— O que está acontecendo, amor? — perguntou Liza, chegando ao convés com Lillibet. — Ah, que beleza!
— É tão lindo — disse Lillibet.
— Estamos no olho da tempestade! No vórtice! — exclamou Brock. Os marinheiros que chegavam ao convés viraram-se e olharam para ele.
— Ah, veja — disse Lillibet. Apontou para a ilha. — Não é engraçado?
As árvores que pontilhavam a ilha estavam brancas, contra a terra marrom; seus ramos haviam sido despojados de todas as folhas. A nova Cidade da Rainha quase sumira e o Tai Ping Shan estava em ruínas. Pequenas figuras começavam a se mover sobre a praia.
— Vão para baixo — disse Brock, com a voz desafinada. Confusos, eles fizeram o que ele ordenara.
— Capitão Pennyworth!
— Sim, senhor?
— É melhor fazer as pazes com seu Criador — disse Brock. — Só ele sabe o que há do outro lado dessas nuvens diabólicas. Vão todos para baixo.
Ele pegou seu telescópio e focalizou-o na residência da Casa Nobre. Viu Struan em pé no meio de um grupo, diante da porta da frente. Havia algumas cabeças espiando para fora das janelas do terceiro andar.
Fechou o telescópio.
— É melhor entrar, Dirk — disse tranqüilamente. Colocou os remanescentes da portinhola do passadiço no lugar e cerrou-a como pôde, descendo em seguida.
— Acho bom rezarmos — disse ele, alegremente.
— Ah, que bom — disse Lillibet. — Posso começar? Como na hora de dormir?
***
Culum tinha o braço passado sobre Tess.
— Se escaparmos vivos, maldito seja eu se ficar aqui — disse, ele. — Quero voltar para a Inglaterra e este lugar que se dane.
— Sim — disse Tess, horrorizada com a destruição. Ela olhou, com terror, para a cortina de nuvens que se aproximava, aos poucos. Engoliu a península de Kowloon. — É melhor entrarmos — disse.
Culum fechou a porta e sentiu uma dor terrível nas mãos queimadas. Mas fechou o trinco. Ela abriu caminho entre os destroços e se ajoelhou ao lado de Glessing. O rosto dele estava cadavérico, mas seu coração batia.
— Pobre George.
***
Struan media a distância do cais até o China Cloud e até as nuvens, que se encontravam mais a leste. Sabia que não havia tempo para tomar um escaler, então correu até a extremidade do cais e pôs as mãos em concha.
— Orlov! — rugiu. — Ó de bordo, China Cloud — sua voz ecoava estranhamente sobre o porto do Vale Feliz, e ele viu Orlov acenar-lhe, e ouviu-o responder fracamente:
— Sim?
— Vire o navio para o sul! Os ventos virão do sul, agora! Embique para o sul!
— Sim — ouviu Orlov responder e, dentro de um momento, viu marinheiros correndo, um escaler foi baixado e os homens começaram a empurrar febrilmente, virando o casco.
Struan voltou correndo para junto do grupo de homens na porta da frente.
— Entrem!
Alguns deles se moveram, mas o jovem tenente ainda olhava para sua lorcha no porto, sem acreditar.
— Deus do céu, ainda está inteira! E olhem para a frota, olhem para os navios! Pensei que já tivessem sido todos destruídos, a esta altura, mas só uma fragata está virada, e aquele clíper perdeu os mastros. Incrível, por Deus! Sul, o senhor disse? Por quê?
— Vamos — disse Struan, puxando-lhe o braço. — Entre... e leve seus homens para dentro.
— O que há?
— Pelo amor de Deus, sairemos do vórtice dentro de alguns minutos. E então haverá uma reversão dos ventos... acho que mudarão de direção e vão soprar do sul. Leve seus homens...
Foi quase derrubado, quando Horatio passou correndo e se dirigiu à Estrada da Rainha, em direção ao cais.
— Volte, seu louco, você será morto! — gritou Struan, mas Horatio não prestou a menor atenção. Struan saiu correndo atrás dele.
— Horatio! Que diabo há com você? — disse, alcançando-o e agarrando-lhe o ombro.
— Preciso dizer a Glessing. Acabar com essa loucura de casamento — gritou Horatio. — Afaste-se de mim... assassino! Você e sua suja puta assassina! Quero ver ambos na forca! — Ele se soltou, e saiu correndo.
