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Os documentos incluíam uma cópia traduzida de um relatório secreto preparado pelo Tzar Nicolau I, em julho do ano passado, 1840, e continha, o que era incrível, mapas das ilhas entre a Rússia e a China. Só os mapas, os primeiros que Struan vira, tinham um valor incalculável. Havia também uma análise das implicações dos documentos.

O relatório secreto fora preparado pelo Príncipe Tergin, chefe da Comissão de Planejamento do Ministério de Relações Exteriores. Dizia:

“É nossa opinião, baseada em dados, que dentro de meio século o Tzar governará do Báltico ao Pacífico, dos mares gelados do norte até o Oceano Indico, e estará em posição de dominar o mundo se a seguinte estratégia for adotada, dentro dos próximos três anos.

“A chave para a dominação do mundo é a Ásia, e mais a América do Norte. A América do Norte está quase em nossas mãos. Se a Grã-Bretanha e os Estados Unidos nos derem dez anos de liberdade, na parte russa da América, o Alasca, toda a América do Norte será nossa.

“Nossa posição ali é sólida e amistosa. Os Estados Unidos de maneira alguma consideram nossa vasta extensão territorial nas terras desérticas do norte como uma ameaça. A consolidação do Alasca até nosso ‘forte comercial’ mais ao sul, ao norte da Califórnia — e de lá, por terra, até o Atlântico — pode ser realizada pelo método habituaclass="underline" emigração imediata, em vasta escala. A maior parte do oeste dos Estados Unidos e todo leste do Canadá, com exceção de uma pequena parte, estão atualmente quase despovoados. Portanto, o volume de nossa emigração para os ermos do norte pode ser mantido em segredo — e deve ser. De lá, os emigrantes, que seriam nossas valentes tribos guerreiras eurasiáticas — uzbeks, turcos, siberianos, kirghiz, tardzhiks e uigurs — muitas das quais consistiriam, deliberadamente, em povos nômades, abrir-se-iam num leque e reivindicariam toda a terra, quase à vontade.

“Devemos manter relações cordiais com a Inglaterra e os Estados Unidos, durante os próximos dez anos. Por essa época, a emigração terá tornado a Rússia a mais viril potência européia e nossas tribos — que, outrora, formaram as hordas de Tamerlão e Gêngis Khan — armadas com equipamento moderno e comandadas por russos podem, segundo nossos desejos, empurrar os anglo-saxões para o mar.” Mas, mil vezes mais importante — a Ásia. Podemos ceder a América, nunca a Ásia.

“A chave para a Ásia é a China. E a China fica aos nossos pés. Temos quase cinco mil milhas de terra contínua de fronteira com o Império Chinês. Devemos controlar a China, ou jamais estaremos em segurança. Não podemos nunca permitir que ela se torne forte ou seja dominada por outra grande potência, caso contrário ficaremos presos numa armadilha entre Leste e Oeste e poderemos ser forçados a entrar em guerra nas duas frentes. Nossa política para a Ásia é axiomática: a China deve ser mantida fraca, vassala e sob a esfera russa de influência.

“Só uma potência — a Grã-Bretanha — se interpõe entre nós e o sucesso. Se puder ser impedida, através da astúcia ou de pressão, de adquirir e consolidar uma ilha-fortaleza ao largo da China, a Ásia será nossa.

“Claro, não ousamos alienar nossa aliada Grã-Bretanha, nesta oportunidade. A França, a Polônia, a Prússia e os Habsburgos não estão, de maneira alguma, satisfeitos com a détente dos Dardanelos, como também a Rússia, e devemos permanecer em guarda constante contra suas contínuas hostilidades. Sem o apoio britânico, nosso território sagrado estaria aberto a uma invasão. Contanto que os britânicos sustentem sua posição declarada na China — que eles ‘meramente desejem estabelecer relações comerciais e armazéns comerciais abertos a uma participação igual de todas as nações ocidentais’ — poderemos avançar para Sinkiang, Turquestão e Mongólia, e controlar as vias terrestres para a China. (Já dominamos as rotas de invasão, facilmente alcançáveis a partir da passagem de Khyber e de Kashmir e, em seguida, entrando na índia britânica.) Caso se filtre alguma notícia sobre nossas conquistas territoriais, nossa posição oficial será a de que ‘a Rússia está meramente dominando tribos selvagens hostis em nosso interior’. Dentro de cinco anos, deveremos estar colocados nos umbrais do coração da China, a noroeste de Pequim. Então, através de simples pressão diplomática, estaremos em posição de forçar conselheiros do Imperador Manchu e, através dele, controlar o Império Chinês, até a ocasião em que possa ser convenientemente repartido em Estados vassalos. A hostilidade entre os senhores manchus e os súditos chineses é muito favorável a nós e, é claro, continuaremos a encorajá-la.

