No centro da extensão da muralha, havia uma torre de guarda com um portal e um único portão majestoso. O portão para a China estava sempre aberto, mas nenhum europeu o atravessava.
As botas de Struan faziam um ruído alto, enquanto ele corria através da praça e abria os altos portões de ferro lavrado do palácio do bispo, caminhando em seguida pelos jardins cultivados há três séculos. Um dia, terei um jardim como este, prometeu a si mesmo.
Cruzou o pátio dianteiro pavimentado, com as botas batendo forte, e subiu até a grande porta. Puxou o sino e ouviu-o ecoar, lá dentro, puxou-o repetidamente, com insistência.
Afinal, uma lanterna bruxuleou ao longo das janelas do piso térreo e ele ouviu passos aproximando-se e uma torrente de reclamações em português. A porta se abriu.
— Bom-dia. Quero ver o bispo.
O criado meio vestido e meio adormecido olhou para ele sem o reconhecer e sem compreender, depois soltou outra torrente de palavras em português e começou a fechar a porta. Mas Struan empurrou o pé na porta, abriu-a e caminhou para dentro da casa.Entrou no primeiro cômodo — um belo gabinete com estantes — e se sentou numa cadeira com encosto entalhado— Então deixou os olhos caírem sobre o criado boquiaberto.
— O bispo — repetiu.
***
Meia hora mais tarde, Flarian Guineppa, Bispo de Macau, General da Igreja de Roma, entrou caminhando imperiosamente no aposento de que Struan se apoderara. Era um aristocrata de elevada estatura, que carregava com jovialidade seus cinqüenta anos. Seu nariz era romano e adunco, a testa alta, os traços gastos. Usava um barrete magenta e manto da mesma cor, e em torno de seu pescoço tenso estava pendurado um crucifixo cravejado de jóias. Seus olhos negros estavam cheios de sono e eram hostis. Mas, quando deram com Struan, a raiva causada pelo sono desapareceu. O bispo ficou parado no umbral, com todas as fibras do corpo alertas.
Struan levantou-se,
— Bom-dia, Reverendíssimo. Desculpe vir sem ser convidado, e tão cedo.
— Seja bem-vindo, em nome de Deus, senhor — disse o bispo, amavelmente. Fez sinal em direção a uma cadeira. — Vou tomar um pequeno desjejum. Quer acompanharme?
— Obrigado.
O bispo falou laconicamente em português com o criado, que fez uma curvatura e saiu às pressas. Depois, caminhou devagar até a janela, com os dedos sobre seu crucifixo, e olhou para o sol que nascia. Viu o China Cloud ancorado na baía, bem em frente, e os grupos de sampanas que o cercavam. Que emergência, ficou imaginando, traz a mim o Tai-Pan da Casa Nobre? O inimigo que conheço tão bem, mas jamais encontrei?
— Obrigado por ter-me despertado. O amanhecer está muito lindo.
— Sim.
Os dois homens fingiam uma cortesia que nenhum dos dois sentia.
Para o bispo, Struan representava os ingleses protestantes, materialistas, maus, fanáticos, que infringiram as leis de Deus e para sua danação eterna — negaram o Papa, como os judeus haviam negado Cristo; o homem que era o líder deles, quase sozinho destruíra Macau e, com Macau, a dominação católica sobre os pagãos asiáticos.
Para Struan, o bispo representava tudo que ele desprezava nos católicos — o fanatismo dogmático de homens autocastrados que buscavam o poder, homens que sugavam gota a gota dinheiro dos pobres, em nome de um Deus católico, e com essas gotas de dinheiro construíam majestosas catedrais, para a glória de sua versão da divindade, e que, de maneira idolatra, haviam instalado um homem em Roma, como Papa, e tornando este homem árbitro infalível de outros homens.
Criados de libré, obsequiosamente, trouxeram bandejas de prata, chocolate quente e levíssimos croissants, manteiga fresca e a doce geléia de kumquat por causa da qual o mosteiro era famoso.
O bispo fez uma ação de graças e o latim aumentou o constrangimento de Struan, mas ele nada disse. Os dois homens comeram em silêncio. Os sinos das inúmeras igrejas badalavam matinas e a fraca e gutural litania dos coros de monges na catedral enchiam o silêncio. Depois do chocolate, veio o café, proveniente do Brasil, colônia portuguesa: quente, doce, forte, delicioso. A um sinal da mão do bispo, um criado abriu uma cigarreira cravejada de jóias e ofereceu-a a Struan.
