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— Venha cá — disse ele, tranqüilamente. Ela não se moveu, mas continuou a chorar. — Venha cá — ele repetiu, mas desta vez sua voz era um açoite, e ela deu um pulo. Ele não a olhou. Ela, rapidamente, enrolou em torno de si o que restava do vestido e começou a sair da cama.

— Eu não lhe disse para se vestir! Eu disse venha cá. Ela se aproximou dele às pressas, com os olhos vermelhos e o pó-de-arroz e a maquilagem dos olhos manchados.

Ele firmou o braço contra a mesa, limpou o sangue que escorria e despejou conhaque em cada ferida. Acendeu um fósforo e entregou a ela. — Toque fogo nas feridas, uma a uma.

— Não!

— Uma por uma — ele disse. — A mordida humana é tão venenosa como a de um cão raivoso. Depressa.

Foram precisos três fósforos e, de cada vez, ela chorava um pouco mais, nauseada com o cheiro da carne queimada, mas manteve a mão firme. E em todas as ocasiões em que o conhaque se inflamava, Struan cerrava os dentes e nada dizia.

Quando tudo terminou, ele derramou mais conhaque sobre as feridas enegrecidas e May-may pegou um urinol, sentindo-se muito enjoada. Struan, rapidamente, despejou um pouco de água quente da chaleira numa toalha e deu pancadinhas no traseiro de May-may, suavemente. Quando ela terminou, ele lhe lavou o rosto, com ternura, e fez com que ela lavasse a boca com um pouco da água quente. Depois, ergueu-a e a colocou na cama, e se preparou para ir embora. Mas ela agarrou-se a ele e começou a chorar, com aquele profundo choro interior que limpa o ódio.

Struan a acalmou e acariciou, até ela dormir. Então saiu e substituiu Brock na vigília.

***

Ao meio-dia, houve outro encontro. Muitos queriam partir imediatamente. Mas Struan dominou Brock e persuadiu os mercadores a esperarem até o dia seguinte. Eles concordaram relutantes, e decidiram mudar-se para a feitoria, a fim de se protegerem mutuamente. Cooper e os americanos foram para sua própria feitoria.

Struan voltou para sua suíte.

May-may deu-lhe boas-vindas apaixonadas. Mais tarde, dormiram, em paz. Quando acordaram juntos, ela o beijou, sonolenta, e sussurrou:

— Você tinha razão de me bater. Eu estava errada, Tai-Pan. Mas nunca me bata, quando eu não estiver errada. Porque, em alguma ocasião, você pode dormir, e então eu o matarei. No meio da vigília, a paz de ambos foi interrompida. Wolfgang Mauss batia à porta.

— Tai-Pan! Tai-Pan!

— Sim?

— Depressa! Lá embaixo! Depressa!

Agora eles podiam ouvir a turba aglomerando-se na praça.

CAPÍTULO SETE

— Meu pai avisou vocês todos, malditos sejam! — disse Gorth, afastando-se da janela da sala de jantar e abrindo caminho entre os mercadores.

— Já tivemos turbas assim, antes — disse Struan, bruscamente. — E você sabe que foram sempre controladas, e só se formaram por ordem dos mandarins.

— Sim, mas nenhuma como esta — disse Brock.

— Deve haver alguma razão especial. Não há ainda nenhum motivo para se preocupar.

A praça lá embaixo estava apinhada com uma massa crescente de chineses. Alguns carregavam lanternas, outros tochas. Uns poucos estavam armados. E eles gritavam em uníssono.

— Deve haver dois ou três mil desses vagabundos — disse Brock, e depois bradou

— Ei, Wolfgang! O que esses diabos pagãos estão gritando?

— “Morte aos demônios bárbaros.”

— Mas que ousadia! — disse Roach. Era um homem pequeno, parecendo um pardal, com um mosquete mais alto do que o dono.

Mauss tornou a olhar para a multidão, com o coração batendo penosamente, os flancos úmidos de suor. Será esta a Vossa hora, ó Senhor? A hora do Vosso incomparável martírio?

— Vou falar a eles, pregar para eles — disse, com voz rouca, desejando a paz de tal sacrifício, mas aterrorizado diante dele.

— Uma idéia respeitável, Sr. Mauss — disse Rumajee, agressivo, com os olhos negros movendo-se nervosamente de Mauss para a turba, e outra vez para ele. — Certamente, escutarão alguém com o seu poder de persuasão, senhor.

