Lim Din e outro criado voltaram com pratos de carnes frias, salsichas em salmoura, carnes doces, pastéis frios, tortas frias e grandes canecões de cerveja fresca, além de champanha, num balde de gelo.
Skinner sorriu, cobiçosamente.
— Um festim próprio para um dono de fábrica!
— Próprio para um dono de jornal! Sirva-se.
A mente de Struan fervia. Como dobrar Whalen? Será que os Whigs cairão? Devo colocar meu poder a serviço dos Conservadores, agora? Parar de apoiar homens como Crosse? Já agora circularão na Inglaterra notícias de que a Casa Nobre ainda é a Casa Nobre e mais forte do que nunca. Devo apostar em Sir Robert Peel?— Quando publicar o seu despacho, todos serão tomados de pânico — ele disse, aproximando-se da caça.
— Sim, senhor Struan. Mas sou profundamente contrário à perda de Hong Kong, e penso também no futuro do meu jornal. — Skinner enfiou mais comida na boca, e conversava enquanto mastigava. — Mas há maneiras e maneiras de apresentar uma notícia. É isso que torna o trabalho em jornal tão excitante. — Riu, e um pouco da comida escorreu-lhe pelo queixo. — Ah, sim, tenho o futuro do meu jornal para pensar. — Voltou toda sua atenção para a comida e comeu, monstruosamente.
Struan comeu pouco, perdido em seus pensamentos. Afinal, quando até mesmo Skinner já estava farto, ele ficou em pé e lhe agradeceu pela informação e pelos conselhos.
— Eu lhe informarei em particular, antes de publicar o despacho — disse Skinner, inchado. — Será dentro de uns poucos dias, mas preciso de tempo para planejar. Obrigado, Tai-Pan. — Ele foi embora.
Struan desceu. May-may ainda estava desassossegada, em seu sono. Ele mandou fazer uma tarimba no quarto dela e se deixou mergulhar num meio-sono. Ao amanhecer, May-may começou a tremer. Havia gelo em suas veias, em sua cabeça e em seu útero. Era o décimo quinto dia.
CAPÍTULO TRINTA E TRÊS
May-may se encontrava deitada, frágil e desamparada como um bebê, sob o peso de doze cobertores. Seu rosto estava cinzento, os olhos horríveis. Por quatro horas, seus dentes bateram. Depois, abruptamente, os calafrios se transformaram em febre. Struan banhou-lhe o rosto com água gelada, mas isto não trouxe nenhum alívio. May-may entrou em delírio. Agitava-se na cama, resmungando e gritando, numa mistura incoerente de chinês e inglês, consumida pelo fogo terrível. Struan a segurava e tentava confortá-la, mas ela não o reconhecia, não o escutava.
A febre desapareceu tão depressa como viera. O suor escorria de May-may, encharcando-lhe as roupas e os lençóis. Seus lábios se partiram ligeiramente e ela proferiu um gemido extático de alívio. Seus olhos se abriram e, aos poucos, começaram a focalizar as coisas.
— Sinto-me tão bem, tão cansada — ela disse, fracamente. Struan ajudou Ah Sam a mudar os travesseiros, lençóis é roupas ensopados.
Então May-may dormiu — como dormem os mortos, inerte. Struan sentou-se numa cadeira e ficou a observá-la. Ela acordou após seis horas, serena mas esgotada.
— Olá, Tai-Pan. Estou com a febre do Vale Feliz?
— Sim. Mas o seu médico tem um remédio que pode curá-la. Ele vai consegui-lo dentro de um ou dois dias.
— Bom. Muito bom. Não se preocupe, não tem importância.
— Por que está sorrindo, garota?
— Ah — ela disse, e fechou os olhos, satisfeita, enfiando-se mais entre os lençóis e travesseiros limpos. — De que outra maneira se pode dominar o pagode? Se a pessoa sorri quando perde, então ganha na vida.
— Você vai ficar boa — disse ele. — Completamente boa. Não se preocupe.
— Não tenho preocupações por mim. Só por você.
