— Bom-dia, senhor.
— Bom-dia, Capitão Machado — respondeu Struan.
— O governador-geral quer que o senhor saiba que duelos são proibidos em Macau.
— Sei disso — disse Struan. — Agradeça a ele em meu nome, por favor, e diga-lhe que serei o último a infringir as leis portuguesas. Sei que somos todos hóspedes, e os hóspedes têm responsabilidades perante seus anfitriões.
Ele ajeitou a correia de seu chicote de ferro e caminhou em direção ao junco. A multidão se dividiu e ele viu animosidade nos rostos dos homens de Gorth e daqueles que desejavam vê-lo morto. Havia muitos. Lo Chum esperava no tombadilho alto, ao lado de Horatio.
— Bom-dia, senhor. — Estendeu o material para fazer a barba. — Quer?
— Onde está Gorth, Horatio?
— Seus padrinhos estão procurando por ele. Struan rezou para que Gorth estivesse deitado num bordel, bêbado como uma cabra. Ah, Deus, tomara que nossa luta seja amanhã! Começou a fazer a barba. A multidão observava, silenciosamente, e muitos se benziam, espantados com a serenidade do Tai-Pan.
Após barbear-se, ele se sentiu um pouco melhor. Olhou para o céu. Colares de cirros enfeitavam o firmamento e o mar estava calmo como um lago. Gritou para Cudahy, que trouxera o China Cloud:
— Proteja minhas costas.
— Sim, senhorrr.
Struan espichou-se sobre uma escotilha e adormeceu, imediatamente.
— Bom Deus — disse Roach — ele não é humano.
— Sim — disse Vivien — ele é o próprio Demônio.
— Por que não dobra a aposta, hein, se está tão confiante?
— Não. A não ser que Gorth chegue bêbado.
— Digamos que ele mate Gorth... e Tyler?
— Travarão um duelo de vida ou morte, eu acho.
— O que fará Culum, hein? Se Gorth vencer hoje?
— Nada. O que pode ele fazer? A não ser odiar, talvez. Pobre rapaz, eu até gosto dele. Ele odeia o Tai-Pan, de qualquer maneira... então talvez abençoe Gorth, hein? Ele se torna Tai-Pan, por direito. Onde está o demônio do Gorth?
O sol se erguia implacavelmente no céu. Um soldado português saiu correndo de uma rua adjacente e conversou animadamente com o oficial que, imediatamente, começou a fazer seus homens marcharem depressa para a praia. Transeuntes começaram a seguilos.
Struan acordou para uma dolorida realidade, com cada fibra de seu corpo pedindo sono. Pôs-se de pé, cambaleando. Horatio olhava-o, com uma expressão de estranheza.
***
O corpo de Gorth, brutalmente maltratado, jazia, numa viela suja, perto das docas do bairro chinês e, em torno do cadáver, estavam os corpos de três chineses. Outro chinês, mais morto do que vivo com o cabo de uma lança partida enterrado na virilha, jazia gemendo aos pés de uma patrulha de soldados portugueses.Comerciantes e portugueses se apinhavam em torno, procurando ver melhor. Os que conseguiram ver Gorth deram meiavolta, enjoados.
— A patrulha diz que ouviu gritos e ruído de luta — disse o oficial português a Struan e aos outros, que se encontravam por perto. — Quando correram para cá, viram o Sr. Brock no chão, como está agora. Três ou quatro chineses enfiavam-lhe lanças. Quando os demônios assassinos viram nossos homens, desapareceram daqui. — Apontou para um grupo de silenciosos barracos, ruelas retorcidas e becos. — Os soldados saíram à caça deles, mas... — Deu de ombros.
Struan sabia que fora salvo pelos assassinos.
— Oferecerei uma recompensa pelos que escaparam — disse. — Cem taéis mortos, quinhentos vivos.
— Economize seu dinheiro, no caso dos “mortos”, senhor. Os pagãos apenas apresentarão três cadáveres... os primeiros que conseguirem encontrar. Quanto aos “vivos” — o oficial apontou com um polegar, num gesto de desdém, para o prisioneiro — a menos que esse degenerado filho da mãe nos diga onde estão os outros, seu dinheiro está bem seguro. Pensando melhor, acho que as autoridades chinesas seriam, digamos, mais hábeis, num interrogatório. — Falou com dureza, em português, e os soldados colocaram o homem numa porta quebrada e o carregaram.
