— Farei uma doação a uma igreja católica em Hong Kong — disse Struan. — Um mosteiro, se quiser. Não brinque comigo, Eminência. Comércio é comércio. Diga seu preço.
— Nada me deve, senhor. Nada deve à igreja. Mas deve muito a Deus. — Ele ergueu a mão e fez o sinal-da-cruz. — In nomine Patris, et Filii, et Spiritus Sancti — disse, tranqüilamente, e foi embora.
CAPÍTULO QUARENTA
May-may se achou acordando, com os braços de Struan a apoiá-la e a xícara em seus lábios. Vagamente, ouviu Struan conversar, com tranqüilidade, com o Padre Sebastião, mas não fez o esforço necessário para entender as palavras em inglês. Obedientemente engoliu a cinchona e se deixou deslizar outra vez para o estado de inconsciência.
Ouviu o monge partir, sentiu que a presença estranha se fora, e isto lhe agradou. Percebeu que Struan a erguia outra vez e engoliu a segunda xícara, com o gosto ruim ainda a enjoá-la.
Através da névoa confortável, ouviu Struan sentar-se na cadeira de bambu e logo escutou sua respiração pesada e regular, percebendo que dormia. Isto a fez sentir-se muito segura.
O ruído das amas conversando na cozinha, o humor irritável e cáustico de Ah Sam, e o perfume de Yin-hsi eram tão agradáveis que May-may não quis deixar o sono dominá-la inteiramente.
Ficou deitada, quieta, e reuniu forças durante aquele minuto. E soube que iria viver.Queimarei incenso para os deuses pelo meu pagode. Talvez uma vela para o deus de saias compridas. Afinal de contas, o monge trouxe a casca, não foi? — por pior que seja o gosto. Talvez eu devesse tornar-me uma cristã de saias compridas. Isto daria ao monge grande prestígio. Mas o meu Tai-Pan não aprovaria. Mesmo assim, talvez eu me torne. Porque, se não existe nenhum Deus de saias compridas, então não haverá perigo e, se ele existir — então terei sido muito esperta. Fico imaginando se o deus bárbaro é como nossos deuses chineses. Que a pessoa descobre serem muito estúpidos, quando pensa seriamente a respeito. Mas, realmente, não são. São como seres humanos, com todas as nossas fraquezas e forças. É muito mais sensato do que fingir, como fazem os bárbaros, que seu deus é perfeito e vê tudo, escuta tudo, a tudo julga e pune.
Estou satisfeita por não ser um deles. Ouviu o sibilar das roupas de Yin-hsi e respirou sua presença perfumada. Abriu os olhos.
— Parece melhor, Suprema Senhora — sussurrou Yin-hsi, ajoelhando-se perto dela.
— Veja, trouxe-lhe algumas flores.
O pequeno buquê era muito bonito. May-may fez um sinal afirmativo com a cabeça, fracamente, mas sentiu que suas forças fugiam. Struan estava estirado na cadeira de encosto inclinado, profundamente adormecido, o rosto rejuvenescido pelo repouso, sombras escuras sob os olhos e o vermelho cru de um vergão no queixo.
— Papai está aí há mais de uma hora — disse Yin-hsi. Usava calças de seda azulclaro e uma túnica que ia até os joelhos, trespassada, cor verde-oceano, e havia flores em seus cabelos.
May-may sorriu e movimentou a cabeça, verificando que entardecia.
— Quantos dias se passaram desde que esta febre começou. Irmã?
— Foi a noite passada. Papai chegou com um monge de saias compridas. Eles trouxeram a bebida mágica, não se lembra? Eu mandei aquela miserável escrava Ah Sam ao templo, hoje de manhã cedo, a fim de agradecer aos deuses. Por que não me deixa lavá-la? Deixe que eu lhe ajeite o cabelo. Vai sentir-se muitíssimo melhor.
— Ah, sim, por favor, Irmã — disse May-may. — Devo estar com uma aparência terrível.
— Sim, Suprema Senhora, mas só porque quase morreu. Dentro de dez minutos, estará tão bonita quanto sempre foi... eu prometo!
— Seja silenciosa como uma borboleta, Irmã — disse May-may. — Não acorde o Papai, seja lá o que você fizer, e diga àqueles miseráveis escravos que, se Papai acordar antes de eu estar apresentável, você, pessoalmente, sob minhas ordens, vai colocar instrumentos de tortura em seu polegares.
