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Nas profundezas da terra, nas encostas do Tai Ping Shan, Gordon Chen se abrigava no porão secreto que construíra e se congratulava por sua prudência. O porão era de pedra e muito forte e, embora ele soubesse que a casa acima desaparecera, alegremente lembrou a si mesmo de que todos os seus pertences de valor estavam salvos ali, e a casa poderia ser depressa substituída. Seus olhos percorreram fileiras de livros de contabilidade, arquivos de títulos de propriedade de terras, notas promissórias, débitos e hipotecas importantes, caixotes de barras de prata, caixas contendo jades, peças de caras sedas e barriletes do mais fino vinho. E em sua concubina. Flor Preciosa. Ela estava instalada confortavelmente, sob as mais ricas cobertas, na cama encostada a uma das paredes. Ele se serviu de outra xicrinha de chá e deitou-se a seu lado.

Você é um sujeito muito inteligente, disse a si mesmo.

***

O vento e a chuva castigavam o lado norte da feitoria de Struan no Vale Feliz e, de vez em quando, um dos Ventos Diabólicos a empurrava. Mas, apesar dos tremores ocasionais, e do barulho terrível, o prédio resistiu.

Struan acendeu um charuto. Detestava ficar assim dentro da casa, sem fazer nada.

— Você fuma demais — May-may gritou, em meia aos ruídos da tempestade.

— Fumar acalma os nervos,

— Hábito sujo. Fedorento.

Ele não disse nada, mas deu outra olhada no barômetro.

— Por que você não pára de olhar, a cada dez minutos?

— É para descobrir onde está a tempestade. Quando o barômetro parar de cair, o centro estará sobre nós. Então, subirá. Eu acho.

— Não estou muito satisfeita por nos encontrarmos aqui, Tai-Pan. Seria muito melhor em Macau.

— Não acho.

— O quê?

— Não acho!

— Ah! Temos de dormir aqui outra vez, esta noite? — ela perguntou, cansada de gritar. — Não quero que você, ou Yin-hsi e até mesmo aquela idiota da Ah Sam peguem a febre.

— Acho que estamos bastante seguros.

— O quê?

— Não há perigo!

Ele deu uma olhada em seu relógio. Duas e vinte. Mas, quando espiou através de uma fenda na persiana, não conseguiu ver nada. Só um vago movimento na escuridão e na chuva horizontal que batia nas vidraças. Ficou satisfeito por se encontrarem ao abrigo do vento. Aquele canto da residência era virado para leste, e a oeste, e ao sul, estava protegido da violência. E Struan sentia-se satisfeito por se encontrar em terra. Nenhum navio pode sobreviver a isto, pensou. Nenhum porto no mundo pode proteger por muito tempo as frotas de um ato assim de Deus. Aposto que Macau está sendo atingida. E não há proteção ali. Aposto que metade dos navios estão destruídos, bem como dez mil juncos e sampanas, ao longo de quinhentas milhas da costa. Sim. E o navio enviado ao Peru? Aposto que foi atingido e destruído, e o Padre Sebastião com ele.

— Vou dar uma olhada nos outros.

— Não demore, Tai-Pan.

Ele seguiu pelo corredor e examinou os trincos das persianas. Depois, atravessou o patamar e, distraidamente, endireitou uma pintura de Quance e entrou nos alojamentos de Robb.

Horatio estava sentado — meio à sombra — na cadeira de bambu na qual há muito tempo Sarah se sentara e, à frágil e bruxuleante luz das lanternas, Struan pensou, por um momento, que fosse Sarah.

— Olá, Horatio. Onde está Monsey?

Horatio olhou para Struan sem reconhecê-lo.

— Encontrei Ah Tat — disse ele, com voz fúnebre.

— Não consigo ouvir, rapaz. Você tem de gritar.

— Ah Tat. Sim, eu a encontrei.

— Hein?

Horatio começou a rir, terrivelmente, como se Struan não estivesse no aposento.

— Mary. teve um aborto. Ela é uma puta suja, para fedorentos pagãos, há anos.

— Tolice. Isso é tolice, rapaz. Não acredite -: disse Struan.

