— Não poderei nunca ser o Tai-Pan da Casa Nobre. Não sou como você — disse, com calma determinação. — Eu não quero ser, e nunca serei. Houve uma batida à porta.
— Sim? — disse Struan, irritado. Lo Chum abriu a porta.
— Soldado quer ver senhor, pode?
— Dentro de um minuto. Culum levantou-se.
— Acho que vou embora e...
— Só uni minuto, Culum. — Struan deu as costas a Lo Chum. — Pode mandar entrar. Lo Chum se abespinhou, cheio de irritação, e abriu mais a porta. O jovem oficial português entrou.
— Boa-tarde, senhor.
— Por favor, sente-se, Capitão Machado. Conhece meu filho, Culum?
Apertaram-se as mãos e o oficial se sentou.
— Como líder dos cidadãos de nacionalidade inglesa, meus superiores pediram-me para lhe comunicar oficialmente o resultado de nossa investigação sobre o assassinato do Senhor Brock — ele começou.
— Pegou os outros? — interrompeu Struan. O oficial sorriu e abanou a cabeça.
— Não, senhor. Duvido que vamos pegar. Passamos o assassino às autoridades chinesas, como é nossa obrigação fazer. Eles o submeteram a uma investigação à sua maneira, que é inimitável. Ele admitiu ser membro de uma sociedade secreta. A Hung Mun. Tríades, creio que a chamam assim. Parece que ele veio para cá, de Hong Kong, há alguns dias. Segundo ele, há uma sede dessa sociedade que floresce no Tai Ping Shan. — O oficial sorriu, outra vez. — Parece também que tem muitos inimigos, senhor Struan. Aquele cabrão declarou que seu... seu filho natural, Gordon Chen, é o líder.
— É a melhor piada que já ouvi em minha vida — disse
Struan, fingindo divertir-se. Mas considerava muito cuidadosamente a possibilidade de ser verdade. E, se for? Ele perguntou a si mesmo. Não sei. Mas é melhor descobrir depressa, de qualquer jeito.
— Os mandarins também se divertiram, assim disseram -•contou-lhe Machado. — De qualquer maneira, infelizmente, o demônio pagão morreu antes de se poder conseguir
o nome do verdadeiro líder. — Acrescentou com desdém. — Declarou ter sido enviado aqui para assassinar o Sr. Brock obedecendo a ordens do líder. Claro que ele deu os nomes de seus cúmplices, mas também não fazem sentido, como o resto de sua história. Foi um simples roubo. Esses malditos Tríades não passam de bandoleiros. — Ou talvez — ele disse, com agudeza — uma questão de vingança.
— Hein?
— Bom, senhor. O jovem senhor Brock não era... como direi... exatamente admirado em certas áreas de má reputação. Parece que freqüentava um bordel perto do qual foi encontrado. Agrediu brutalmente uma prostituta, há mais ou menos uma semana. Ela morreu anteontem. Acabamos de receber uma queixa contra ele, dos mandarins. Quem sabe? Talvez os mandarins tenham decidido que dente por dente, e tudo não passe de uma forma de desviar a atenção. Sabe como eles são tortuosos, em sua maneira de agir. Talvez seja bom que esteja morto, porque teríamos de tomar medidas embaraçosas para todos. — Ele se levantou. — Meus superiores, é claro, enviarão um relatório oficial a Sua Excelência, já que um cidadão de nacionalidade inglesa foi envolvido.
Struan estendeu-lhe a mão.
— Quer agradecer a eles em meu nome? E será que tudo isso não poderia ser silenciado? Quero dizer, a parte referente à prostituta. Meu filho é casado com a irmã dele, e gostaria de proteger o nome dos Brocks. Tyler Brock é um antigo sócio.
— Entendo — disse o oficial, com um tom ligeiramente irônico. Deu uma olhada em Culum. — Parabéns, senhor.
— Obrigado.
— Mencionarei sua sugestão a meus superiores, Sr. Struan. Tenho certeza de que eles avaliarão a delicadeza de sua posição.
— Obrigado — disse Struan. — Se pegar os outros, a recompensa ainda vale.
O oficial bateu continência e saiu.— Obrigado por sugerir aquilo — disse Culum. — O que iria acontecer com Gorth?