— São de Havana, se lhe agradam. Depois do desjejum, aprecio a “dádiva” de Sir Walter Raleigh à humanidade.
— Obrigado. — Struan escolheu um. Os criados acenderam os charutos e, a um sinal do bispo, foram embora.
O bispo observava as espirais de fumaça.
— Por que o Tai-Pan da Casa Nobre viria procurar minha ajuda? Ajuda papista? — acrescentou, com um sorriso irônico.
— Pode apostar com segurança, Reverendíssimo, que não está sendo procurado de maneira impensada. Já ouviu falar na casca de árvore chamada cinchona? A casca dos jesuítas?
— Ah, é isso. Está com malária. A febre do Vale Feliz — ele disse, suavemente.
— Sinto desapontá-lo. Não, não tenho malária. Mas uma pessoa a quem quero, sim. A cinchona cura a malária?
Os dedos do bispo brincaram com o grande anel em seu dedo médio, e depois tocaram seu crucifixo.
— Sim. Se a malária do Vale Feliz for a mesma malária existente na América do Sul. — Os olhos dele eram penetrantes. Struan sentiu-lhes o poder, mas devolveu a mirada com a mesma firmeza. — Há muito anos, eu era missionário no Brasil. Contraí a malária ali existente. Mas a cinchona me curou.
— Tem cinchona aqui? Em Macau?
Houve um silêncio, rompido pelos estalidos das unhas batendo na cruz, lembrando a Struan o médico chinês a dar pancadinhas no pulso de May-may. Ficou imaginando se julgara corretamente o bispo.
— Não sei, Sr. Struan.
— Se a cinchona puder curar nossa malária, estou disposto a pagar. Se quer dinheiro, terá. Poder? Eu lhe darei. Se quer minha alma, pode ficar com ela... não subscrevo seus pontos de vista, de maneira que seria. uma troca segura. Alegremente, até mesmo passaria pelo ritual de me transformar em católico, mas não teria sentido, como sabe e eu sei. O que quer que desejar, eu lhe darei, se estiver em meu poder lhe dar. Mas quero um pouco da casca. Quero curar uma pessoa da febre. Diga seu preço.
— Para quem vem como suplicante, suas maneiras são curiosas.
— Sim. Mas estou supondo que, a despeito de minhas maneiras, ou do que pensa a meu respeito e eu ao seu, temos os meios de realizar um negócio. Tem cinchona? Se tiver, curará a malária do Vale Feliz? E se curar, qual será o seu preço?
O aposento estava muito silencioso, um silêncio sobrecarregado de movimentos de mentes, vontades e pensamentos.
— Não posso responder a nenhuma dessas perguntas agora — disse o bispo. Struan levantou-se.
— Voltarei hoje à noite.
— Não há necessidade de que volte, senhor.
— Quer dizer que não haverá negócio?
— Estou dizendo que hoje à noite pode ser cedo demais. Levará tempo para mandar o aviso a todos os curadores de doentes e para obter uma resposta. Entrarei em contato com o senhor logo que tenha uma resposta. Para todas as suas perguntas. Onde estará? No China Cloud ou em sua residência?
— Mandarei um homem sentar-se à sua porta, à espera.
— Não há necessidade. Mandarei notícia. -. O bispo permaneceu em sua cadeira. Depois, vendo a profundidade da preocupação de Struan, acrescentou, compassivamente:
— Não se preocupe, senhor. Mandarei um aviso para ambos os lugares, em nome de Cristo.
— Obrigado. — Quando Struan partia, ouviu o bispo dizer: “Vá com Deus”, mas não parou. A porta da frente bateu atrás dele.
No silêncio do pequeno aposento, o bispo suspirou profundamente. Seus olhos contemplaram o crucifixo cravejado de jóias pendurado em seu peito. Rezou, silenciosamente. Depois, mandou buscar seu secretário e ordenou que começasse a procura. Em seguida, mais uma vez sozinho, ele se dividiu nas três pessoas que todos os generais da igreja devem ser, simultaneamente. Antes de tudo, Pedro ungido, primeiro bispo de Cristo, com o que isso implicava, espiritualmente. Em segundo lugar, o guardião militante da igreja temporal, com todas as conseqüências. E, finalmente, apenas um simples homem, que acreditava nos ensinamentos de um homem simples que era o Filho de Deus.