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A respiração de Culum era profunda e regular. As batidas do coração, fortes. Struan levantou-se e se espreguiçou. Não havia nada a fazer, senão esperar.

— Vou ver a senhora. Fique olhando com cuidado, está bem? — disse ele.

— Lo Chum olha como se fosse uma mãe!

— Mande notícia, está bem? Quando o patrão acordar, não deixe de mandar notícia. Entendido?

— Não precisa perguntar se entendido, sim? Sempre entendido muito bem, não se preocupe.

Mas Lo Chum não mandou notícia alguma, aquela noite.

Ao amanhecer, Struan saiu da casa de May-may e voltou para a sede da companhia.

May-may dormira em paz, mas Struan ficara à escuta de todos os movimentos de transeuntes, e de cada liteira — e de muitos ruídos que apenas sua imaginação criava. Lo Chum abriu a porta da frente.

— O que adianta Tai-Pan vir cedo, hein? Desjejum pronto, banho pronto, o que Tai-Pan quer ver, hein?

— Patrão acordou?

— Por que perguntar? Se acorda, mando notícia. Entendido tudo muito bem, Tai-Pan — disse Lo Chum, com sua dignidade ofendida. Struan foi para o andar superior. Culum ainda dormia, profundamente.

— Uma, duas vezes, patrão faz a mesma coisa — e Lo Chum resmungou, fez ruídos com os maxilares, fungou, bocejou e gemeu alto. Depois do desjejum, Struan mandou dizer a Liza e Tess que Culum voltara, mas não lhes contou em que condições. Em seguida, tentou concentrar-se nos negócios.

Assinou papéis e aprovou gastos maiores nas construções de Hong Kong, indignado com os custos crescentes da madeira, do tijolo e do trabalho e toda sorte de suprimentos para navios, reparos de navios, equipamento náutico.

Maldição! Os preços tiveram um aumento de cinqüenta por cento — e não há sinal de que vão descer. Devo começar a construir clíperes para o próximo ano, ou vou apostar nos que já temos? Apostar que o mar não afundará nenhum? É preciso comprar mais.

Então, mandou fazer um novo clíper. Ele o chamaria de Tessan Cloud e o navio seria dado a Culum, como presente de aniversário. Mas, mesmo o pensamento de um novo e belo clíper não o entusiasmou como de costume. Fez com que ele se lembrasse do Lótus Cloud, que logo deveria ser construído em Glasgow, e do combate naval, no ano seguinte, com Wu Kwok — se ainda estivesse vivo — ou com Wu Fang Choi, o pai, e seus piratas. Ficou imaginando se os filhos de Scragger desembarcariam na Inglaterra a salvo. Outro mês se passaria, no mínimo, antes de eles chegarem — e mais três meses para a notícia voltar.

Fechou seu escritório e foi para o English Club, onde bateu papo com Horatio por um momento, em seguida com alguns negociantes, e jogou bilhar, mas não se divertiu nem um pouco com a companhia e nem com o jogo. A conversa foi toda sobre negócios, toda cheia de ansiedade com relação a sinais de desastre quanto ao nível internacional e à expansão de seus grandes lances comerciais da temporada.

Sentou-se no grande e tranqüilo salão de leitura e pegou os últimos jornais — de três meses atrás — chegados com a correspondência.

Com esforço, concentrou-se num editorial. Falava das disseminadas perturbações industriais nos Midlands, e garantia que era imperativo pagar um salário justo para uma jornada de trabalho justa. Outro artigo lamentava que a grande máquina industrial da Inglaterra estivesse operando com apenas metade de sua capacidade, e insistia que grandes mercados novos deveriam ser encontrados para a riqueza produtiva que a nação podia vomitar; mais produção significava mercadorias mais baratas, aumento dos empregos, salários mais altos.