O oficial limpou uma mancha de poeira de seu uniforme.
— Uma morte estúpida e desnecessária. O Senhor Brock não deveria ter-se arriscado a vir a esta área. Parece que não houve honra satisfeita.
— Tem muita sorte, Tai-Pan — zombou um dos amigos de Gorth. — Muita sorte.
— Sim. Estou satisfeito por este sangue não se encontrar em minhas mãos.
Struan virou as costas para o cadáver e se afastou, devagar. Saiu da ruela e subiu a ladeira, em direção ao antigo forte. Na crista do morro, cercado de mar e de céu, sentou-se num banco e agradeceu ao infinito a bênção da noite e a bênção do dia.
Não prestava atenção aos transeuntes, aos soldados, ao portão do forte, à canção dos sinos da igreja. Nem aos pássaros cantando, ao vento suave ou ao sol reconfortante. E nem à hora.
Mais tarde, tentou decidir o que fazer, mas sua mente não queria funcionar.
— Controle-se — disse alto.
Desceu o morro, foi até à residência do bispo, mas este não se encontrava lá. Dirigiu-se à catedral e perguntou por ele. Um monge lhe disse para esperar no jardim do claustro. Struan sentou-se num banco, à sombra, e ficou à escuta das fontes borbulhantes. As flores lhe pareciam mais coloridas do que nunca, seu perfume mais suave. As batidas de seu coração, a força de seus membros e até mesmo a constante dor no tornozelo — não eram um sonho, mas a realidade.
Ah, meu Deus, obrigado pela vida.
***
O bispo olhava-o, sob a galeria do claustro.
— Olá, Eminência — disse Struan, maravilhosamente reconfortado. — Vim agradecer-lhe. O bispo franziu os lábios finos.
— O que estava vendo, senhor?
— Não sei — respondeu Struan. — Apenas olhava para o jardim. Apreciando-o. Apreciando a vida. Não sei exatamente.
— Creio que estava muito próximo de Deus, senhor. Talvez não ache, mas eu sei que sim. Struan abanou a cabeça.
— Não, Eminência. Só feliz, num dia esplêndido, num lindo jardim. Só isso.
Mas a fisionomia de Falarian Guineppa não mudou. Seus dedos esguios tocaram o crucifixo.
— Eu fiquei a observá-lo por um longo tempo. Senti que estava próximo. Logo o senhor! Certamente, isto não está certo. — Suspirou. — Entretanto, como poderemos nós, pobres pecadores, saber os desígnios de Deus? Invejo-o, senhor. Queria falar comigo?
— Sim, Reverendíssimo. A cinchona curou a febre.
— Deo gratias! Mas é maravilhoso! Como são esplêndidos os desígnios de Deus!
— Vou fretar uma embarcação para ir imediatamente ao Peru, com ordem para carregar cinchona — disse Struan. — Com sua permissão, gostaria de mandar o Padre Sebastião, para que descubra como cultivam a casca, de onde vem, como eles tratam a malária lá... tudo. Dividiremos a carga e o conhecimento igualmente, quando ele voltar. Gostaria que ele, sob sua autoridade, escrevesse um relatório médico, de imediato, e o enviasse para o Lancet, na Inglaterra, e para o Times, falando do seu tratamento bemsucedido da malária com a cinchona.
— Um tratado médico-oficial como esse teria de ser enviado através de canais oficiais do Vaticano. Mas eu lhe direi que faça isso. Quanto a mandá-lo... isto eu terei de considerar. Entretanto, mandarei alguém com o navio. Quando partirá?
— Dentro de três dias.
— Está bem. Dividiremos igualmente a carga e os conhecimentos. É muita generosidade.
— Não estabelecemos um preço para a cura. Ela está curada. Então, agora, quer fazer o favor de me dizer o preço?
— Nada, senhor.
— Não entendo.
— Não há preço para um punhado de cinchona que salvou a vida de uma moça.
— Claro que há um preço, pode pedir o que quiser! Estou pronto para pagar. Vinte mil taéis foram oferecidos em Hong Kong, Eu lhe enviarei uma ordem de pagamento à vista.
— Não, senhor — respondeu, com paciência, o sacerdote de elevada estatura. — Se fizer isso, eu simplesmente rasgarei o papel. Não quero pagamento pela casca de árvore.