Agora, estavam quebrados. Bancarrota.
Deus do céu!
Ele ainda se achava espantado demais para pensar numa solução. Só conseguia se deter no que havia de terrível na Nova Era. A sua complexidade. Sua inacreditável velocidade. Uma nova rainha — Vitória — a primeira monarca popular em séculos. E seu marido, Albert — não sabia muita coisa a seu respeito ainda, pois ele era um maldito estrangeiro de Saxe-Coburg, mas agora o Parlamento se tornara forte e controlava a situação, e o desenvolvimento aumentara. Paz por vinte e seis anos e nenhuma grande guerra iminente — o que não ocorria há centenas de anos. O Demônio Bonaparte seguramente morto, a violenta França bem contida e a Inglaterra dominando o mundo pela primeira vez. A escravidão proibida há oito anos. Canais, um novo método de transporte. Estradas com pedágio, cujas superfícies eram de uma suavidade e permanência até então desconhecidas, fábricas, indústrias, teares, produção em massa, ferro e carvão, companhias de capital social e tantas outras coisas novas dentro dos últimos dez anos: o correio por vinténs, o primeiro correio barato do mundo, a primeira força policial, e o “magnetismo” — fosse isto que diabo fosse — e martelo mecânico a vapor, o primeiro Decreto das Fábricas e o Parlamento, afinal, tirado das mãos dos poucos ricos e aristocráticos proprietários de terras, de modo que, agora, inacreditavelmente, qualquer homem na Inglaterra que possuísse um negócio rendendo vinte libras por ano poderia votar, poderia realmente votar, e qualquer homem poderia tornar-se Primeiro-Ministro. E a incrível Revolução Industrial, e a Grã-Bretanha fantasticamente rica, e suas riquezas começando a se disseminar. Novas idéias sobre o governo e a humanidade rompendo barreiras de séculos. Todas britânicas, todas novas. E agora, a locomotiva!
— Essa é uma invenção que vai abalar o mundo — murmurou.
— O que disse, papai? — Culum perguntou. Struan voltou a si.
— Eu só estava pensando a respeito de nosso primeiro passeio num trem — ele inventou.
— Já esteve num trem, senhorrr? — perguntou McKay. — Como é? Quando foi isso?
— Fizemos a viagem inaugural da locomotiva de Stephenson, a Rocket. Eu tinha doze anos — Culum disse.
— Não, rapaz — disse Struan — você tinha onze. Foi em 1830. Há onze anos. Era a viagem inaugural da Rocket, o primeiro trem de passageiros do mundo. De Manchester a Liverpool. De diligência, demoraria um dia, mas fizemos a viagem em hora e meia.
E, outra vez, Struan começou a meditar sobre o destino da Casa Nobre. Depois lembrou-se das instruções que dera a Robb para pedir emprestado todo dinheiro que pudesse, a fim de açambarcarem o mercado do ópio. Vamos ver — poderíamos ganhar entre cinqüenta e cem mil libras esterlinas, com isso. Sim — mas é uma gota d'água, para o que precisamos. Os três milhões que nos devem pelo ópio roubado! Sim, mas não poderemos recebê-los, até o tratado ser ratificado — e isso levará entre seis e nove meses — e precisaremos saldar nossos saques dentro de três!
Como conseguir dinheiro à vista? Nossa posição é boa — nosso conceito é bom. Embora haja hienas salivando em nossos calcanhares. Brock em primeiro lugar. Cooper-Tillman também. Será que Brock iniciou a corrida ao banco? Ou foi seu lacaio Morgan? Os Brocks têm poder suficiente, e dinheiro suficiente. É de dinheiro à vista que precisamos. Ou um grande empréstimo. Apoiados por dinheiro vivo, não papéis. Estamos na bancarrota. Pelo menos estaremos na bancarrota, se nossos credores caírem em cima de nós.
Sentiu a mão do filho em seu braço.
— O que disse, rapaz? Estava falando do Rocket?
Culum estava muito perturbado com a palidez de Struan e o verde penetrante e luminoso de seus olhos.
— A nau capitânia. Já chegamos.
Culum seguiu seu pai, no convés. Jamais estivera a bordo de um navio de guerra, quanto mais uma embarcação capitânia. O H.M.S. Titan era uma das poderosas naves do mar. Era grande — três mastros — com 74 canhões montados em três conveses de tiro. Mas Culum não ficou impressionado. Não dava importância a navios e detestava o mar. Tinha medo da sua violência, do seu perigo e enormidade, e não sabia nadar. Ficou imaginando como seu pai poderia amar o mar.
