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— Você está com um aspecto terrível, querido Culum — disse Tess. — Precisa mesmo ir dormir cedo.

— Sim.

Passeavam ao longo da praia, na noite tranqüila. Ele acabara de jantar e tinha a cabeça desanuviada, mas sua agonia era quase insuportável.

— O que há? — ela perguntou, sentindo o tormento de Culum.

— Nada, querida, bebi demais, foi só isso. E aqueles assaltantes não eram lá muito gentis. Por Deus, juro que não beberei durante um ano. — Por favor, meu Deus, não deixai que nada aconteça. Fazei com que a semana passe depressa, e nada aconteça.

— Vamos voltar — ela disse e, pegando firmemente no braço dele, encaminhou-o para a residência dos Brocks. — Uma boa noite de descanso vai fazer muito bem a você.

— Ela se sentia muito maternal e não podia deixar de se sentir feliz, ao ver que ele estava quase desamparado. — Estou satisfeita por você repudiar a bebida por um ano. Meu pai se embriaga terrivelmente, algumas vezes... e Gorth, puxa vida, muitas vezes vi ele embrutecido.

— Eu o vi — disse ele, corrigindo-a.

— Eu o vi embrutecido. Ah, estou tão satisfeita por nos casarmos logo.

Que possível razão teria Gorth para fazer isso?, Culum perguntou a si mesmo. O Tai-Pan deve estar exagerando. Deve estar. Um criado abriu a porta e Culum levou Tess para a sala de visitas.

— De volta tão cedo, amores? — perguntou Liza.

— Estou um pouco cansada, mamãe.

— Bom, já vou indo — disse Culum. — Verei você amanhã. Vai para o jogo de críquete?

— Ah, sim? Vamos, mamãe!

— Quem sabe não quer nos acompanhar, caro Culum?

— Obrigado. Gostaria, sim. Eu as verei amanhã. — Culum beijou a mão de Tess. — Boa-noite, Sra.Brock.

—Boa-noite, rapaz.

—Culum virou-se para a porta, justamente quando Gorth entrava.

— Ah, olá, Gorth.

— Olá, Culum. Eu estava esperando você. Vou tomar uma bebida no clube. Por que não vem também?

— Hoje à noite não, obrigado. Estou exausto. Noites demais dormindo tarde. E há o críquete, amanhã.

— Uma bebida não lhe fará mal. Depois de apanhar, é a melhor coisa.

— Hoje à noite não, Gorth. Mas obrigado. Verei Você amanhã.

— Como quiser, amigo velho. Mas tome conta de você mesmo. — Gorth fechou atrás de si a porta da frente.

— Gorth, o que aconteceu a noite passada? — Liza o examinou.

— O pobre rapaz atravessou um mau pedaço. Saí do clube, como lhe disse, antes dele, então não sei. O que ele contou a Tess?

— Que bebeu muito e foi atacado por bandoleiros. — Ela riu. — Pobre Culum, acho que vai se curar do demônio da bebida por um longo tempo.

— Quer ir pegar meus charutos, Tess, querida? — perguntou Gorth. — Estão na cômoda.

— Pois não — disse Tess, e saiu correndo.

— Ouvi dizer — falou Gorth — ouvi dizer que nosso Culum andou saindo fora da linha.

— O quê? — Liza parou de costurar.

— Não tem perigo — disse Gorth. Talvez eu não devesse ter contado. Não tem perigo quando o homem é cuidadoso, por Deus! Sabe do que um homem gosta.

— Mas ele vai casar com a nossa Tess! E ela não vai casar com um devasso.

— Sim. Acho que vou ter uma conversa com o rapaz. É melhor ter cuidado em Macau, não há dúvida quanto a isso. Se papai estivesse aqui, seria diferente. Mas tenho de proteger a família... e o pobre rapaz de suas fraquezas. Não vá dizer nada a respeito disso, hein?

— Claro que não. — Liza detestava aquilo que tornava os homens masculinos. Por que não podiam controlar-se? Talvez seja melhor eu pensar outra vez a respeito desse casamento. — Tess não vai casar com um devasso. Mas Culum não é assim, de jeito nenhum. Tem certeza do que está dizendo?

— Sim — disse Gorth. — Pelo menos, foi o que alguns dos rapazes disseram.

— Eu queria que seu pai estivesse aqui.

