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— Por Júpiter! — foi tudo que Glessing conseguiu gaguejar. Struan escondera o fato de Glessing deliberadamente, sempre sabendo que tinha outro ás para jogar, caso precisasse atraí-lo para seu lado.

— Sim. Claro, não me lembro de seu pai... eu era um menino carregador de pólvora, e morto de medo. Mas o almirante se encontrava a bordo e eu estava no Royal Sovereign.

— Por Júpiter! — Glessing repetiu. Vira o navio de 110 canhões ao largo de Spithead, uma vez, em menino. — Uma companhia de oitocentos e trinta e seis navios e o futuro Tai-Pan da Casa Nobre. Não é de admirar a nossa vitória, por Deus!

— Obrigado — disse Struan. — Mas tive pouco a ver com o combate.

— Por Deus, Tai-Pan — se me permite chamá-lo assim... acho isso maravilhoso. Estou muito satisfeito. Sim, estou. Palavra de honra! Eu o detestava, como sabe. Mas não detesto mais. Ainda acho que minha decisão era correta, na Batalha de Chuenpi, mas percebo agora que aquele maldito filho da mãe de Longstaff estava certo, quando disse que, se eu fosse o senhor, ou o senhor fosse eu, nossas atitudes seriam as mesmas.

— Por que está aborrecido com Longstaff?

O rosto de Glessing perdeu a animação.

— O maldito teve a impertinência de interferir em questões navais! Ele “sugeriu” ao almirante que eu fosse enviado para a Inglaterra! Graças a Deus o almirante é da Marinha Real e aquele patife foi demitido! E, por falar em idiotas, tenho certeza de que leu o jornal de ontem à noite. Aquele estúpido filho da mãe, o Cunnington! Como ousa dizer que Hong Kong é um rochedo abandonado, onde mal existe uma só casa! Que maldita coragem, declarar uma coisas dessas! É o melhor porto do mundo! Como ele ousa dizer que não sabemos nada sobre o mar?

Struan lembrou-se do primeiro dia — bom Deus, só fazia pouco mais de seis meses? — e percebeu que tinha razão. Glessing poderia afundar junto com Hong Kong, mas lutaria até à morte para proteger o Cabo Glessing.

— Talvez o novo designado, Whalen, concorde com Cunnington.

— No que me diz respeito, tudo farei para impedir isso. O almirante também. Ele quase teve uma apoplexia, quando leu o jornal. Vamos pôr a cabeça para pensar. Veja a frota. Ancorada com toda proteção e segurança, como se estivesse no porto de Portsmouth. Diabo, o que suportaríamos, num dia como este, sem Hong Kong? Meu bom Deus! Eu estaria morto de medo, se estivesse fundeado em Macau. Hong Kong é necessária, e não se fala mais no assunto. Até aquele general idiota viu a luz uma vez na vida e concorda plenamente — e ele continuou a amaldiçoar Cunnington e Longstaff, para divertimento de Struan.

A porta se abriu e uma rajada de vento e chuva agitou os mapas. Culum e Tess entraram, muito animados, apesar do tempo.

— Olá, Tai-Pan — disse Culum. — Será que podemos tomar um pouco de chá, Glessing, meu velho? Rezamos por você!

— Obrigado. — Glessing fez sinal para o vaso de ferro no fogareiro. — Sirvam-se. Tess fez uma mesura para Struan e tirou seu casaco encharcado.

— Bom-dia, Tai-Pan.

— Está linda hoje, Sra. Struan — disse ele.

Ela corou e serviu o chá mais apressadamente.

— Vocês dois parecem muito felizes — disse Struan.

— Sim, estamos — disse Culum. — Agradecemos a Deus. E pedimos para o vento mudar.

— Não quer mudar de idéia, rapaz? E ir para a residência?

— Não, obrigado. Estamos completamente seguros, aqui.Struan notou uma pequena caixa de prata, cravejada de pedras preciosas, pendente da corrente de relógio de Culum.

— O que é isso, Culum?

— Um presente. Foi Tess quem me deu.

A caixinha continha agora os vinte soberanos de ouro de Brock, e Culum sentia-se culpado por nunca ter contado a Tess seu significado. Colocara-os na caixa depois que ele e Tess desembarcaram do White Witch pela última vez: para lembrá-lo de Tyler Brock, de que Brock não fora justo, não lhe dera a oportunidade de falar.

