— O que há com ela?
— Tem problemas internos.
— É inglês?
— É tão estranho isso, Sr. Struan? Há muitos ingleses, e também escoceses, que reconhecem a verdade da Igreja de Cristo. Mas o fato de ser católico não diminui os meus méritos como médico.
— Tem aqui a casca de árvore cinchona?
— O quê?
— Casca de árvore cinchona. Casca dos jesuítas.
— Não. Jamais usei isso. Nunca vi. Por quê?
— Por nada. O que há de errado com a Srta. Sinclair?
— É muito complicado. A Sra. Sinclair não deverá ser movimentada por um mês... melhor dois.
— Sente-se suficientemente bem para ser movimentada, garota?
— O irmão dela, Sr. Sinclair, não faz objeção ao fato de permanecer aqui. E eu acredito que o Sr. Culum Struan também aprova o que eu sugiro.
— Culum esteve aqui hoje? — Struan perguntou a Mary.
Ela abanou a cabeça e falou com o monge, o rosto trágico.
— Por favor, conte ao Tai-Pan. A respeito... a meu respeito. O Padre Sebastião disse com gravidade.
— Acho que tem razão. Alguém deve saber. A Srta. Sinclair está muito doente, Sr. Struan. Ela bebeu uma poção de ervas chinesas... talvez veneno fosse a palavra certa... para provocar um aborto. O veneno deslocou o feto, mas causou uma hemorragia que está agora, graças a Deus, quase sob controle.
Struan sentiu um repentino suor.
— Quem mais sabe disso, Mary? Horatio? Culum?
Ela abanou a cabeça.
Struan tornou a se virar para o monge.
— Quase sob controle? Quer dizer que a moça está bem? Que dentro de um mês, aproximadamente, ela estará bem?
— Fisicamente, sim. Se não houver gangrena. E se esta for a vontade de Deus.
— O que quer dizer “fisicamente”?
— Quero dizer, Sr. Struan, que é impossível considerar o físico sem o espiritual. Esta senhora pecou terrivelmente contra as leis de Deus... contra as leis da Igreja Católica e também de sua igreja... e então a paz, o acerto de contas, têm de ser feitos com Deus, antes de ela poder curar-se. Era isto que eu estava tentando dizer.
— Como... como ela chegou aqui?
— Foi trazida para cá por sua ama, que é católica. Consegui uma licença especial para tratá-la e, bom, nós a colocamos aqui e a tratamos o melhor que pudemos. A madre superiora insistia que alguém fosse informado, porque sentimos que não estava resistindo. Foi enviada notícia para o Capitão Glessing. Supusemos que ele fosse o pai, mas a Srta. Sinclair jura que não... que não era. E nos implorou para não revelar a causa de sua doença. — O Padre Sebastião fez uma pausa. — Essa crise, graças a Deus, passou.
— Manterá isso em segredo? O que... o que aconteceu com ela?
— Só o senhor e as freiras sabem. Temos juramentos diante de Deus, que não podem ser rompidos. Não precisa temer por nós. Mas sei que não haverá cura para esta pobre pecadora sem um acerto de contas. Porque Ele sabe.
O Padre Sebastião afastou-se.
— O... o padre era um de seus “amigos”, Mary?
— Sim. Eu não... eu não me arrependo de minha vida, Tai-Pan. Eu não... não posso. E nem do que fiz. É o pagode. — Mary olhava através da janela. — Pagode. — Ela repetiu. — Eu fui estuprada, muito jovem... pelo menos... não é verdade. Mas eu não sabia o que... Eu não entendia, mas fui um pouco forçada, da primeira vez. Depois, eu... não foi necessário forçar... eu queria.
— Quem foi ele?
— Um de meus colegas de escola. Ele morreu. Foi há tanto tempo.
Struan procurou lembrar, mas não identificou nenhum menino que tivesse morrido. Nenhum menino que pudesse ter ido à casa dos Sinclair.
— E, depois disso — Mary continuou, cheia de vacilação — eu tive necessidade. Horatio... Horatio estava na Inglaterra e, então, eu pedia... pedia a uma das amas para procurar um amante para mim. Ela me explicou que eu... que eu poderia ter um amante, muitos amantes e que, se fosse inteligente, e ela fosse inteligente, eu poderia ter uma vida secreta e coisas bonitas. Minha verdadeira vida nunca foi agradável. Você sabe o pai que eu tive. Então, a ama me mostrou como. Ela... procurava para mim. Nós... ficamos... nós ficamos ricas juntas, e eu estou satisfeita. Comprei as duas casas e ela sempre trouxe só homens muito ricos. — Ela parou e, depois de um longo tempo, gemeu: — Ah, Tai-pan, estou com tanto medo.
