Pelo que sei, só nós dois temos conhecimento disso. Mas, eu nunca lhe disse o que publicar ou não. Você é o diretor e o editor. É totalmente responsável e, se publicar ataques a alguém, é quem será processado. Por quem quer que seja o ofendido.

— Sim, Sr. Struan. E aprecio a liberdade que me dá. — Os olhos pareceram afundar mais, nos rolos de geléia. — A liberdade exige responsabilidade... perante si próprio, o jornal, a sociedade. Não necessariamente nesta ordem. Mas isto é diferente, as...como direi?... “potencialidades” são de longo alcance. — Puxou um pedaço de papel. Estava coberto com hieróglifos escritos às pressas que só ele poderia ler. Ergueu os olhos. — O Tratado de Chuenpi foi repudiado pela Coroa e Hong Kong junto com ele.

— Isso é uma piada, Sr. Skinner? — Struan ficou imaginando quão convincente fora Blore. Será que você apostou corretamente, meu rapaz?, perguntou a si mesmo. O jovem tem um excelente senso de humor: O garanhão aceitou a brida. Cavalos de caneta seriam mais aptos.

— Não, senhor — disse Skinner. — Talvez seja melhor eu ler.

E leu tudo, quase palavra por palavra, que Sir Charles Crosse escrevera, e que Struan dissera a Blore para soprar secretamente nos ouvidos de Skinner. Struan decidira que Skinner era a pessoa indicada para agitar os negociantes até um estado de fúria que os levasse todos, cada qual à sua maneira, a se recusar a deixar Hong Kong perecer; a fazerem agitação, como haviam feito há tantos anos e, afinal, dominado a Companhia das Índias Orientais.

— Não acredito nisso.

— Acho que talvez devesse acreditar, Tai-Pan. — Skinner esvaziou o copo. — Posso?

— Claro. Traga o garrafão para cá. Vai evitar suas idas e vindas. Quem lhe deu a informação?

— Não posso dizer-lhe.

— E, se eu insistir?

— Ainda assim, não lhe direi. Isto destruiria meu futuro como jornalista. Há questões éticas muito importantes envolvidas. Struan testou-o.

— Um jornalista precisa ter um jornal — ele disse, bruscamente.

— É verdade. Esse é o risco que estou correndo ao falar com o senhor. Mas, se quer pôr as coisas nesses termos, ainda assim não lhe contarei.

— Tem certeza de que é verdade?

— Não. Mas acredito que seja.

— Qual a data do despacho? — perguntou Struan.

— 27 de abril.

— E acredita, seriamente, que possa ter chegado aqui tão depressa? Ridículo!

— Eu disse a mesma coisa. Mas ainda acho que a informação é verdadeira.

— Se for verdadeira, então estamos todos arruinados.

— Provavelmente — disse Skinner.

— Não provavelmente... com toda certeza.

— O senhor se esquece do poder da imprensa e do poder coletivo dos negociantes.

— Não temos nenhum poder contra o Ministro de Relações Exteriores. E o tempo age contra nós. Vai publicar isso?

— Sim. Na ocasião certa. Struan movimentou o copo e ficou a observar as lanternas bruxuleando, com suas bordas chanfradas.

— Acho que, quando fizer isso, haverá um pânico monumental. E Longstaff o repreenderá, imediatamente.

— Não estou preocupado com isso, Sr. Struan.

Skinner estava perplexo; Struan não reagia como ele esperava. A menos que o Tai-Pan já soubesse, disse a si próprio, pela centésima vez. Mas não faz sentido ele ter mandado Blore a mim. Blore chegou há uma semana — e, esta semana, o Tai-Pan investiu muitos milhares de taéis em Hong Kong. Seria ação de um louco. Então Blore serviu de correio para quem? Brock? É pouco provável. Porque ele está gastando tão grandes somas quanto Struan. Deve ser o almirante — ou o general — ou Monsey. Monsey! Quem, senão Monsey tem essas ligações de alto nível? Quem, senão Monsey, detesta Longstaff e quer o seu lugar? Quem, senão Monsey, está vitalmente interessado em que Hong Kong seja bem-sucedida? Porque, sem este sucesso, Monsey não tem nenhum futuro no Corpo Diplomático.