— Desista, garota.
— É verdade — disse ela, muito séria. — Os camarões contribuem muito para seu vigor. É muito importante ter bastante vigor! Uma esposa precisa cuidar de seu marido.
— Ela limpou os dedos num guardanapo bordado e, depois, pegou uma das cabeças dos camarões com seus pauzinhos.
— Diabo, May-may, você precisa comer as cabeças?
— Sim, por Deus, você não sabe que são a melhor parte? — ela disse, imitando-o, e riu tanto que sufocou. Ele lhe bateu nas costas, mas suavemente, e depois ela bebeu um pouco de chá.
— Bem feito — disse ele.
— Mesmo assim, as cabeças são a melhor parte, pode ter certeza.
— Mesmo assim, são horrorosas, pode ter certeza.
Ela comeu, em silêncio por um momento.
— Brock tem sido duro de roer?
— Duro.
— É terrivelmente simples resolver essa dureza. Mate Brock. Chegou a hora.
— É uma das maneiras de resolver.
— De uma maneira ou de outra, você achará um jeito.
— O que faz você ter tanta certeza?
— Você não quer me perder.
— Por que deveria eu perder você?
— Eu também não gosto de segundo lugar. Pertenço ao Tai-Pan. Não sou uma maldita Hakka, ou mulher de barco, ou puta cantonesa. Quer chá?
— Sim.
— Beber chá com a comida é muito bom para você. Assim você nunca vai ficar gordo. — Ela despejou o chá e lhe ofereceu a xícara graciosamente. — Eu gosto de você, quando você está zangado, Tai-Pan. Mas você não me assusta. Sei que agrado a você por demais, como você me agrada por demais. Quando ficar em segundo lugar, outra me substituirá, tenho certeza. Isto é pagode. Para mim. E também para você.
— Talvez você já esteja em segundo lugar agora, May-may.
— Não, Tai-Pan, agora não. Mais tarde, sim, mas agora não. Ela se curvou sobre ele e o beijou, e fugiu, enquanto ele tentava agarrá-la.
— Ayeeee yah, não posso dar tantos camarões a você! — Correu para longe dele, rindo, mas ele a agarrou, e ela colocou os braços em torno de seu pescoço e o beijou. — Você me deve cinqüenta mangos!
— O diabo a carregue! — Ele a beijou, sentindo necessidade dela, tanto quanto ela necessitava dele.
— Seu gosto é tão bom. Primeiro vamos jogar gamão.
— Não.
— Primeiro jogamos gamão e depois fazemos amor. Há tempo de sobra. Eu fico com você agora. Jogamos por um dólar o ponto.
— Não.
— Um dóla ponto. Talvez eu tenha dor de cabeça, estou cansada demais.
— Talvez eu não lhe dê o presente de Ano-Novo que eu estava pensando dar.
— Que presente?
— Deixa p'ra lá.
— Por favor, Tai-Pan, eu não vou mais aborrecer você. Que presente?
— Deixa p'ra lá.
— Por favor, me diga. Por favor. Era um alfinete de jade? Ou uma pulseira de ouro? Ou sedas?
— Como está sua dor de cabeça?
Ela lhe deu um tapa, zangada, e depois abraçou-lhe apertadamente o pescoço.
— Você é tão ruim para mim e eu sou tão boa para você. Vamos fazer amor, então.
— Jogaremos quatro partidas. Mil dóla ponto.
— Mas assim é jogo demais! — Ela viu o desafio trocista no rosto dele e seus olhos lampejaram. — Quatro jogos. Vou derrotar você, por Deus.
— Ah, não, por Deus.
Então, eles disputaram quatro partidas, e ela amaldiçoava e dava vivas, chorava e ria, e arquejava, consumida pela excitação, enquanto sua sorte mudava. Ela perdeu dezoito mil dólares.
— Pela morte de Cristo! Estou arruinada, Tai-Pan. Arruinada. Ah, que infelicidade, infelicidade, infelicidade. Todas as minhas economias e mais. Minha casa! Mais um jogo — ela implorou. — Você deve deixar-me tentar recuperar o dinheiro.
— Amanhã. Ao mesmo preço por ponto.
— Jamais jogarei outra vez com esses preços. Nunca, nunca, nunca. Só mais uma vez, amanhã.