— Sim — disse Gorth. E depois acrescentou, como se estivesse tomando uma decisão súbita. — Acho que vou visitar Hong Kong por um ou dois dias, a fim de conversar com papai. É melhor. E, depois, falarei com o próprio Culum. Partirei com a maré.

CAPÍTULO TRINTA E SEIS

Struan terminou de ler a última página da tradução inglesa dos documentos russos. Lentamente, ajeitou as páginas, recolocou-as na pasta e deixou que esta permanecesse em seu colo.

— Que há? — perguntou May-may. — Por que está tão fantasticamente silencioso, hein? — Ela estava recostada na cama, sob um mosquiteiro, com seu vestido de seda dourada tornando-lhe a pele mais branca.

— Nada, garota.

— Deixe os negócios para lá e converse comigo. Há uma hora, você parece um professor.

— Deixe-me pensar por cinco minutos. Depois, conversarei com você, hein?

— Sim — ela disse. — Se eu não estivesse doente, estaríamos juntos na cama o tempo todo.

— Claro que sim, garota. — Struan foi até à porta do jardim e ficou olhando o céu noturno. As estrelas estavam brilhantes e tudo fazia prever bom tempo. May-may ajeitou-se na cama e ficou a observá-lo. Ele está parecendo muito cansado, pensou. Pobre Tai-Pan, tantos problemas.

Ele lhe contara a respeito de Culum e seus temores por ele, mas nada com relação a Gorth. Dissera também que a casca de árvore que curava a febre chegaria dentro de poucos dias. E lhe contara a respeito de Mary, maldizendo Ah Tat.

— Louca assassina. Ela deveria ter visto o que estava fazendo. Se Mary me cantasse, ou a você, poderíamos tê-la mandado para ter o bebê em segurança,

secretamente. Para a América, ou alguma outra parte. O bebê poderia ter sido adotado e...

— E Glessing? — ela perguntou. — Será que ainda teria casado com ela? Nove meses depois?

— Isso acabou, de qualquer jeito!

— Quem é o pai? — May-may perguntou.

— Ela não me contaria — disse Struan, e May-may sorriu para si mesma. — Pobre Mary — acrescentou. — Agora, a vida dela acabou.

— Bobagem, Tai-Pan. O casamento pode realizar-se se Glessing e Horatio jamais souberem.

— Você perdeu a cabeça? Claro que tudo isso acabou... o que você diz é impossível. Desonesto, terrivelmente desonesto.

— Sim. Mas o que jamais é sabido não tem importância, e a razão para esconder é boa, e não má, pode ter certeza.

— Como ele jamais saberá, por Deus? Hein? Com certeza, descobrirá. Certamente, vai saber que ela não é virgem.

Há maneiras, Tai-Pan, May-may pensou. Maneiras de enganar. Vocês homens são tão simplórios em relação a certas coisas. As mulheres são muito mais espertas a respeito da maioria das coisas importantes.

E ela resolveu mandar alguém a Marr-rry, capaz de explicar tudo que era necessário e, assim, acabar com essa tolice suicida. Quem? Obviamente, a Irmã Mais Velha, a terceira esposa de Chen Sheng, que outrora estivera num bordel e sabia, com certeza, esses segredos. Vou mandá-la amanhã. Ela saberá o que dizer a Marr-rry. Então Marr-rry não é mais problema. Com pagode. Mas, e Culum, Gorth, e Tess? Em breve, não haverá problema, com o assassinato. E o problema de minha febre? Este será resolvido de acordo com meu pagode. Todas as coisas são resolvidas de acordo com o pagode, então por que se preocupar? É melhor aceitar. Tenho pena de você, Tai-Pan. Você pensa tanto e planeja tanto e tenta eternamente mudar o pagode, de acordo com seus caprichos, mas não é assim, é?, ela perguntou a si mesma. Mas, decerto, ele faz apenas o que você faz, o que todos os chineses fazem. Ri do destino e do pagode e dos deuses e tenta usar homens e mulheres para executar seus objetivos. E mudar o pagode. Sim, claro que isso está certo. De muitas maneiras, Tai-Pan, você é mais chinês do que os chineses.Afundou mais na coberta perfumada e esperou que Struan conversasse com ela.

Struan, entretanto, estava completamente concentrado no que soubera através dos documentos da pasta.