— O que você quer dizer? — Struan estava exausto com sua vigília, e angustiado com o fato de que ela parecia mais magra do que antes, fantasmagórica, com os olhos cercados por sombras profundas. E envelhecida.
— Nada. Gostaria de tomar um pouco de sopa. Um pouco de sopa de frango.
— O médico mandou alguns remédios para você. A fim de que se sinta mais forte.
— Ótimo. Eu me sinto fantasticamente fraca. Tomarei o remédio, depois da sopa. Ele mandou vir a sopa e May-may bebeu um pouquinho, depois se deitou outra vez.
— Agora descanse, Tai-Pan — disse ela. Franziu a testa. — Quantos dias antes da próxima febre?
— Três ou quatro — ele disse, muito infeliz.
— Não se preocupe, Tai-Pan. Quatro dias são uma eternidade, não se preocupe. Vá descansar, por favor, e, mais tarde, conversaremos.
Ele foi para sua própria cabina e dormiu mal, acordando a intervalos de poucos momentos, depois tornando a dormir e sonhando que estava acordado, ou permanecendo num meio-sono que não lhe trazia nenhum descanso.
O sol crepuscular estava baixo no horizonte, quando ele despertou. Tomou banho e fez a barba, com o cérebro confuso e anuviado. Olhou para seu rosto no espelho e não gostou do que viu. Pois seus olhos lhe diziam que May-may jamais sobreviveria a três embates daqueles. Doze dias de vida era o que lhe restava, no máximo.
Houve uma batida na porta.
— Sim?
— Tai-Pan?
— Ah, olá, Gordon. Quais são as notícias?
— Nenhuma, eu lamento. Estou fazendo tudo que posso. Como vai a Senhora?
— O primeiro ataque veio e passou. Não foi nada bom, rapaz.
— Está sendo feito todo possível. O médico mandou alguns remédios para manter a força dela, e alguns alimentos especiais. Ah Sam sabe o que fazer.
— Obrigado.
Gordon partiu e Struan voltou outra vez para suas reflexões. Procurava desesperadamente uma solução. Onde conseguirei cinchona? Devia haver alguma, em qualquer parte. Onde haveria casca de árvore peruana na Ásia? Não era casca de árvore peruana, mas casca de árvore dos jesuítas.
Então seus pensamentos vagueantes explodiram numa idéia.
— Pelo amor de Deus! — ele gritou, com uma irrupção de esperança. — Se quer mutucas, procure um cavalo. Se quer casca de árvore dos jesuítas... em que outra parte poderá procurá-la, seu idiota!?
***
Dentro de duas horas, o China Cloud corria como uma Valquíria no porto colorido pelo crepúsculo, com todas as velas levantadas, mas bem rizadas, como proteção contra a monção, que se tornava mais forte. Quando cruzou o canal oeste e alcançou a plena força das ondas e do vento do Pacífico, o navio cambou e o cordame cantou, com exultação.
— A sudeste! — rugiu Struan, no meio do vento.
— Sudeste será, senhorrr — ecoou o timoneiro.
Struan olhou para os ovéns, lá no alto, desenhados contra a noite que chegava implacavelmente, e ficou aborrecido de ver tanta lona rizada. Mas sabia que, com aquele vento leste e aquele mar, as rizes teriam de permanecer.
O China Cloud entrou no novo curso e abriu caminho em meio à noite, mas ainda lutava contra o mar e o vento. Logo iria dar a volta outra vez e então o vento ficaria à sua popa, permitindo-lhe correr livremente.
Depois de uma hora, Struan gritou:
— Todos os homens ao convés... preparar para cuidar do navio!Os homens correram do castelo de proa e ficaram em pé, de prontidão, no escuro, sobre as cordas, amarras e adriças.
— Oeste para sudeste — ele ordenou.
O timoneiro virou a roda do leme para o novo curso, fazendo o clíper virar com o vento. As vergas rangeram e se esticaram a sotavento, as adriças gemeram e se espicharam e o navio entrou no novo curso, enquanto Struan gritava:
— Soltem as rizes da vela principal e da gávea!
O navio rompia as ondas, com o vento bem para a ré do trais, as ondas cascateando à proa.