***
Após fazerem amor, May-may saiu da cama de armação e foi até à lareira. Uma chaleira de ferro sibilava suavemente, na pequena prateleira de ferro perto das chamas.
Ela se ajoelhou e despejou a água quente da chaleira nas toalhas brancas limpas. As chamas dançaram sobre a pureza de seu corpo. Tinha os pés metidos em pequenas chinelas de dormir, e as ataduras estavam limpas, em torno de seus tornozelos. Suas pernas eram longas e bonitas. Ela escovou o cabelo negro-azulado e brilhante, que lhe caía pelas costas, e voltou para a cama.
Struan estendeu as mãos para pegar uma das toalhas.
— Não — disse May-may. — Deixe que eu faço. Me dá prazer, e é meu dever.
Quando acabou de enxugá-lo, ela lavou a si própria e, depois, instalou-se pacificamente ao lado dele, sob os cobertores. Um vento forte fez as cortinas de damasco farfalharem, e crepitarem as chamas na lareira. As sombras dançaram nas paredes e no teto alto.
— Veja, ali está um dragão — disse May-may.
— Não, é um navio. Você está bem aquecida?
— Como sempre, quando me encontro perto de você. E ali está um templo.
— Sim. — Ele pôs um braço em torno dela, exultando com o suave frescor de sua pele.
— Ah Gip está fazendo o chá.
— Ótimo. Chá será muito bom.
Depois do chá, ambos se sentiram reanimados, voltaram a se deitar na cama e ela apagou a lâmpada. Eles observaram, novamente, as sombras.
— O costume de vocês é que tenham só uma esposa, não é?
— Sim.
— O costume chinês é melhor. Uma Tai-tai é mais sensato.
— O que quer dizer isso, garota?
— “Suprema entre as supremas”. O marido é o supremo na família, naturalmente, mas no lar a primeira esposa é a suprema entre as supremas. Esta é a lei chinesa. A lei também fala em muitas esposas, mas uma delas é Tai-tai. — Ela movimentou para uma posição mais confortável seu longo cabelo. — Quando você se casará? Qual é seu costume?
— Acho que não tornarei a me casar.
— Você deve casar. Uma escocesa, ou uma inglesa. Mas, primeiro, deve casar comigo.
— Sim — disse Struan. — Talvez eu deva.
— Sim, talvez você deva. Eu sou a sua Tai-tai — e depois ela se aninhou mais próxima a ele e se deixou mergulhar num sono tranqüilo. Struan ficou olhando as sombras, por muito tempo. Depois, dormiu.
***
Pouco depois do amanhecer, ele acordou, sentindo perigo. Tirando e face de debaixo do travesseiro, caminhou sem fazer ruído até à janela e abriu as cortinas. Para pasmo seu, viu que a praça estava deserta. Além da praça, no rio, um silêncio estranho parecia pairar sobre as cidades flutuantes.
Depois, ouviu passos abafados que se dirigiam para o quarto. Ele olhou para May-may. Ela ainda dormia tranqüilamente. Com sua faca em riste, Struan encostou-se à parede atrás da porta e esperou.
Os passos pararam. Uma batida suave.
— Sim?
O criado entrou no quarto sem fazer barulho. Estava assustado e, quando viu Struan nu, com a faca na mão, falou com voz entrecortada:
— Sinhô! Tem um sinhô de naliz de gancho e um sinhô de cabelo pleto aqui. Dizem pla sinhô ir diplessa.
— Diz que vô diplessa.
Struan se vestiu, rapidamente. Deixou cair uma escova de cabelo e May-may quase acordou.
— É cedo demais para se levantar. Volte para a cama — disse ela, sonolenta. E se encolheu mais, embaixo dos cobertores, tornando a dormir imediatamente.
Struan abriu a porta. Ah Gip estava pacientemente acocorada no corredor, onde dormira. Struan desistira de mandá-la dormir em outro lugar, porque Ah Gip simplesmente sorria, fazia um sinal afirmativo com a cabeça, dizia: “Sim, sinhô.” E dormia do lado de fora da porta. Era baixa e robusta, e um sorriso parecia permanentemente fixado em seu rosto redondo, com marcas de bexiga. Há três anos era a escrava pessoal de May-may. Struan pagara por ela três taéis de prata.