— Vinho branco, seco, obrigado.
— A mesma coisa, por favor, senhor — disse Culum.
— Tomarei Porto. — Longstaff bocejou novamente.
— Sim, senhorrr. — O camaroteiro tirou as garrafas de um aparador e despejou os vinhos em finas taças de cristal.
— É sua primeira viagem de navio, Culum? — perguntou Longstaff.
— Sim, senhor.
— Mas suponho que está bem atualizado quanto às nossas recentes “complicações”?
— Não, Excelência. Papai não escreve muito, e a China não é mencionada nos jornais.
— Mas logo será, hein, Dirk?
O camaroteiro ofereceu as taças a Longstaff e a seus convidados.
— Não deixe que nos perturbem.
— Sim, senhorrr. — O camaroteiro colocou as garrafas num local ao alcance e saiu.
— Um brinde — disse Longstaff e Struan lembrou-se do brinde de Robb e lamentou que ele tivesse chegado primeiro à nau capitânia. — A uma agradável estada, Culum, e uma viagem segura de volta para a pátria.
Beberam. O vinho branco estava excelente.
— A história está sendo feita aqui, Culum. E não há ninguém melhor equipado para contá-la a você do que seu pai.
— Existe um velho ditado chinês, Culum: “A verdade tem muitas faces” — disse Struan.
— Não entendo.
— Apenas, minha versão dos “fatos” não é necessariamente a única. — Isto lembrou-lhe o vice-rei anterior, Ling, agora caído em desgraça em Cantão porque sua política precipitara conflito aberto com a Grã-Bretanha e, atualmente, condenado à morte.
— Aquele demônio, Ling, ainda está em Cantão?
— Acho que sim. Sua Excelência, Ti-sen, sorriu quando lhe perguntei isso, há três dias, e respondeu, enigmaticamente — “O Escarlate é o Filho do Céu. Como pode o homem saber o que o Céu deseja?” O imperador chinês é chamado o Filho do Céu — Longstaff explicou, esclarecendo Culum. — “O Escarlate” é outro de seus nomes, porque ele sempre escreve com tinta vermelha.
— Gente estranha, muito estranha, os chineses, Culum — disse Struan. — Por exemplo, só o imperador, entre três milhões de pessoas, tem permissão para usar tinta escarlate. Imagine se a Rainha Vitória dissesse: — “De agora em diante, só eu tenho permissão para usar o escarlate”, por mais que a amemos, quarenta mil britânicos imediatamente repudiariam todas as outras tintas, menos a vermelha. Inclusive eu.
— E todos os negociantes da China — disse Longstaff com um inconsciente sorriso escarninho — imediatamente lhe enviariam um barril de tinta desta cor, pagamento contra entrega, e diriam a Sua Majestade Britânica que ficariam satisfeitos em abastecer a Coroa, ao preço tal. E escreveriam a Carta com tinta vermelha. Seria exatamente assim, suponho. Onde estaríamos, se não fosse o comércio?
Houve um pequeno silêncio e Culum ficou imaginando por que seu pai deixara passar o insulto. Ou não era um insulto? Não se tratava apenas de mais um fato corriqueiro, os aristocratas sorrirem sempre de maneira escarninha para qualquer pessoa que não fosse também aristocrata? Bom, a Carta resolveria o caso dos aristocratas de uma vez por todas.
— Queria me ver, Will? — Struan sentia-se mortalmente cansado. Seus pés doíam, e os ombros também.
— Sim. Algumas coisinhas aconteceram desde que... nos últimos dois dias. Culum, quer nos desculpar por um momento? Quero falar com seu pai a sós.
— Certamente, senhor. — Culum levantou-se.
— Não há necessidade disso, Will — disse Struan. Se não fosse o sorriso escarninho de Longstaff, ele teria deixado Culum sair. — Culum é sócio de Struan, agora. Um dia ele será o dirigente, o Tai-Pan. Pode confiar nele como confia em mim.
Culum queria dizer: “Jamais farei parte disto, jamais. Tenho outros planos.” Mas não podia falar nada.
— Devo congratulá-lo, Culum — disse Longstaff — por ser sócio da Casa Nobre.
— Bom, este é um prêmio incalculável. Não quando se está em bancarrota, Struan quase acrescentou.