— Ele teria sido enforcado. Existem sólidas leis inglesas referentes a assassinato.
— Seria irônico, se essa história fosse verdadeira.
— Hein?
— Gordon Chen e a sociedade secreta. Se, realmente, você não teria planejado o desafio a Gorth porque já combinara secretamente que ele fosse assassinado.
— É uma terrível acusação. Terrível.
— Não o estou acusando — disse Culum. — Eu simplesmente disse que seria irônico. Sei que você é o que é; qualquer assassinato que cometer terá de ser abertamente, de homem para homem. Esta é a maneira como a mente do Tai-Pan funcionaria. Mas a minha, não. Nunca serei assim. Estou cansado de colocar pessoas em armadilhas e usálas. Você precisa me suportar como puder. E, se sua Casa Nobre morrer em minhas mãos... bom, para usar suas próprias palavras, é uma questão de pagode. Seu prestígio está salvo. Você partirá como o Tai-Pan, aconteça o que acontecer em seguida. Jamais o entenderei e você jamais me entenderá, mas podemos ser amigos, mesmo assim.
— Claro que somos amigos — disse Struan. — Só uma coisa... prometa que nunca se unirá a Brock.
— Quando eu for Tai-Pan, terei de fazer o que achar melhor. A decisão não caberá mais a você. É a lei que você criou e à qual eu jurei obedecer.
Da praia, vieram ruídos. Em alguma parte, à distância, os sinos de uma igreja começaram a bimbalhar.
— Vai jantar conosco esta noite? No clube?
— Sim. Culum partiu. Struan permaneceu à sua escrivaninha. Como posso inflamar Culum?, perguntou a si mesmo.
Não conseguia imaginar uma resposta. Mandou buscar seu secretário e tomou providências no sentido de que todos os negócios da companhia fossem concluídos antes de sua volta para Hong Kong. Saiu do escritório e, a caminho da casa de May-may, pensou em Brock. Será que ele vai invadir o clube furioso, esta noite, como Gorth fez?
Struan parou por um momento, e olhou para o mar. O White Witch e o China Cloud estavam lindos, ao sol da tarde. Seus olhos vaguearam por Macau, e viu a catedral. Por que aquele bispo diabólico não deu um preço justo para a casca de árvore? Seja justo você próprio, Dirk. Ele não é nenhum demônio. Sim, mas prendeu você numa armadilha. Agora, você jamais o esquecerá, pelo resto de sua vida — e fará todo tipo de favores à igreja. É aos demônios católicos. Serão mesmo demônios? Vamos ver a verdade.
Não. O único demônio que você conhece é Gorth, e Gorth está morto — liquidado. Graças a Deus! Sim.
Gorth está morto. Mas não esquecido.
LIVRO VI CAPÍTULO QUARENTA E DOIS
O China Cloud soltou as amarras ao amanhecer. O mar estava calmo e o vento era firme e vinha do leste. Mas, após duas horas no mar, a brisa se tornou mais fresca e Struan deixou May-may na cabina grande e foi para o convés.
Orlov examinava o céu. Estava claro no horizonte mas, lá longe, reuniam-se algumas nuvens cúmulos.
— Não há perigo ali — disse.
— Também não há nada errado lá — disse Struan, com um gesto em direção ao mar.
Caminhou pelo convés e, depois, balançou-se nos cabos do mastro dianteiro. Subiu com facilidade, o vento puxando-o agradavelmente, e só parou quando segurava as adriças do mastaréu de joanete, no alto do mastro dianteiro.
Examinou o céu e o mar, procurando meticulosamente os ventos ou tempestades que poderiam estar à espreita, o recife escondido ou o baixio não mapeado. Mas não havia nenhum sinal de perigo no horizonte.
Por um momento, deixou-se gozar a velocidade, o vento, a ausência de limites, abençoando seu pagode pelo vida e por May-may. Ela estava muito melhor — ainda muito fraca, porém forte, em comparação com a véspera.
Examinou todo o cordame à vista, procurando ver se havia danos ou fraquezas e, depois, desceu pelas cordas e voltou para o tombadilho. Uma hora mais tarde, o vento refrescou outra vez e o clíper adernou mais, fazendo a espuma bater nas velas mais baixas.