— Foi de minha avó. Não é um grande presente de casamento — disse Tess a Struan. — Mas, sem dote nenhum, temos de nos conformar.

— Não se preocupe com isso, garota. Você faz parte da Casa Nobre. Quando irão para a casa de vocês!

— Dentro de três semanas — Culum e Tess disseram, juntos, e riram, outra vez felizes.

— Ótimo. Faremos uma comemoração. Bom, até mais tarde.

— Olhe para aquele idiota, Tai-Pan! — disse Glessing. Ele estava focalizando seu telescópio, através de uma portinhola, numa lorcha que entrava no canal norte, com as velas rizadas.

— Que diabo estará fazendo? Não é dia para sair — disse Struan.

— Com sua permissão, Sr. Struan, farei sinal para que ancore em seu desembarcadouro no Vale Feliz. Terá problemas para ancorar nas Estradas. E seu desembarcadouro está desimpedido.

— Sim, com prazer. Que navio é aquele?

— É uma lorcha da Marinha, Com a flâmula de vice-capitão superintendente. — Ele fechou o telescópio. — Seu capitão precisa fazer um exame de sanidade mental, imagine partir de Macau com um tempo desses. Ou então o Sr. Monsey está com uma pressa diabólica. Qual a sua opinião?

Struan sorriu.

— Não sou nenhuma bola de cristal, Capitão Glessing.

Glessing deu as necessárias ordens a um marinheiro, que prontamente amarrou as bandeiras de código na adriça. Abriu a escotilha do teto. A chuva respingou-os, enquanto as bandeiras eram levadas para cima.

— Onde está Longstaff? — perguntou Struan.

— A bordo da nau capitania — disse Glessing. — Devo confessar que estaria mais feliz se me encontrasse também a bordo.

— Eu, não — disse Culum.

— Ah, meu Deus, não! — Tess acrescentou.

Struan acabou de tomar seu chá.

— Bom, estou de partida. Sabem onde me encontro, para o caso de precisarem de mim.

— Não será perigoso, Tai-Pan? — perguntou Tess. — Ficar ali, com a febre do Vale Feliz, e tudo mais.

— O vento e a chuva afastarão quaisquer gases venenosos — disse Struan, com uma confiança que não sentia.

— Não esqueça, Tess, sobrou alguma cinchona, e logo teremos uma porção — disse Culum. — Tai-Pan, acho que o novo empreendimento é maravilhoso. Um serviço prestado a toda humanidade.

Struan contara a Culum a respeito de seu acerto com Cooper, antes da notícia ser publicada. Também encorajara Culum a procurar mais o americano; quanto mais pensava numa ligação de Cooper e Culum, mais gostava da idéia.

— Jeff é muito inteligente, rapaz. Você vai gostar de trabalhar com ele. — Vestiu a capa de chuva. — Bom, vou embora. Escutem, vocês dois. Não se preocupem com Brock. Não se preocupe com seu pai, menina. Tenho certeza de que mudará de idéia, se lhe derem tempo. Basta dar tempo a ele.

— Espero que sim — disse Tess. — Ah, espero que sim.

À saída, Struan parou junto do barômetro.

— Meu Jesus Cristo! Baixou para 29.5 polegadas!

Glessing olhou a hora, ansiosamente. Eram quase dez horas.

— Isto representa quase meia polegada em meia hora. — Fez uma anotação num gráfico de pressão e seguiu Struan, que correra para fora.

Um quarto do horizonte, a leste, estava negro, e não parecia haver divisão alguma entre mar e céu. O vento tornara-se mais forte, com muitas rajadas, ainda soprando diretamente do norte, e a chuva mais pesada.

— Lá está ele, sem dúvida — disse Struan, tenso. — Fechem tudo, se querem sobreviver. — Começou a correr a toda a velocidade pela Estrada da Rainha, em direção ao Vale Feliz.

— Para dentro! Culum, Tess! — ordenou Glessing. Bateu a porta e passou a tranca.

— De maneira alguma abram qualquer porta, até novas ordens. — Fechou todas as janelas e examinou os trincos, percebendo que Struan tinha razão. O vórtice ia passar diretamente sobre eles. — Fico muito satisfeito por você ter feito as pazes com seu pai, Culum. Agora, eu acho, é bom tomar algum desjejum — disse ele, acalmando-os. — Sra. Struan, quer tomar conta de tudo?