Havia outros artigos falando de tensão e de nuvens de guerra sobre a França e a Espanha, por causa da sucessão do trono espanhol; a Prússia metia seus tentáculos em todos os Estados alemães, a fim de dominá-los, e— uma confrontação franco-prussiana estava iminente; havia nuvens de guerra sobre a Rússia e o Sacro Império Romano dos Habsburgos; nuvens de guerra sobre os Estados italianos, que queriam derrubar o adventício rei francês de Nápoles, e desejavam unir-se, ou não se unir, e o Papa, apoiado pelos franceses, estava envolvido na arena política; havia ainda nuvens de guerra sobre a África do Sul, porque os Bôers — que, nos últimos quatro anos, haviam migrado da colônia do Cabo para se estabelecerem no Transvaal e no Estado Livre de Orange — agora ameaçavam a colônia britânica de Natal, e esperava-se que a guerra já fosse anunciada nos próximos despachos; havia manifestações anti-semitas e pogroms em toda a Europa; os católicos lutavam contra os protestantes, maometanos contra indianos, contra católicos, contra protestantes, e esses lutavam entre si mesmos; havia guerras com os índios peles-vermelhas na América, hostilidade entre os Estados do norte e do sul, hostilidade entre a América e a Grã-Bretanha, com relação ao Canadá, perturbações na Irlanda, Suécia, Finlândia, Índia, Egito, os Bálcãs...

— Seja lá o que se leia! — explodiu Struan, sem se dirigir a ninguém, em particular.

— O mundo inteiro está louco, por Deus!

— O que há de errado, Tai-Pan? — perguntou Horatio, repentinamente despertado de seu devaneio cheio de ódio.

— O mundo inteiro está louco e você pergunta o que há de errado! Por que diabo as pessoas não param de se destruir, e não vivem em paz?

— Concordo plenamente — gritou Masterson, do outro lado da sala. — Plenamente. É um lugar terrível para se ter filhos, por Deus! O mundo inteiro está se arrebentando. Arrebentou-se. Era muito melhor antigamente, não? Que horror!

— Sim — disse Roach. — O mundo está andando depressa demais. O maldito Governo encontra-se desgovernado... como sempre. Por Deus, a gente pensa que eles aprendem, mas não aprendem nunca. Todo maldito dia a gente lê que o Primeiro-Ministro disse: “Temos todos de apertar os cintos.” Pelo amor de Deus, você já ouviu alguém declarar que podíamos afrouxar os cintos um pouquinho?

— Ouvi dizer que o imposto de importação sobre o chá vai dobrar — disse Masterson. — E, se aquele maníaco do Peel chegar a ganhar, o patife, com certeza vai criar um imposto sobre a renda! Aquela invenção do demônio.

Houve uma grita geral e Peel foi atacado por todos.

— O homem é um miserável anarquista! — disse Masterson.

— Tolice — disse Roach. — Não é uma questão de impostos, o problema é que há gente demais. O negócio é controlar a natalidade.

— O quê? — rugiu Masterson. — Não comece com essa idéia horrorosa e blasfema! Você é um anticristo, pelo amor de Deus?

— Não, por Deus! Mas estamos sendo engolidos pelas classes inferiores. Não estou dizendo que nós deveríamos controlar a natalidade, mas que eles deveriam, por Deus! A maioria dessa ralé é de malfeitores!

Struan atirou os jornais para um lado e foi para o Hotel Inglês. Era um prédio imponente, cheio de colunas, como o clube. Na barbearia, aparou e lavou o cabelo. Mais tarde, mandou chamar Svenson, o marinheiro sueco massagista. O velho retorcido esmurrou-o com mãos de aço e esfregou gelo sobre seu corpo todo, enxugando-o em seguida com uma toalha áspera, até sua carne arder.

— Por Lord Harry, Svenson, sou um homem novo.

Svenson sorriu, mas não disse nada. Sua língua fora arrancada por corsários no Mediterrâneo há muitos anos. Fez sinal para que Struan repousasse na mesa acolchoada e o cobriu de leve com cobertores, deixando-o a dormitar.

— Tai-Pan! — era Lo Chum.

Struan acordou instantaneamente.

— O patrão Culum?

Lo Chum abanou a cabeça e sorriu, desdentado.

— O senhor da saia comprida!

***

Struan seguiu o taciturno monge jesuíta ao longo das galerias cobertas em torno ao pátio interno, com seu belo jardim.

O relógio da catedral bateu as quatro horas.