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— Parece que Hong Kong está morta. Todo dinheiro e esforço que dispendeu nela... que todos dispendemos... será jogado fora.

— Hong Kong não pode acabar. Sem a ilha, todos os futuros portos continentais que tivermos serão lixo.

— Eu sei, senhor. Todos sabemos.

— Sim. Mas o Ministro de Relações Exteriores pensa de outra maneira. Por quê? Eu fico imaginando por quê. E o que, possivelmente, poderíamos fazer? Como convencê-lo, hein? Como?

Skinner era tão favorável a Hong Kong como Struan. Sem Hong Kong, não haveria Casa Nobre. E, sem Casa Nobre não haveria nenhum semanário Oriental Times e nem emprego algum.

— Talvez não seja preciso nós convencermos aquele patife — disse ele, bruscamente, com os olhos gelados.

— Hein?

— Aquele patife nem sempre estará no poder.

O interesse de Struan aumentou. Esta era uma nova perspectiva, e inesperada. Skinner era um leitor voraz de todos os jornais e periódicos e um homem muito bem informado a respeito de questões parlamentares “publicadas”. Ao mesmo tempo – com uma memória extraordinária e um profundo interesse pelas pessoas — Skinner tinha múltiplas fontes de informação.

— Acha que existe uma chance de mudança de governo?

— Aposto dinheiro que Sir Robert Peel e os Conservadores vão derrubar os Whigs este ano.

— É um jogo diabolicamente perigoso. Eu próprio poria dinheiro contra você.

— Apostaria o Oriental Times contra a queda dos Whigs dentro de um ano... e que Hong Kong será mantida pela Coroa?

Struan estava cônscio de que uma aposta assim colocaria Skinner completamente de seu lado e o jornal seria um preço pequeno a pagar. Mas uma rápida concordância mostraria suas intenções.

— Você não tem a menor possibilidade no mundo de ganhar essa aposta.

— É muito boa, Sr. Struan. O inverno na Inglaterra, ano passado, foi um dos piores que já houve... do ponto de vista econômico e industrial. O desemprego é incrível. As colheitas foram terríveis. Sabe que o preço do pão subiu até um xelim e dois penies por unidade, segundo a correspondência da semana passada? O torrão de açúcar está custando oito penies por libra; o chá sete xelins e oito penies; o sabão nove penies cada; os ovos estão a quatro xelins a dúzia. As batatas um xelim a libra. O bacon três xelins e seis penies a libra. Vejamos, agora, os salários; artesãos de todos os tipos, pedreiros, bombeiros, carpinteiros... na maioria ganham dezessete xelins e seis penies por semana, por sessenta e quatro horas de trabalho; os trabalhadores rurais, nove xelins por semana, por Deus sabe quantas horas; operários de fábricas cerca de quinze xelins... isto, se conseguirem encontrar trabalho. Bom Deus, Sr. Struan, o senhor vive no alto da montanha, com uma incrível riqueza que lhe permite dar mil guinéus a uma moça, só porque tem um vestido bonito, e então não sabe, não pode saber que uma pessoa em cada nove, na Inglaterra, é indigente. Em Stockton, quase dez mil pessoas ganharam menos de dois xelins por semana, o ano passado. Trinta mil, em Leeds, menos de um xelim. Quase todos estão passando fome, e somos a nação mais rica da terra. Os Whigs estão com a cabeça na forca e não querem encarar o que todos percebem ser absurdamente injusto. Nada fizeram com relação aos Cartistas, a não ser fingir que são anarquistas. Não querem enfrentar as terríveis condições existentes nos moinhos e fábricas. Bom Cristo, crianças de seis ou sete anos estão trabalhando em jornada de doze horas, e as mulheres também, e representam trabalho barato, então põem os homens na rua. Por que deveriam os Whigs fazer alguma coisa? Possuem a maior parte das fábricas e moinhos. E o dinheiro é o deus deles... cada vez mais, sempre mais, e o resto das pessoas que vá para o inferno. Os Whigs não querem enfrentar o problema irlandês. Meu Deus, houve inanição no ano passado, e de novo este ano, toda Irlanda estará em rebelião outra vez, e já era tempo. E os Whigs não moveram um dedo para reformar o sistema bancário. Por que iriam fazer isso... também possuem os bancos! Veja sua própria falta de sorte! Se tivéssemos uma lei adequada para proteger os depositantes contra as malditas maquinações, contra os malditos Whigs... — ele parou, com um esforço, as mandíbulas tremendo e o rosto corado. — Desculpe, eu não pretendia fazer um discurso. Claro que os Whigs têm de cair. Eu diria que, se não caírem nos próximos seis meses, haverá um banho de sangue na Inglaterra que fará a Revolução Francesa parecer um piquenique. O único homem que pode nos salvar é Sir Robert Peel, por tudo que é sagrado!