Struan sentou-se a seu lado. Lembrou-se do que lhe dissera há apenas poucos meses. E da confiante resposta da moça.
CAPÍTULO TRINTA E CINCO
Struan estava à janela aberta, melancolicamente a observar a praia lá embaixo. Entardecia. Os portugueses todos vestiam trajes de noite e davam voltas de um lado para outro, fazendo mesuras, conversando animadamente — com os jovens fidalgos e as moças a se namorarem cautelosamente, sob os olhares vigilantes de pais e aias. Algumas liteiras, com seus cules, labutavam à procura de clientes ou depositavam pessoas que chegavam atrasadas para o passeio. Aquela noite, havia um baile no palácio do governador e ele fora convidado, mas não sabia se iria. Culum não voltara ainda. E não havia notícias do bispo.
Ele vira Horatio, aquela tarde. Horatio ficara furioso porque Ah Tat, ama de Mary, desapareceu.
-Tenho certeza de que foi ela quem deu à pobre Mary a poção, Tai-Pan — disse ele. Mary contara-lhe que bebera por engano um chá de ervas por ela encontrado na cozinha, e nada mais.
— Isso é tolice, Horatio. Ah Tat está com vocês dois há anos. Por que faria uma coisa dessas? Foi um acidente.
Depois da partida de Horatio, Struan procurara os homens com quem Culum e Gorth haviam estado, na noite anterior. Na maioria, eram camaradas de Gorth e todos disseram que, algumas horas depois de Gorth sair, Culum fora embora; que ele bebera, mas não estava mais bêbado do que os outros, do que habitualmente ficava.
Seu estúpido idiota Culum, pensou Struan. Você devia ter tido cuidado.
De repente, notou um criado imaculado, de peruca e libré, que se aproximava, e reconheceu o brasão do bispo, instantaneamente. O homem vinha sem pressa pela praia, mas passou pela sede da companhia sem parar, e desapareceu na praia mesmo.
A luz sumia rapidamente agora, e as luzes do passeio marginado por lanternas começaram a dominar o clarão do entardecer. Struan viu uma liteira com cortinas parar diante da casa. Dois cules, apenas, entrevistos, depuseram-na e sumiram numa ruela.
Struan saiu correndo do aposento e desceu as escadas.
Culum estava estirado, inconsciente, na parte de trás da liteira, com as roupas rasgadas e manchadas de vômito. Fedia a álcool.
Struan ficou mais divertido do que zangado. Puxou Culum até colocá-lo em pé, atirou-o sobre o ombro e, sem se preocupar com os olhares dos transeuntes, carregou-o para a casa.
— Lo Chum! Banho, depressa!
Struan depositou Culum na cama e o despiu. Não havia ferimentos no seu peito e nem nas costas. Ele o virou. Arranhaduras causadas por unhas no estômago. E manchas provocadas por mordidas amorosas.
— Idiota — disse ele, examinando-o rapidamente, mas de maneira minuciosa. Não havia ossos quebrados. Nenhum dente arrancado. O anel de sinete e o relógio haviam sumido. Os bolsos estavam vazios.
— Você foi “depenado” rapazinho. Talvez, pela primeira vez, mas, com certeza, não pela última. — Struan sabia que drogar a bebida de um rapaz era um truque antigo em bordéis.
Criados trouxeram baldes de água quente e encheram a banheira de ferro. Struan ergueu Culum, colocou-o no banho e o ensaboou e lhe passou uma esponja. Lo Chum segurava a cabeça pendurada.
— Patrãozinho bebeu demais, fez muito amor.
— Ayeee yah! — disse Struan.
Ao retirar Culum do banho, sentiu uma dor forte, como uma punhalada, no tornozelo esquerdo, e percebeu que a caminhada de hoje lhe cansara o tornozelo mais do que esperava. É melhor envolvê-lo em gaze durante alguns dias, pensou.
Enxugou Culum e colocou-o na cama. Deu-lhe palmadinhas leves no rosto, mas isto não o acordou, e então jantou e ficou esperando. Sua preocupação aumentou com a passagem do tempo, porque sabia que, àquela hora, por mais que Culum tivesse bebido, já deveria estar recuperado.