Yin-hsi, toda satisfeita, afastou-se. Um vasto silêncio caiu sobre a casa.
Yin-hsi e Ah Sam entraram outra vez no quarto, nas pontas dos pés, banharam May-may com água perfumada, trouxeram calças que acabavam de sair do sol, do mais fino xantungue escarlate, com uma túnica também escarlate, e ajudaram-na a se vestir. Banharam-lhe os pés e mudaram as ataduras, seguraram-na enquanto ela escovava os dentes e lavava a boca com urina de bebê. Finalmente, May-may mastigou folhas de chá perfumadas e se sentiu muito purificada.
E, mesmo tendo o movimento e a mudança minado muito de sua força, May-may se sentiu renascida.
— Agora um pouco de sopa, Suprema Senhora. E, em seguida, uma manga fresca — disse Yin-hsi.
— E, em seguida — disse Ah Sam, com um tom de importância, as argolas de prata tilintando... temos notícias maravilhosas para a senhora.
— O quê?
— Só depois de ter comido, Mamãe — disse Ah Sam. Quando May-may começou a protestar, Ah Sam abanou a cabeça, com firmeza. — Temos de cuidar da senhora, ainda é uma paciente. A Segunda Mãe e eu sabemos que boas notícias são maravilhosas para a digestão. Mas, primeiro, precisa de alguma coisa para digerir.
May-may bebeu um pouco de caldo e comeu um pouquinho da manga cortada em fatias. Elas a encorajaram a comer mais.
— Deve fortalecer-se, Suprema Senhora.
— Termino a manga se você contar as notícias agora — disse May-may.
Yin-hsi franziu a testa. Depois, fez um sinal para Ah Sam.
— Vá, Ah Sam. Mas comece com o que Lo Chum lhe contou... como tudo começou.
— Não tão alto — disse May-may, em tom de advertência. — Não acordem Papai.
— Bom — começou Ah Sam — na noite antes de chegarmos, há sete terríveis dias, o filho bárbaro de Papai caiu nas garras do demônio em pessoa, um bárbaro. Esse monstro bárbaro armou uma trama tão suja, tão diabólica, para destruir o filho bem-amado de Papai, que quase não posso descrevê-la. E, a noite passada, hoje, enquanto a bebida mágica destruía sua doença febril, as coisas chegaram ao seu clímax fatal. Passamos a noite acordados, de joelhos, implorando aos deuses. Mas de nada adiantou. Papai estava perdido, a senhora estava perdida, nós estávamos perdidos e o pior era que... o inimigo tinha ganho o jogo. — Ah Sam fez uma pausa e, com estudada fraqueza, cambaleou até a mesa, pegou o pequeno copo cheio com o vinho que Yin-hsi trouxera como presente para May-may e bebeu-o, dominada pela emoção.
Quando estava reanimada, contou toda a história com pausas aflitivas, incríveis suspiros e movimentada gesticulação.
— E ali, no chão sujo — concluiu Ah Sam, com um sussurro soluçante, batendo os dedos na porta — cortado em quarenta pedaços, cercado pelos cadáveres de quinze assassinos, jazia o cadáver do demônio bárbaro Gorth! Assim Papai foi salvo.
May-may bateu as mãos alegremente, e congratulou-se por sua previsão. Os deuses estão certamente velando por nós! Graças a Deus falei com Gordon Chen, naquela oportunidade. Se não fosse ele...
— Ah, que maravilha! Ah, Ah Sam, você contou de uma maneira maravilhosa. Quase morri, quando você chegou àquela parte em que Papai saía de casa hoje de manhã.
Se não me tivesse dito antes de começar que as notícias eram maravilhosas, então eu realmente teria morrido.
— Olá, garota! — Struan estava acordado, fora desperto pelas palmas de May-may. Yin-hsi e Ah Sam levantaram-se depressa e fizeram curvaturas.
— Eu me sinto fantasticamente melhor, Tai-Pan — disse May-may.
— Seu aspecto está fantasticamente melhor.
— Precisa de alimento, Tai-Pan — disse May-may. — Provavelmente não comeu o dia inteiro.
— Obrigado, garota, mas não estou com fome. Vou pegar alguma coisa na residência, mais tarde. — Struan levantou-se e se espreguiçou.
— Por favor, coma aqui — disse May-may. — Fique aqui esta noite. Por favor. Não quero... bom, por favor, fique. Isto me faria muito feliz.