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— Firme para a frente — ordenou Struan.

— Sim, sim, senhorrr — disse o timoneiro, forçando a vista para ver a tremeluzente luz da bitácula e manter um curso firme, enquanto o leme lutava contra ele.

— Assuma, Capitão Orlov!

— Estava na hora, Olhos Verdes.

— Talvez você consiga uma velocidade maior — disse Struan. — Gostaria de chegar imediatamente a Macau! — ele desceu.

Orlov agradeceu a Deus por estar preparado, como sempre, para uma partida imediata. Soube, no momento em que viu o rosto do Tai-Pan, que era melhor o China Cloud sair do porto em tempo recorde, do contrário ficaria sem o navio. E embora sua cautela de homem do mar lhe dissesse que era perigoso tanto pano à noite, em mares cheios de recifes e rochedos, ele exclamou, exultante: “Soltem as rizes do sobre de proa e da gávea superior”, e festejou a alegria de estar no mar e no comando outra vez, após tantos dias ancorado. Impeliu o navio um ponto a estibordo e soltou novas rizes, fazendo

o ganhar cada vez mais velocidade.

— Apronte o escaler dianteiro, Sr. Cudahy! Deus sabe que é melhor estar pronto, quando ele chegar ao convés, e erga a lanterna do timoneiro!

— Sim, sim, senhorrr.

— Baixe a lanterna do timoneiro! Não vamos conseguir nenhum a essa hora da noite! — disse Orlov, corrigindo a si mesmo. — Não vou esperar pelo amanhecer e nem por nenhum maldito timoneiro. Eu mesmo cuidarei do navio. Temos carga urgente a bordo.

Cudahy se curvou, abaixando-se, e aproximou os lábios da orelha de Orlov.

— Será ela, senhor? Aquela que ele estava procurando, comprando seu peso em ouro? Viu o rosto dela?

— Vá lá para a frente, senão eu mando estripar você! E fique com a boca calada, e mande os outros ficarem, pelo sangue de Cristo! Todos devem permanecer confinados ao navio, quando chegarmos a Macau!

— Sim, sim, meu Capitão, senhorrr — disse Cudahy, com uma risada, e ficou em pé, com toda sua altura, dominando o homenzinho de quem gostava e a quem admirava.

— Nossas bocas são conchas de ostras, pelas barbas de São Patrício. Não tema! — Deu um pulo para o passadiço do tombadilho abaixo, e seguiu em frente.

Orlov caminhou pelo tombadilho, imaginando que mistério todo seria aquele, e o que havia de errado com a pequena moça envolta em lençóis que o Tai-Pan trouxera para bordo em seus braços. Viu o atarracado chinês Fong seguindo Cudahy como um cão paciente e imaginou também por que o homem fora enviado a bordo a fim de ser treinado como capitão, e o motivo de ter o Tai-Pan posto um pagão a bordo de cada um dos clíperes.

Gostaria de ter visto o rosto da moça, disse a si próprio. Seu peso em ouro, sim, é o que diz o boato. Eu queria... ah, como eu queria não ser como sou, para poder olhar para o rosto de um homem ou de uma mulher e não ver repulsa e não precisar provar que sou um homem como todos os outros, e melhor do que qualquer outro, nesses mares. Estou cansado de ser Orlov, o Corcunda. Terá sido por isso que senti medo, quando o Tai-Pan disse: “Em outubro, você irá para o norte, sozinho”?

Olhou melancolicamente por sobre a amurada, para as ondas negras que passavam velozmente. Você é o que é, e o mar está esperando. E você é capitão do mais belo navio do mundo. E, uma vez na vida, você olhou para um rosto e viu os olhos verdes examinando-o, simplesmente, como a um homem. Ah, Olhos Verdes, pensou, a infelicidade desaparecendo, eu iria para o inferno em troca do momento que você me ofereceu.

— Alto aí, seus idiotas! Dobrem imediatamente os sobrejoanetes! — gritou.

Para obedecer a sua ordem, os homens correram para o alto outra vez, a fim de aproveitar mais a potência do vento. E então, quando viu as luzes de Macau no horizonte, ele ordenou que as velas fossem rizadas e diminuiu cautelosamente a velocidade do navio. — Mas sempre com a máxima força possível — ao entrar no raso porto de Macau, com o prumador a gritar as profundidades.

