Выбрать главу

O monge virou-se no final da galeria, e abriu uma grande porta de teca que dava para uma vasta ante-sala. As paredes eram cobertas de tapeçarias. Tapetes cobriam o chão de mármore gasto.

Bateu respeitosamente numa porta, na outra extremidade, e entrou num aposento. Imponente como um rei, Falarian Guineppa estava sentado numa cadeira de encosto alto, semelhante a um trono. Ele fez gestos dispensando o monge, que se curvou e saiu.

— Sente-se, por favor, senhor.

Struan sentou-se na cadeira indicada. Era ligeiramente mais baixa do que a do bispo e ele sentiu a força de vontade do homem se estendendo para dominá-lo.

— Mandou chamar-me?

— Pedi-lhe para vir ver-me, sim. Cinchona. Não existe nenhuma em Macau, mas creio que há alguma em nossa missão em Lo Ting.

— Onde fica isso?

— No continente. — O bispo endireitou uma dobra em seu traje carmim. — Cerca de cento e cinqüenta milhas noroeste. Struan levantou-se.

— Vou mandar alguém imediatamente.

— Já fiz isso, senhor. Por favor, sente-se. — O bispo estava solene. — Nosso emissário partiu ao amanhecer, com ordens de fazer um tempo recorde. Acho que conseguirá. Ele é chinês e vem daquela área.

— Quanto tempo acha que ele levará? Sete dias? Seis dias?

— Também estou preocupado com isso. Quantos ataques de febre já teve a moça?

Struan teve vontade de perguntar ao bispo como ele sabia a respeito de May-may, mas se conteve. Percebeu que as fontes para informação secreta dos católicos eram uma legião e, de qualquer maneira, a “moça” seria uma dedução simples para um homem tão astuto como o bispo.

— Uma. Ela começou a suar há dois dias, mais ou menos a essa hora.

— Então terá outro ataque amanhã, ou, com certeza, dentro de quarenta e oito horas. Levará pelo menos sete dias para o mensageiro chegar a Lo Ting e voltar... se tudo correr bem e não houver dificuldades imprevistas.

— Não creio que ela possa suportar mais dois ataques.

— Ouvi dizer que ela é jovem e forte. Deveria poder suportar oito dias.

— Ela está grávida de quatro meses.

— Isso é péssimo.

— Sim. Onde fica Lo Ting? Dê-me um mapa. Talvez eu possa reduzir esse prazo em um dia. — Nessa viagem, meus contatos são mil vezes mais felizes do que os seus — disse o bispo. — Talvez sejam sete dias. Tudo dependerá da vontade de Deus.

Sim, pensou Struan. Mil vezes. Queria ter o conhecimento que os católicos acumularam no curso dos séculos, através de constantes incursões à China. Que Lo Ting será esse? Pode haver cinqüenta, num raio de duzentas milhas.

— Sim — disse ele, afinal — tudo dependerá da vontade de Deus.

— É um homem estranho, senhor. Estou satisfeito de ter tido a oportunidade de conhecê-lo. Gostaria de tomar um cálice de Madeira?

— Qual o preço da casca de árvore? Se existir e se chegar a tempo e curar a enfermidade?

— Gostaria de tomar um cálice de Madeira?

— Obrigado.

O bispo tocou a sineta e, imediatamente, um criado de libré apareceu à porta, com uma bandeja de prata lavrada na qual se achavam a garrafa e os cálices.

— A uma melhor compreensão de muitas coisas, senhor. Eles beberam — e se mediram, reciprocamente.

— O preço, Reverendíssimo?

— Há muitas dúvidas, no momento. A resposta pode esperar. Mas duas coisas não podem. — O bispo saboreou seu vinho. — Madeira é um aperitivo perfeito. — Ele voltou à sua linha de raciocínio. — Estou gravemente preocupado com a Srta. Sinclair.

— Eu também — disse Struan.

— O Padre Sebastião é um médico maravilhoso. Mas ele me levou a acreditar que, se a senhorita não for espiritualmente ajudada, poderá matar-se.

— Não, Mary, não! Ela é muito forte. Não faria uma coisa dessas.

Falarian Guineppa juntou os dedos finos. Um raio de sol liquefez o grande anel de rubi.

