Выбрать главу

“Assim, se a Inglaterra quiser manter sua posição como potência mundial e anular o constante desejo da Rússia de dominar o mundo, deve primeiro eliminar a ameaça do Alasca russo ao Canadá e aos débeis Estados Unidos. Deve persuadir este país, por todos os meios a seu alcance, a invocar a Doutrina de Monroe para expulsar a ameaça russa. Ou deve exercer pressão diplomática e comprar este território, ou tomá-lo através da força. Pois, a menos que a Rússia seja rapidamente contida, toda a América do Norte, dentro de meio século, estará sob seu domínio.

“Em segundo lugar, a Inglaterra deve manter absoluta predominância na China. É necessário verificar a extensão de território já conquistado pelos russos até o outro lado dos Urais e ver até onde eles já penetraram em terras que se encontram frouxamente sob o domínio histórico do Imperador chinês.” Com uma série de mapas, datas e lugares, cópias traduzidas de tratados, todo o panorama do deslocamento russo para leste estava documentado.

“Durante os últimos trezentos anos (desde 1552), exércitos moscovitas trabalharam firmemente em direção a leste, em sua procura de uma fronteira ‘definitiva’! Por volta de 1640, Okhotsk; no Mar de Okhotsk, norte da Manchúria, no Oceano Pacífico, foi alcançada. Imediatamente, esses exércitos moveram-se para o sul e, pela primeira vez entraram em conflito com hordas sino-manchus.

“O Tratado de Nerchinsk, em 1689, assinado entre a Rússia e a China, fixava a fronteira norte entre os dois países ao longo do Rio Argun e das Montanhas Stanovoi. Toda a Sibéria, a leste da Manchúria, era cedida à Rússia. Até então, esta linha era uma fronteira russa ‘definitiva’ ao norte da China.

“Mais ou menos nessa ocasião, em 1690, um russo chamado Zaterev foi enviado por terra a Pequim, como embaixador. A caminho, ele examinou os meios de uma possível invasão do incrivelmente rico coração da China. A melhor rota que descobriu seguia o corredor natural do Rio Selenga, que se dirige para as planícies ao norte de Pequim. A chave para esta rota é a posse do Turquestão, da Mongólia Externa e da província chinesa de Sinkiang.

“E, como declarou o relatório do Príncipe Tergin, os exércitos russos já dominam a Eurásia, ao norte da Manchúria, em direção ao Pacífico, e já se encontram nas fronteiras de Sinkiang, do Turquestão e da Mongólia Externa. É desta direção que, adequadamente, partirá a invasão russa à China, e continuará a partir, por um longo tempo.”

O relatório acrescentava: “A menos que a Grã-Bretanha mantenha uma atitude firme de que a China e a Ásia estão sob sua esfera de influência, os conselheiros russos estarão em Pequim dentro de uma geração. Os exércitos russos controlarão todas as rotas de acesso fáceis procedentes do Turquestão, Afeganistão, Kashmir, para a Índia britânica, e todo Império Britânico Indiano pode ser invadido e engolido à vontade.

“Se a Inglaterra quiser continuar como potência mundial, é vital que a China seja transformada em baluarte contra a Rússia. É vital que os avanços russos sejam detidos na área de Sinkiang. É vital que uma fortaleza britânica dominante seja localizada na China, porque, sozinha, a China não tem capacidade de defesa. Se a China for deixada fenecer em seus hábitos milenares e não for ajudada a emergir na era moderna, será conquistada facilmente pela Rússia e o equilíbrio da Ásia destruído.

“Em conclusão: É lamentável que Portugal não seja suficientemente forte para deter a fome de terra dos russos. Nossa única esperança é que nossa antiga aliada, a Inglaterra, impeça, pela superioridade e pela força, o que parece inevitável.

“Só por esta razão preparamos ilegalmente este dossiê, sem nenhuma permissão, oficial ou não. O relatório do Príncipe Tergin e os mapas foram adquiridos em São Petersburgo, e chegaram a mãos não-oficiais e amistosas em Portugal. E delas passaram às nossas.