— Belo serviço, Capitão — disse Struan. Orlov deu a volta, espantado.

— Ah, não vi você. Aparece de repente, como um fantasma. O escaler está pronto para ser baixado. — Depois, acrescentou, despreocupadamente: — Achei que podia dar conta, sem esperar pelo amanhecer e por um piloto.

— Você lê os pensamentos, Capitão. — Struan olhou para as luzes e para a cidade invisível, perdida na água, mas se erguendo numa crista de montanha. — Ancore em nossa bóia costumeira, proteja pessoalmente minha cabina. Não deve entrar... e nem ninguém mais. Todos estão confinados a bordo. Com a boca fechada.

— Já dei essas ordens.

— Quando as autoridades portuguesas subirem a bordo, peça desculpas por não ter esperado o piloto e pague as taxas costumeiras. E o imposto para os chineses. Diga que estou em terra.

Orlov sabia muito bem que não adiantava perguntar por quanto tempo ele demoraria.

***

O amanhecer clareava o horizonte, quando o China Cloud ancorou a meia milha do cais ainda não discernível no porto a sudoeste. ira o mais próximo que o navio podia chegar, em segurança; a baía era perigosamente rasa e, portanto, quase inútil — outra razão pela qual Hong Kong era uma necessidade econômica. Ao encaminhar depressa para a praia, no escaler, Struan notou as luzes em movimento de outro clíper, que se dirigia para o sul — o White Witch. Alguns navios europeus de menores dimensões estavam ancorados e centenas de sampanas e juncos seguiam seu curso silencioso.

Struan correu ao longo do desembarcadouro ainda alugado pela Casa Nobre. Viu que não havia luz alguma na grande residência da companhia, também alugada aos portugueses. Era uma mansão com colunas, quatro andares, na extremidade mais afastada da praia marginada de árvores. Ele se virou para o norte e caminhou ao longo da praia, contornando a alfândega chinesa. Cruzou uma rua larga e começou a subir a ladeira suave que levava à Igreja de São Francisco.

Estava satisfeito por se encontrar de volta a Macau, de volta à civilização, pisando em ruas pavimentadas, em meio a majestosas catedrais e graciosas casas no estilo mediterrâneo, praças com fontes e amplos jardins, docemente perfumados devido à abundância de flores.

Hong Kong, um dia, será assim, disse a si próprio... com pagode. Depois lembrou-se de Skinner, e Whalen e a malária e de May-may a bordo do China Cloud, tão frágil e tão fraca e da febre que voltaria, em dois ou três dias. E o Blue Cloud? Deveria, em breve, estar de volta à Inglaterra. Será que derrotará o Gray Witch? Ou se encontrará mil milhas atrás, no fundo do mar? E todos os outros clíperes? Quantos perco, nesta temporada? Que

o Blue Cloud chegue primeiro! E como estará Winifred? Será que Culum está bem, onde se encontrará Gorth, e o ajuste de contas acontecerá hoje? A cidade ainda estava adormecida, ao amanhecer. Mas ele sentia olhares de chineses a observá-lo. Subiu o morro e cruzou a bela Praça de São Francisco.

Além da praça, em direção ao norte, no ponto mais elevado do istmo, ficavam as ameias do antigo forte de São Paulo do Monte. E, por trás, o setor chinês de Macau: ruelas e casebres, construídos por sobre casebres, incrustando-se na encosta norte do morro e ali descendo, até sumir.

Por mais meia milha, havia terra plana, e o istmo se estreitava até menos de cento e cinqüenta jardas. Havia jardins, passeios. o verde-esmeralda da pequena pista de corridas de cavalos e o campo de críquete que os ingleses haviam instalado e mantido, ao longo de séculos. Os portugueses não aprovavam as corridas e não jogavam críquete.

A uma centena de jardas além do campo de críquete, estava a muralha onde Macau terminava e começava a China.

A muralha tinha vinte pés de altura, dez de espessura e se estendia de uma praia à outra. Só após ter sido construída, há três séculos, o imperador concordara em arrendar o istmo aos portugueses e permitir-lhes que se instalassem na terra.