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Durante vinte e quatro dias, Struan tentara ver Jin-qua, mas a cada dia seu mensageiro voltava à Colônia com a mesma resposta:

Eli num volto du mesmu jeito. Sinhô tem de espelá. Manhã devi tá di volta Cantão. Num si incomodi.

Culum passara dez dias na Colônia de Cantão com ele. No décimo primeiro, chegara uma mensagem urgente de Longstaff, pedindo a Culum para voltar a Hong Kong: havia problemas relativos à venda de terras.

Junto com a mensagem de Longstaff chegou uma carta de Robb. Robb escrevia que o editorial de Skinner a respeito da bancarrota de Struan provocara consternação entre os negociantes, e a maioria mandara despachos imediatos para seu país, espalhando seu dinheiro em vários bancos; que a maior parte estava esperando pelo décimo terceiro dia; que não haveria crédito, e as sugestões por ele feitas aos inimigos de Brock tinham sido inúteis; que a Marinha ficara enfurecida, quando foi divulgada a negativa oficial da ordem referente ao contrabando de ópio emitida por Longstaff, e o almirante despachara uma fragata para a Grã-Bretanha, com um pedido para que o Governo lhe desse a permissão desejada diretamente; e, finalmente, que Chen Sheng, o compradore da Companhia, fora procurado por inúmeros credores pedindo pagamento de dívidas de menor importância que, normalmente, seriam cobradas no devido tempo.

Struan sabia que seria derrotado, se não encontrasse Jin-qua dentro dos próximos seis dias, e perguntou a si próprio, outra vez, se Jin-qua o evitava, ou se estaria mesmo fora de Cantão. Ele é um velho ladrão, pensou Struan, mas não me evitaria nunca. E se você, realmente, o encontrar, rapazinho, vai mesmo fazer a oferta àquele demônio Ti-sen?

Houve um ruído de vozes cadenciadas, e a porta se abriu com violência, deixando entrar uma suja jovem Hoklo — a gente que vivia nos barcos — e um criado tentando segurá-la. A mulher usava o grande chapéu cônico costumeiro, o sampana, calça e blusa negras e encardidas e, sobre elas, um também encardido colete acolchoado.

Ninguém pudê pará esta vaca cria aqui, sinhô — disse o criado, numa

corruptela de inglês falado na China, enquanto segurava a moça que lutava. Só através dessa corruptela os negociantes podiam conversar com seus criados, e vice-versa. “Vaca” significava “mulher”. E “cria” era uma variante de “criança”. “Vaca cria” significava “jovem mulher”.

— Vaca cria sai! E bem depressa, entendido? — disse Struan.

— Quer vaca cria, quer? Vaca cria boa na cama. Dois dólar bom — gritou a moça.

O criado agarrou-a e o chapéu dela caiu, possibilitando a Struan ver seu rosto claramente, pela primeira vez. Ela quase não estava reconhecível, por causa da sujeira, e ele morreu de rir. O criado ficou boquiaberto, diante dele, como se ele estivesse louco, e soltou a moça.

— Essa cria de vaca — disse Struan, em meio às risadas — pode ficar, não se preocupe.

A moça limpou iradamente suas repugnantes roupas e gritou outra torrente de insultos para o criado que partia.

— Vaca cria muito boa, você vê, Tai-Pan.

— É você, May-may? — Struan olhou para ela. — Que diabo está fazendo aqui, e qual o motivo de toda essa sujeira?

— Vaca cria acha que você está fazendo pim-pim com nova vaca cria, né?

— Pelo sangue de Cristo, garota, estamos sozinhos, agora! Pare de usar inglês pidgin! Gastei bastante tempo e dinheiro ensinando a você o inglês da rainha! — Struan ergueu-a até onde seus braços alcançaram. — Meu Deus, May-may, você está fedendo tanto que se sente à distância.

— Você também fedê se usá estas roupas fedolentas!

Federia, se usasse essas roupas fedorentas — ele disse, corrigindo-a, automaticamente. — O que está fazendo aqui, e qual o motivo de usar essas roupas fedorentas?