Struan lembrou-se do que Culum dissera a respeito da situação na Inglaterra. Ele e Robb haviam dado pouca atenção, considerando suas palavras como divagações de um estudante universitário. E ele não levara muito em conta as coisas que seu próprio pai escrevera, considerando-as desimportantes.

— Se Lord Cunnington cair, quem será o próximo Ministro de Relações Exteriores?

— O próprio Sir Robert. Se não for ele, Lord Aberdeen.

— Mas ambos são contra o livre comércio.

— Sim, mas os dois são liberais e pacíficos. E, uma vez no poder, terão de mudar. Sempre que a oposição ganha o poder e a responsabilidade, muda. O livre comércio é a única maneira pela qual a Inglaterra poderá sobreviver, sabe disso, e, então, terão de apoiá-lo. E precisarão de todo apoio que puderem, dos poderosos e dos ricos.

— Está dizendo que eu deveria apoiá-los?

— O Oriental Times, com a chave, o estoque e a impressora, contra uma queda dos Whigs este ano.

— Acha que pode contribuir para isso?

— Quanto a Hong Kong, ah, sim, sim.

Struan ajeitou sua bota esquerda, para ficar mais confortável, e se recostou na cadeira, outra vez. Deixou que se fizesse um silêncio.

— Cinqüenta por cento das ações, e faço um acordo — disse.

— Tudo ou nada.

— Talvez eu devesse pô-lo para fora e acabar com tudo.

— Talvez devesse. Tem riqueza mais do que suficiente para durar sempre, para si e os seus. Estou lhe perguntando quanto quer Hong Kong... e o futuro da Inglaterra. Acho que tenho uma solução.

Struan se serviu de mais uísque e encheu outra vez o copo de Skinner.

— Feito. Tudo ou nada. Quer cear comigo? Sinto-me um tanto faminto.

— Sim, aceito. Obrigado. Falar dá fome. Muito obrigado. Struan tocou a campainha e abençoou seu pagode por ter arriscado. Lim Din veio e ele pediu comida.

Skinner bebia sofregamente seu uísque e agradecia a Deus por ter julgado o Tai-Pan corretamente.

— Não lamentará isso, Tai-Pan. Ouça um momento. A perda de Longstaff... sei que ele é um amigo seu, mas estou falando de um ponto de vista político... é uma grande sorte para Hong Kong. Em primeiro lugar, ele é de alta estirpe, em segundo é um Whig e, em terceiro, um tolo. Sir Clyle Whalen é filho de um proprietário rural, em segundo lugar não é nenhum tolo e, em terceiro, trata-se de um homem de ação. Em quarto lugar, conhece a índia... passou trinta anos a serviço da Companhia das Índias Orientais. Antes disso, pertencia à Marinha Real. Finalmente, o que é o mais importante de tudo, embora seja, externamente, um Whig, tenho certeza de que deve, em segredo, odiar Cunnington e o atual governo, e tudo faria para provocar sua derrubada.

— Por quê?

— Ele é irlandês. Cunnington tem sido a ponta de lança da maior parte da legislação referente à Irlanda, no curso dos últimos quinze anos, e é diretamente responsável... todos os irlandeses sentem isso... pela desastrosa política que a Inglaterra tem adotado com relação à Irlanda. Esta é a chave para chegar a Whalen, se descobrirmos uma maneira de explorá-la. — Skinner mastigava a unha do polegar manchada de tinta.