Struan viu o suor que escorria de Mauss, e sua estranha palidez, e o interceptou perto da porta.— Você não vai fazer uma coisa dessas.

— Chegou a hora, Tai-Pan.

— Você não vai comprar a salvação de maneira assim tão fácil.

— Quem é você para julgar? — Mauss começou a fazer força para passar, mas Struan ficou em sua frente.

— Eu queria dizer que a salvação é um longo e doloroso processo — declarou ele, gentilmente. Duas vezes, antes, vira a mesma esquisitice em Mauss. Tinham sido antes de um combate com piratas e, mais tarde, durante a batalha, Mauss deixara cair suas armas e fora em direção ao inimigo, num êxtase religioso, procurando a morte. — É um longo processo.

— A... a paz do Senhor é... difícil de encontrar — murmurou Mauss, com a garganta apertada sufocando-o, satisfeito por ser detido e odiando-se por estar satisfeito.

— Eu só queria...

— Muito bem. Eu sei tudo a respeito de salvação — Masterson se intrometeu. Ele juntou as mãos e sua atitude era piedosa. — Deus nos salve dos malditos pagãos! Concordo inteiramente, Tai-Pan. Maldito seja esse barulho, não?

Mauss se recompôs com um esforço, sentindo-se nu diante de Struan que, mais uma vez, enxergara as profundezas de sua alma.

— Você... você está certo. Sim. Certo.

— Afinal, se nós o perdermos, quem vai restar para pregar a Palavra? — disse Struan, e decidiu ficar vigiando Mauss, no caso de haver verdadeiro problema. — Completamente certo — disse Masterson, assoando o nariz com os dedos. — De que vale atirar um vaidoso cristão aos lobos? Aquele maldito bando de velhacos entrou em frenesi, e não está em estado de espírito para ouvir pregações. Que o Senhor nos proteja! Diabo, Tai-Pan, eu lhe disse que haveria um ataque.

— Disse coisa nenhuma! — gritou Roach, do outro lado da sala.

— Quem, com mil demônios, pediu sua opinião, por Deus? Estou tendo uma conversa tranqüila com o Tai-Pan e o Reverendo Mauss — gritou Masterson em resposta. E depois, para Mauss: — Por que você não reza uma prece para nós, hein? Afinal de contas, somos todos cristãos, por Deus! — Ele aproximou-se apressadamente da janela.

— Será que não se pode ver o que está acontecendo, hein?

Mauss enxugou o suor da testa. Ah, bom Deus e doce Jesus, Vosso único filho, dai-me Vossa Paz. Enviai-me discípulos e missionários, para que eu possa depositar Vossa carga. E eu Vos abençôo por me enviar o Tai-Pan, que é minha consciência e que me vê como eu sou.— Obrigado, Tai-Pan.

A porta foi aberta violentamente e mais comerciantes afluíram para dentro da sala. Todos estavam armados.

— Que diabo está acontecendo? O que houve de errado?

— Ninguém sabe — disse Roach. — Estava tudo calmo; de repente, eles começaram a chegar.

— Aposto que não veremos jamais o pobre velho Elikson. O coitado, provavelmente, teve já a garganta cortada — disse Masterson, escorvando malevolamente seu mosquete. — Vamos morrer em nossas camas, esta noite.

— Ah, cale a boca, pelo amor de Deus — disse Roach.

— Você é um prenunciador de doçura e conforto, não? — Vivien, um negociante com aparência de boi, franziu a testa para Masterson. — Por que não mija em seu chapéu? Ou vai tomar na bunda?

Os outros negociantes vociferaram, e então Gorth abriu caminho aos empurrões em direção à porta.

— Vou pegar meus guarda-costas e mandar todo mundo pelos ares!

— Não! — a voz de Struan era uma chicotada. Fez-se silêncio. — Eles ainda não nos estão causando nenhum dano. O que há, Gorth? Está com medo porque um grupinho de homens amaldiçoa você?

Gorth ficou vermelho e partiu para Struan, mas Brock se meteu no meio.

— Desça — ordenou. — Monte guarda no jardim e o primeiro chinês que entrar, você lhe explode a maldita cabeça! Com esforço, Gorth controlou sua raiva e saiu. Todos começaram a falar outra vez.