— Me bota no chão, Tai-Pan. — Ele assim fez, e ela se curvou, com tristeza. — Cheguei aqui em segredo e com grande tristeza pela sua perda da Suprema Senhora e de todas as crianças que ela teve, menos um filho. — As lágrimas faziam sulcos na sujeira em seu rosto. — Sinto muito, sinto muito.

— Obrigado, garota. Sim. Mas agora já aconteceu, e não há dor que possa trazê-los de volta. — Ele deu pancadinhas na cabeça da moça e acariciou-lhe o queixo, tocado por sua compaixão.

— Não conheço seus costumes. Como devo me vestir, em sinal de luto?

— Não ponha luto, May-may. Eles foram embora. Não adianta todo pranto e nem todo luto.

— Queimei incenso, para um perfeito renascimento.

— Obrigado. Agora, o que está fazendo aqui, e por que partiu de Macau? Eu lhe disse para ficar lá.

— Primeiro banho, depois mudar de roupa, depois conversar.

— Não temos roupas aqui, May-may.

— A tola da minha ama, Ah Gip, está lá embaixo. Ela carrega roupas, e minhas coisas, não se preocupe. Onde é o banheiro?

Struan puxou a corda do sino e, imediatamente, apareceu o servo, com os olhos arregalados.

— Vaca cria quer banho, sabe? Ama pode fazer tudo. Pegue comida! — E depois, para May-may — Diga que comida quer. May-may conversou com o criado boquiaberto, em tom imperioso, e saiu.

Seu modo de caminhar oscilante jamais deixava de comover Struan. May-may tivera os pés atados. Eles tinham apenas três polegadas de comprimento. Quando Struan a comprara, há cinco anos, cortou as ataduras e ficou horrorizado com a deformidade que os antigos costumes tinham decretado ser um sinal essencial de beleza para uma moça — pés pequenos. Só uma moça com pés pequenos — pés de lótus — poderia ser uma esposa ou uma concubina. As que tinham pés normais tornavam-se camponesas, criadas, prostitutas de baixa classe, amas e operárias, e eram desprezadas.

Os pés de May-may eram aleijados. Sem o apertado envoltório das ataduras, a agonia que ela sentira causava pena. Então, Struan permitiu que as ataduras fossem recolocadas e, após um mês, a dor já diminuíra e May-may pudera andar outra vez. Só na velhice os pés atados se tornavam insensíveis à dor.

Struan perguntara-lhe, então, usando Gordon Chen como intérprete, como aquilo fora feito. Contara-lhe, orgulhosamente, que sua mãe começara a atar seus pés quando ela tinha seis anos.

— As ataduras eram bandagens de duas polegadas de largura e doze de comprimento, e úmidas. Minha mãe amarrou-as com força em torno dos meus pés... em volta dos calcanhares e sobre o peito e plantas dos pés, dobrando os quatro dedos menores para baixo da sola e deixando livre o dedo grande. Quando as bandagens secavam e se apertavam, a dor era terrível. No curso dos meses e anos, o calcanhar se aproxima do dedo e o peito se arqueia. Uma vez por semana, as bandagens são retiradas por alguns minutos, e os pés lavados. Depois de alguns anos, os dedos menores ficam encarquilhados e mortos, e são removidos. Quando eu tinha quase doze anos, podia andar muito bem, mas meus pés ainda não eram suficientemente pequenos. Foi então que minha mãe consultou uma mulher entendida na arte de atar os pés. No dia do meu décimo segundo aniversário, a sábia mulher veio para nossa casa com uma faca aguçada e óleos. Ela fez um profundo corte com a faca no meio da sola dos meus pés. Este corte fundo permitiu que o calcanhar fosse empurrado para mais perto dos dedos, quando as bandagens foram recolocadas.

— Que crueldade! Pergunte a ela como suportou a dor.

Struan lembrava-se de seu olhar trocista quando Chen traduziu a pergunta e de como ela respondeu numa cadência encantadora.

— Ela diz: “Para cada par de pés atados, há um lago de lágrimas. Mas, o que são as lágrimas e a dor! Agora não tenho vergonha de deixar ninguém medir meus pés.” Ela quer que o senhor os meça, Sr. Struan.

— Não vou fazer uma coisa dessas!