— Se fosse inteiramente confiada ao Padre Sebastião, e à Igreja de Cristo, poderíamos transformar sua maldição em bênção. Seria a melhor coisa para ela. Acredito, com todo meu coração, que esta é a única solução real. Mas,— se não for possível, antes de ter alta eu passarei a responsabilidade sobre ela a alguém que a aceite.

— Eu aceito.

— Muito bem, mas eu não acho que seja sensato, senhor. Mesmo assim, sua vida e sua alma... e a dela... estão também nas mãos de Deus. Rezo para que o senhor e ela recebam a bênção da compreensão. Muito bem. Antes de ela partir, farei tudo ao meu alcance para salvar sua alma... mas, logo que estiver em condições de partir, eu mandarei notícias.

O relógio da catedral bateu cinco horas.

— Como está o ferimento do Arquiduque Zergeyev? As sobrancelhas de Struan se franziram.

— Essa é a segunda coisa que não pode esperar?

— Para vocês britânicos, talvez.

Falarian Guineppa abriu uma gaveta e tirou uma pasta de couro para documentos bem fechada.

— Pediram-me para lhe dar isto, com prudência. Parece que certas autoridades diplomáticas estão muito preocupadas com a presença do arquiduque na Ásia.

— As autoridades da Igreja?

— Não, senhor. Pediram-me para lhe dizer que pode, se quiser, passar adiante os documentos. Pelo que soube, alguns selos garantem sua validade. — Um fraco sorriso passou-lhe pelo rosto. — A pasta também está selada.

Struan reconheceu o selo do escritório do governador-geral.

— Por que me dariam segredos diplomáticos? Há canais diplomáticos, o Sr. Monsey está a meia milha daqui e Sua Excelência se encontra em Hong Kong. Ambos se acham bem familiarizados com o protocolo.

— Eu nada lhe estou dando. Simplesmente, faço o que me pediram para fazer. Não se esqueça, senhor, por mais que eu, pessoalmente, deteste o que representa, o senhor é um poder na Corte de St. James e suas ligações comerciais são mundiais. Vivemos em tempos arriscados, e Portugal e Grã-Bretanha são antigos aliados. A Grã-Bretanha tem sido uma boa amiga de Portugal, e é sensato os amigos ajudaram-se mutuamente, não? Talvez seja apenas isso.

Struan pegou a pasta oferecida.

— Mandarei notícia logo que voltar o mensageiro enviado a Lo Ting. — Falarian Guineppa disse. — A qualquer hora. Gostaria que o Padre Sebastião examinasse a senhora?

— Não sei — disse Struan, levantando-se. — Talvez. Vou pensar a respeito, Reverendíssimo.

— Como desejar, senhor. — O bispo hesitou. — Vá com Deus.

— Fique com Deus, Reverendíssimo — respondeu Struan.

***

— Olá, Tai-Pan — disse Culum, com a cabeça latejando e a língua com gosto de esterco seco.

— Olá, rapaz. — Struan depôs a pasta ainda sem abrir, que o queimara durante todo o caminho para casa. Foi até o aparador e se serviu de um conhaque forte.— Comida, mestre Culum? — perguntou Lo Chum, todo satisfeito. — Porco? Batata? Um caldo de carne? Hein?

Culum abanou a cabeça, fracamente, e Struan dispensou Lo Chum.

— Tome isto — disse ele, dando o conhaque a Culum.

— Não posso — disse Culum, nauseado.

— Beba.

Culum engoliu o conhaque. Sufocou e logo bebeu mais do chá que havia ao lado da cama. Ficou deitado de costas, com as têmporas latejando.

— Gostaria de falar? Dizer-me o que aconteceu?

O rosto de Culum estava cinzento e o branco de seus olhos avermelhado.

— Não consigo lembrar de nada, por Deus. Sinto-me muito mal.

— Comece do princípio.

— Eu estava jogando uíste com Gorth e alguns poucos amigos nossos — disse Culum, com um esforço. — Lembro-me de ter ganho cerca de cem guinéus. Bebemos bastante. Mas eu me recordo de ter posto os ganhos no bolso. Depois... bom, o resto é um vazio.

— Lembra-se para onde foi?

— Não. Não me lembro direito. — Ele bebeu mais chá, com muita sede, e enxugou o rosto com as mãos, tentando afastar a dor. — Ah, meu Deus, eu me sinto terrível.

— Lembra-se para que bordel você foi?