Struan tornou a correr atrás dele, mas a chuva começou a cair e ele parou. A muralha de nuvens já estava quase na metade do porto, e o mar fervia à sua chegada. Viu a tripulação do escaler marinhar para bordo do China Cloud e desaparecer sob o convés. Orlov acenou pela última vez, depois também sumiu.
Struan virou-se e correu para o abrigo da residência. Uma rajada envolveu-o e ele redobrou seus esforços. Chegou ao umbral em meio ao aguaceiro e olhou para trás.
Horatio saía correndo do Vale Feliz, pela praia. A muralha de nuvens cobriu o cais e Horatio começou a desaparecer no meio do nevoeiro. Struan viu-o parar e erguer os olhos, e depois a pequena figura foi arrastada como uma folha.
Struan abriu violentamente a porta e a empurrou, em seguida, para fechá-la mas, antes de poder passar a tranca, baixou a escuridão e um Vento Supremo irrompeu, lançando-o lá para dentro do saguão. Fez explodirem todas as janelas do térreo e matou três marinheiros. Então, parou.
Struan levantou-se, espantado por ainda estar vivo. Correu para a porta e, com toda sua imensa força, fechou-a. O sorvedouro passava pelas janelas, sugando destroços, papéis e lanternas da residência — tudo que não estivesse preso por pregos.
Ao correr para as escadas, Struan deu com o corpo esmagado do jovem tenente. Parou, mas outra rajada empurrou-o e arrastou o cadáver, enquanto Struan lutava para escapar à sucção e subir as escadas, pondo-se a salvo.
***
Quando os ventos sopraram do sul, o White Witch sacudiu-se, bêbado. Adernou até quase virar, inclinou-se sobre as amarras dianteiras mas, por um milagre, endireitou-se outra vez e, tremendo, apontou para o vento. Brock pegou Lillibet e Liza e colocou-as de volta no beliche. Gritou-lhes frases de encorajamento, mas ela não ouviram, e todos eles procuraram, desesperadamente, manter-se vivos.
A água descia pelo passadiço e começou a bater na porta fechada da cabina, insinuando-se por baixo dela. Um Vento Diabólico atingiu o navio. Houve um barulho imenso e a embarcação estremeceu, e Brock percebeu que uma das amarras se partira.
***
A bordo do Boston Princess, Shevaun mantinha as mãos contra os ouvidos, tentando não escutar o grito dos ventos que assaltavam o navio. Cooper sentiu que a última amarra se partia. Gritou a Shevaun para resistir, mas ela não o escutou. Ele cambaleou até o local onde ela se encontrava e segurou-a de encontro a um balaústre, com todas as forças que lhe restavam.
O navio deu uma guinada. A amurada a bombordo oscilou e começou a fazer mais água, causando o afundamento da embarcação. A tempestade tomou conta da nave e atirou-a contra o navio russo.
***
Na cabina principal do grande bergantim, um armário com portas de vidro quebrouse, espalhando garrafas, cristal e instrumentos de cutelaria, e Zergeyev segurou-se, praguejou e rezou uma oração. Quando o navio tornou a se equilibrar, com o nariz em direção ao vento, ele chutou os destroços de debaixo dos pés, rezou outra vez e se serviu de mais um conhaque.
Maldita seja a Ásia, pensou. Queria estar em meu país. Maldita seja esta tempestade do demônio. Malditos sejam os ingleses. Maldita seja esta suja ilha. Maldito seja tudo. Maldito o Príncipe Tergin, por me mandar para cá. Maldito o Alasca — e a emigração. E as Américas, e os americanos. Mas bendita Shevaun.
Sim, disse a si mesmo, enquanto o navio rodopiava outra vez e gemia, sob a violência da tempestade. E bendita a Mãe Rússia, por sua santidade e seu lugar na História. O plano do príncipe Tergin é maravilhoso e correto, claro que é, e eu ajudarei na sua execução. Sim. Maldita aquela bala e maldita dor. Não cavalgarei mais pelas planícies infinitas. Acabou. Agora sou forçado a esquecer os esportes. Encare a si mesmo, Alexi! A bala foi sorte — qual é a palavra que usa o Tai-Pan? — ah, sim, pagode. A bala foi pagode. Bom pagode. Agora, posso concentrar todas as minhas energias a serviço da Rússia.