— Eu encontrei Ah Tat e lhe arranquei a verdade. Mary é uma puta diabólica dos chineses, e estava grávida de um mestiço. Mas Ah Tat deu-lhe veneno para matá-lo. — Outra vez, uma gargalhada. — Mas eu peguei Ah Tat e lhe bati até ela me dizer a verdade. Ela era a alcoviteira de Mary. Mary vendeu-se aos pagãos. — Seus olhos voltaram para o centro da lanterna. — Glessing jamais se casará com uma puta de chineses. Então, ela será minha outra vez. Toda minha. Eu a perdoarei, se ela rastejar e implorar.

— Horatio! Horatio!

— Ela será minha. Como quando éramos meninos. Ela será toda minha, outra vez. Eu a perdoarei.

Outra rajada diabólica atingiu o prédio, e mais outra, e uma terceira, e parecia que se encontravam no meio de dez mil sorvedouros terríveis, e Struan ouviu janelas e persianas quebrando-se. Correu pelo corredor, até sua suíte. May-may e Yin-hsi estavam assustadas, na cama, e Ah Sam gemia, petrificada. Struan correu até a cama e abraçou May-may. A violência infernal aumentava.

Abruptamente, a tempestade parou.

Fez-se silêncio.

A luz começou a se filtrar através das fendas nas persianas, aumentando de

intensidade com a passagem dos segundos.

— O que aconteceu? — perguntou May-may, com a voz soando irreal, no silêncio esmagador.

Struan depôs May-may na cama e se aproximou da janela. Espiou através de uma das fendas e, depois, abriu cautelosamente a janela e destrancou as persianas. Piscou, enquanto o ar quente e seco invadia o quarto.

Olhou incrédulo para o porto.

O China Cloud ainda estava em suas amarras. O White Witch perdera seus mastros e as pontas das adriças caíam sobre o casco. O Resting Cloud encontrava-se encalhado no Cabo Glessing e a lorcha ainda amarrada no cais da companhia. Viu uma fragata encalhada, adernada, bem acima da arrebentação. Mas o resto da frota e os navios transportadores de soldados e mercantes ainda estavam ancorados, intactos.

Acima, havia pequenas nuvens, céu azul e sol. Mas, no porto, o mar enlouquecera. Ondas piramidais elevavam-se da superfície e se chocavam umas com as outras, e ele viu

o China Cloud fazer água por sobre a amurada, dos dois lados, bem como pela proa e pela popa, ao mesmo tempo. Além, à distância, uma cortina rodopiante de nuvens gigantescas elevou-s& do mar e subiu até sessenta mil pés, dominando tudo.

E, em toda parte, com exceção do ruído das ondas entrechocando-se, havia aquele silêncio sobrenatural.

— Estamos no vórtice!

— O quê?

— O olho da tempestade. É isso. O centro!

May-may e Yin-hsi e Ah Sam aproximaram-se, correndo.

— A frota está salva, por tudo que é sagrado! — disse Struan, exultante. — Os navios estão salvos. Salvos. — Abruptamente, sua alegria desapareceu e ele bateu as persianas e janelas, trancando-as em seguida.

— Vamos — disse, com urgência, abrindo repentinamente a porta, e elas o acompanharam, espantadas. Ele correu pelo corredor, atravessou o patamar, foi até a ala oposta do prédio e abriu a porta da suíte mais ao norte.

As persianas estavam parcialmente quebradas e uma janela espatifara-se, lançando vidro por toda parte.

— Fiquem aqui — disse.

— O que há, Tai-Pan? A tempestade foi embora.

— Façam como eu digo. — Saiu correndo. May-may deu de ombros e se sentou numa cadeira quebrada.

— O que há com Papai? — perguntou Yin-hsi.

— Não sei. Realmente, eu não o entendo, algumas vezes. Graças a Deus o barulho parou. Que silêncio, não? Um silêncio tão grande que chega a incomodar. Yin-hsi foi até uma janela e abriu-a.

— Ah, vejam! — disse. — Não é lindo? Estou tão feliz por a tempestade ter passado. May-may e Ah Sam colocaram-se a seu lado.

***

Brock estava no convés, paralisado. Via vagas aproximando-se de todas as direções, mas ali, a sotavento da praia, as ondas eram pequenas. O sol estava quente e seco. A água fazia ruído. As nuvens de tempestade em torno eram como as paredes de uma grande catedral, com cinco milhas de largura. Mas as paredes se moviam. O quadrante leste se acercava.