Há tanta coisa que não sei a respeito de meu pai, pensou. Mas não é de estranhar. Só o vi umas poucas vezes em minha vida, e a última foi há seis anos. Papai não mudou. Mas eu, sim. Agora sei o que vou fazer com a minha vida. E agora que estou sozinho. Gosto de estar sozinho e, ao mesmo tempo, detesto.
Ele seguiu o pai pelo passadiço e entrou no principal convés de tiro. Tinha o teto baixo e eles precisavam curvar-se, enquanto caminhavam em direção à popa, onde se encontrava a cabina com a sentinela. O navio todo cheirava a pólvora, alcatrão, cânhamo e suor.
— Bom-dia, senhor — disse o fuzileiro a Struan, com o mosquete formalmente apontado para ele. — Mestre-d’armas!
O mestre-d’armas, com uniforme vermelho e resplendentes acessórios brancos, engomados, saiu batendo os pés da cabina do guarda. Ele era duro como uma bala de canhão e tinha a cabeça tão redonda quanto ela.
— Bom-dia, Sr. Struan. Espere um momento, senhor. — Ela bateu com deferência na porta de carvalho da cabina. Uma voz disse: “Entre”, e ele fechou a porta atrás de si. Struan tirou um charuto e ofereceu-o a Culum.
— Já está fumando agora, meu rapaz?
— Sim. Obrigado, papai.
Struan acendeu o charuto de Culum e outro para si próprio. Ele se encostou num dos canhões de doze polegadas de comprimento. As balas do canhão estavam empilhadas ordenadamente, sempre à mão. Balas de trinta quilos.
A porta da cabina se abriu. Longstaff, homem esguio e buliçoso, saiu. Seu cabelo era escuro, com elegantes cachos e suíças bastas. Tinha uma testa alta e olhos escuros. A sentinela apresentou armas e o mestre-d’armas voltou para a cabina do guarda.
— Olá, Dirk, meu caro amigo. Como vai? Fiquei tão triste ao saber da notícia. — Longstaff apertou a mão de Struan, nervosamente, depois sorriu para Culum e ofereceu a mão outra vez. — Você deve ser Culum. Eu sou William Longstaff. Sinto que tenha vindo em circunstâncias tão terríveis.
— Obrigado, Excelência. — disse Culum, espantado com o fato de ser tão jovem o Capitão-Superintendente do Comércio.
— Incomoda-se de esperar um momento, Dirk? Uma conferência com o almirante e os capitães. Voltarei em poucos minutos. — Longstaff disse, com um bocejo. — Tenho uma porção de coisas para lhe falar. Se estiver preparado.
— Sim.
Longstaff olhou ansiosamente para o relógio de bolso de ouro, com pedras preciosas encravadas, que pendia de seu colete de brocado.
— Quase onze horas! Não parece nunca haver tempo suficiente! Gostaria de descer para o salão dos oficiais?
— Não. Esperaremos aqui.
— Fiquem à vontade. — Longstaff rapidamente tornou a entrar na cabina e fechou a porta.
— Ele é muito jovem para ser o plenipotenciário, não é? — perguntou Culum.
— Sim e não. Ele tem trinta e seis anos. Os impérios são construídos por jovens, Culum. São perdidos pelos velhos.
— Ele não parece inglês, absolutamente. Será galês?
— Sua mãe é espanhola. — O que explicava sua veia cruel, pensou Struan. — Ela era condessa. O pai era diplomata credenciado junto à corte espanhola. Foi um desses casamentos “de boa estirpe”. A família dele tem ligação com os condes de Toth.
Quando não se nasce aristocrata, pensou Culum, por mais inteligente que se seja não há esperança. Nenhuma esperança. A não ser com uma revolução.
— As coisas estão muito ruins na Inglaterra — disse ele ao pai.
— Como assim, rapaz?
— Os ricos estão ricos demais e os pobres demasiado pobres. As pessoas afluem em massa para as cidades, procurando emprego. E seu número é maior do que o das ocupações disponíveis. O povo está morrendo de fome. Os líderes do movimento de reforma democrática ainda se encontram na prisão.