“Custe o que custar, devemos encorajar e assistir os interesses comerciais britânicos no sentido de se instalarem nos portos continentais da China, onde seriam contidos pela pressão chinesa direta que nós, no devido tempo, controlaríamos diplomaticamente. E, a todo custo, precisamos desencorajar a Inglaterra de fortificar e colonizar qualquer ilha — como fizeram em Cingapura, Malta, Chipre (ou uma posição inexpugnável, como Gibraltar) — que não estaria sujeita à nossa pressão e serviria como bastião permanente para seu poderio militar e naval. Seria vantajoso iniciar relações comerciais imediatas e próximas com firmas escolhidas naquela área.

“A pedra angular para a nossa política externa deve ser ‘deixemos a Inglaterra dominar os mares e as rotas comerciais, e ser a primeira nação industrial da terra. Mas que a Rússia domine a terra’. Pois, uma vez garantida a terra — e é nossa herança sagrada, um direito dado por Deus, civilizar a terra — os mares se tornarão russos. E, assim, o Tzar de todas as Rússias dominará o mundo.”

Zergeyev poderia facilmente ser uma chave para o plano, pensou Struan. Será ele o homem enviado para descobrir a nossa força na China? Para estabelecer “relações comerciais com firmas escolhidas”? Não fará parte de sua missão informar, em primeira mão, sobre as atitudes americanas diante do Alasca russo? Será ele o homem enviado para preparar o Alasca russo para as hordas? Lembre-se de que ele lhe disse: “A terra é nossa, o mar é de vocês!”

O comentário sobre esse relatório era igualmente ousado e penetrante: “Com base neste documento secreto e nos mapas anexos, cuja validade não deve ser questionada, podem ser tiradas certas conclusões de longo alcance:

“Primeira, com relação à estratégia norte-americana: Deve-se notar que, embora os Estados Unidos estejam gravemente preocupados com a atual disputa de fronteiras entre o país e o Canadá britânico, não deseja, segundo parece, adquirir mais território no continente norte-americano. E, devido às relações amistosas existentes entre os Estados Unidos e a Rússia — cuidadosamente alimentadas, segundo se acredita, para alcançar esse objetivo — o sentimento político dominante, atualmente, em Washington, é de que o envolvimento russo no Alasca e para o sul, pela costa oeste, não atinge a soberania do país. Em suma, os Estados Unidos da América não invocarão a Doutrina Monroe contra a Rússia e assim — espantosamente — deixarão sua porta dos fundos aberta para uma potência estrangeira, contrariando seus óbvios interesses. E, seguramente, contrariando os interesses do Canadá britânico. Se quinhentos mil membros de tribos eurasiáticas forem introduzidos, discretamente, no norte, como é perfeitamente possível, com certeza os ingleses e americanos ficarão numa posição completamente insustentável.” É preciso notar, além disso, que embora o atual Tzar sinta desprezo pela América russa, este território constitui uma chave russa para o continente. E, se chegar a ocorrer uma guerra civil nos Estados Unidos, relativa à questão dos escravos, como realmente parece inevitável, essas tribos russas estariam em posição de dominar o conflito. Isto, certamente, levaria a Inglaterra e a França à guerra. As hordas nômades russas, com curtas linhas de comunicação por sobre o Mar de Bhering e uma capacidade primitiva de viver ao largo da terra, teriam uma nítida vantagem. E, como a maior parte das terras ocidentais e a sudoeste é escassamente povoada, esses povoadores — ou “guerreiros” — poderiam abrir caminho para o sul com relativa facilidade.