— Sente-se, Culum.
Longstaff caminhou pela sala e começou:
— Está combinado para amanhã um encontro com o plenipotenciário chinês, a fim de discutir os detalhes do tratado.
— Ele sugeriu a ocasião e o lugar, ou foi você?
— Foi ele.
— Talvez seja melhor mudar. Escolha outro lugar e outra ocasião.
— Por quê?
— Porque, se concordar com sua sugestão, ele e todos os mandarins vão interpretar isso como fraqueza.
— Está bem. Se acha assim. Depois de amanhã, então? Em Cantão?
— Sim. Leve Horatio e Mauss. Irei com você, se quiser, e devemos chegar quatro horas atrasados.
— Mas diabos, Dirk, por que chegar a todos esses extremos ridículos? Quatro horas? Puxa vida!
— Não é ridículo. Agindo como superior diante de um inferior, você os colocará em desvantagem. — Struan deu uma olhada em Culum. — É preciso fazer o jogo oriental com regras orientais. Coisinhas se tornam muito importantes. Sua Excelência tem uma posição muito difícil aqui. Um pequeno erro agora, e o resultado durará cinqüenta anos. Ele precisa fazer as coisas depressa, mas com extrema cautela.
— Sim. E sem nenhuma ajuda, que inferno! — Longstaff esvaziou o copo e encheu outro. — Por que diabo eles não podem agir como gente civilizada, eu não sei. E nunca vou saber. Além de seu pai, não há ninguém que ajude. O Gabinete, em nosso país, não sabe os problemas que enfrento e não se preocupa com isso. Estou completamente sozinho aqui. Eles me dão instruções impossíveis e esperam que eu lide com pessoas impossíveis. Puxa vida, precisamos nos atrasar quatro horas para provar que somos “superiores”, quando é claro que todos sabem que somos superiores! — Ele tomou um pouco de rapé, cheio de irritação, e espirrou.
— Quando vai pôr as terras à venda, Will?
— Bom, ahn, quando o Gabinete aprovar o tratado, eu acho. Há tempo bastante. Digamos, em setembro.
— Não se lembra de sua idéia? Pensei que queria começar a construir em Hong Kong imediatamente.
Longstaff tentou lembrar-se. Parece que se recordava de ter falado a respeito com Struan. O que era mesmo?
— Bom, naturalmente, a cessão de Hong Kong não será oficial até os dois governos aprovarem o tratado... quero dizer, este é o costume, não?
— Sim. Mas essas circunstâncias não são usuais. — Struan brincava com seu copo.
— Hong Kong é nossa. Quanto antes começarmos a construir, melhor, não foi isso que disse?— Bom, naturalmente é nossa. — Qual era o plano? Longstaff prendeu outro bocejo.
— Você disse que toda terra deveria pertencer à rainha. Que até você ser oficialmente o primeiro governador de Hong Kong, todo governo deveria ficar em suas mãos, como plenipotenciário. Se você fizer uma proclamação especial, então tudo será como planejou. Se eu fosse você, realizaria uma venda de terras no próximo mês. Não esqueça, Willy, de que você precisará de renda para a colônia. O Gabinete é sensível com relação a colônias que não pagam seus próprios gastos.
— Correto. Sim. Absolutamente correto. Naturalmente. Deveríamos começar logo que possível. Realizaremos a primeira venda de terra no próximo mês. Vejamos. Deverá ser no sistema de propriedade livre, arrendamento ou o quê?
— Arrendamentos de novecentos e noventa e nove anos. Os acordos costumeiros da Coroa.
— Excelente. — Longstaff fez um gesto de desamparo. — Como se não tivéssemos preocupações suficientes, Culum! Agora temos de agir como malditos comerciantes. Como se faz para construir uma colônia, ora? É preciso ter esgotos, ruas e prédios, Deus sabe o que mais. Um tribunal e uma prisão, por Júpiter! — Ele parou diante de Culum. — Você tem alguma prática legal?
— Não, Excelência — disse Culum. — Apenas metade de um curso universitário.
— Não tem importância. Precisarei ter um secretário colonial, um ajudante-geral, tesoureiro e Deus sabe quem mais. Será necessária uma força policial de algum tipo. Gostaria de ficar encarregado da polícia?