“Pedimos a Sua Eminência — que não tem conhecimento de qualquer destas informações — para colocar esses documentos nas mãos do Tai-Pan da Casa Nobre, que garantirá, segundo acreditamos, sua chegada ao destino correto, permitindo sejam tomadas medidas, antes de ser demasiado tarde. E, como medida de nossa sinceridade, assinamos nossos nomes, rezando para que nossas carteiras e talvez as nossas vidas estejam em mãos igualmente seguras.”

O relatório era assinado por dois peritos portugueses em política externa, de menor importância, que Struan conhecia ligeiramente.Ele atirou a ponta de seu charuto no jardim e espiou-a consumir-se. Sim, disse a si próprio, é inevitável. Mas não, se conservarmos Hong Kong. Maldito Lord Cunnington.

Como usar as informações? É fácil. Logo que eu voltar a Hong Kong, uma palavra nos ouvidos de Longstaff e de Cooper. Mas, o que ganho com isso? Por que eu próprio não vou para meu país? Este tipo de conhecimento representa uma oportunidade única na vida. E Zergeyev? Será que conversaremos sobre “assuntos específicos”, agora? Devo negociar com ele?

— Tai-Pan?

— Sim, garota?

— Quer fechar a porta para o jardim? Estou ficando com muito frio.

A noite estava quente.

CAPÍTULO TRINTA E SETE

Calafrios convulsionavam May-may. Calores a consumiam. Durante o delírio, May-may sentiu seu útero romper-se e gritou. A vida em formação deixou-a e levou-lhe tudo, menos uma simples centelha de sua alma e força. Então, a febre cedeu e o suor livrou-a do pesadelo. Durante horas, ela oscilou à beira da morte. Mas seu pagode determinou que voltasse.

— Olá, Tai-Pan. — Sentia o contínuo vazamento do seu útero. — É mau pagode perder bebê — sussurrou.

— Não se preocupe. Procure só melhorar. A qualquer momento a casca de árvore cinchona vai chegar. Sei que vai.

May-may reuniu suas forças e deu de ombros, com um vestígio de seu antigo ar imperioso.

— Malditos sejam os homens de saias compridas. Como pode um homem correr de saias, hein?

Mas o esforço esgotou-a e ela deslizou para a inconsciência. Dois dias depois, parecia muito mais forte.

— Bom-dia, garota. Como se sente hoje?

— Fantasticamente bem — disse May-may. — Está um belo dia, hein? Viu Marrrry?

— Sim. Ela parece muito melhor. Uma mudança incrível. Quase miraculosa!— Por que uma mudança tão boa, hein? — ela perguntou, inocentemente, sabendo que a Irmã Mais Velha fora vê-la, na véspera.

— Não sei — ele disse. — Vi Horatio, pouco antes de partir. Ele trouxe algumas flores. Por falar nisso, ela lhe agradeceu pelas coisas que você lhe enviou. O que foi?

— Mangas e um pouco de chá de ervas que meu médico recomendou. Ah Sam foi lá, há dois ou três dias. — May-may descansou por um momento. Mesmo falar era um grande esforço para ela. Precisava ficar muito forte, aquele dia, disse a si própria com firmeza.

Há muito a fazer hoje, e amanhã chegará a febre outra vez. Ah, bem, pelo menos agora não há problemas para Marr-rry — ela está salva. Tão fácil, agora que a Irmã Mais Velha explicou a ela o que todas as mocinhas nos bordéis aprendem — que, com cuidado e meticuloso fingimento, lágrimas de fingida dor e medo, e as modestas manchas finais, denunciadoras, cuidadosamente colocadas, uma moça pode, se necessário, ser virgem dez vezes, para dez homens diferentes.

Ah Sam entrou, prosternou-se e murmurou alguma coisa para ela. May-may se alegrou.

— Ah, muito bom, Ah Sam! Você pode ir. — E, depois para Struan: — Tai-Pan, preciso de alguns taéis de prata, por favor.

— Quantos?

— Muitos. Estou pobre. Sua velha mãe gosta muito de você. Por que perguntar essas coisas?

— Se você se apressar e melhorar, eu lhe darei todos os taéis de que você precisar.