— Não foi correto falar assim com o rapaz, Dirk. — Brock serviu-se de um canecão de cerveja e bebeu-o, sedentamente. — Ele poderia estar agora entregando sua cabeça a você.
— Poderia. E também poderia ter-lhe ensinado um pouco de boas maneiras.
— Desculpe-me, Sr. Struan — Rumajee interrompeu, com o nervosismo a superar sua polidez. — Há guardas na entrada traseira?
— Sim. Três dos meus homens. Eles podem resistir a um exército formado por essa ralé. Irrompeu uma discussão entre os comerciantes e depois Roach disse:
— Estou com Gorth. Digo que devíamos lutar para sair daqui, imediatamente.
— Nós faremos isso. Se for necessário — disse Struan.
— Sim — disse Brock. — Fazer isso agora é comprar barulho. Vamos esperar e nos manter em guarda, até o dia amanhecer. Talvez então já tenham ido embora.
— E se não forem? Hein? É isso que eu gostaria de saber.
— Então vamos derramar um bocado de sangue. Meto três dos meus homens em nossa lorcha e a coloco no meio da corrente. Tem um canhão pesado a bordo. Struan riu.
— Acho que o Sr. Brock merece um voto de confiança.
— Por Deus, Sr. Brock, o senhor é muito dinâmico — disse Masterson. Três vivas para o Sr. Brock! Foram dados vivas e Brock sorriu.
— Obrigado, muito obrigado, rapazes. Agora, é melhor dormir um pouco. Estamos com segurança suficiente.
— Gott im Himmel! Vejam! — Mauss apontava pela janela, com os olhos esbugalhados.
Uma procissão com lanternas, gongos e tambores saía maciçamente da Rua Hog e entrava na praça. Bandeireiros carregando manguais a precediam, abrindo caminho através da turba. À frente da procissão, ia um homem rotundo. Suas roupas eram ricas, mas ele estava descalço e sem chapéu, e caminhava com dificuldade ao peso de correntes.
— Deus do céu! — disse Struan. — É Ti-sen!
A procissão deu uma volta no centro da praça e parou. Todos os mercadores da Co-hong, com exceção de Jin-qua, a integravam. Não tinham nos chapéus os botões cerimoniais indicadores de sua posição, e tremiam. A multidão começou a zombar e assobiar. Depois, o bandeireiro-chefe, um guerreiro alto, com barba negra, fez soar um enorme gongo e a turba mais uma vez silenciou.
Uma liteira aberta, tendo à frente e atrás bandeireiros montados, foi carregada para a praça. Sentado na cadeira, com um traje cerimonial cinzento e vermelho completo, estava Hi’pia-kho, o Hoppo imperial. Ele era um atarracado e obeso mandarim manchu, quase sem pescoço, e tinha na mão o leque imperial que simbolizava seu posto. O leque era de marfim, com incrustações de jade.
A cadeira do Hoppo foi depositada no centro da praça e o bandeireiro-chefe gritou uma ordem. Todos na praça se prosternaram três vezes, tocando a cabeça no chão, e depois tornaram a se levantar.
O Hoppo desenrolou um papel e, sob a luz de uma lanterna segura por um guarda, começou a ler em voz muito alta.
— O que ele está dizendo? — perguntou Brock a Mauss.— Vejam, é o velho How-qua — disse Masterson, com uma risadinha. — Ele não pára de tremer...
— Por favor. Quietos. Não posso ouvir — disse Mauss. Ele se espichou para fora da janela. Todos ficaram à escuta.
— É uma proclamação do imperador — disse Mauss, depressa. — “E o traidor Ti-sen, nosso ex-primo, deve ser imediatamente acorrentado e enviado para nossa capital sob sentença de morte e...” Não consigo escutar. Esperem um momento... “e o desprezível tratado chamado Convenção de Chuenpi, que ele assinou sem nossa autoridade, está revogado. Os bárbaros têm ordem para sair do nosso reinado e de Cantão e de Hong Kong, sob pena de morte imediata e sob tortura e...”
— Eu não acredito nisso — zombou Roach.
— Cala a boca! Como pode Wolfgang escutar?
Mauss ouviu atentamente a voz alta e fantasmagórica que cortava o silêncio sombrio.
— Temos ordem de ir embora — disse ele. — E deveremos pagar uma indenização por todos os problemas que causamos. Não será permitido nenhum comércio, a não ser regido pelos Oito Regulamentos. A Rainha Vitória tem ordem de se apresentar pessoalmente em Cantão, em sinal de luto... algo a respeito... parece que nossas cabeças estão a prêmio e... “como símbolo do nosso desprazer, o criminoso Ti-sen será açoitado publicamente, e todas as suas propriedades serão confiscadas. Temam e obedeçam tremendo.”
O chefe dos bandeireiros aproximou-se de Ti-sen e apontou para o chão, com seu chicote. Ti-sen, branco como cera, ajoelhou-se, e o bandeireiro-chefe ergueu seu açoite e
o fez estalar sobre as costas de Ti-sen. Repetidas vezes. Não havia som algum na praça, a não ser o estalar do chicote. Ti-sen caiu para a frente, com o rosto no chão, e os bandeireiros continuaram a açoitá-lo.
— Eu não acredito nisso — disse Masterson.
— É impossível — disse Mauss.
— Se fizeram isso com Ti-sen... meu Deus, eles vão nos matar a todos.
— Tolice! Podemos tomar a China inteira... em qualquer ocasião.
Brock começou a gargalhar.
— O que é tão engraçado, hein? — Mauss perguntou, com impaciência.
— Isto significa guerra outra vez — disse Brock. — ótimo, digo eu. — Olhou para Struan, zombando dele. — Eu lhe disse, rapaz. É isso que você consegue, fazendo um tratado mole com a ralé.
— É algum truque — disse Struan, calmamente. Mas, por dentro, estava pasmado com os acontecimentos. — Ti-sen é o homem mais rico da China. O imperador conseguiu um saco de pancadas, um bode expiatório. E toda a riqueza de Ti-sen. É uma questão de prestígio. O imperador está defendendo seu prestígio.
— Você e o seu prestígio, rapaz — disse Brock, que não se divertia mais. — É seu prestígio que anda ruim. O tratado foi cancelado, o comércio cancelado, Hong Kong cancelada, você está liquidado e tudo que fez é falar sobre prestígio.
— Você está completamente enganado, Tyler. Hong Kong mal começou — disse Struan. — Uma porção de coisas apenas começou.
— Sim, a guerra, por Deus.
— E, se houver guerra, onde estará a base para a armada, hein? Macau é inútil, como sempre foi... faz parte do território continental, e os chineses podem atacar aquilo quando quiserem. Mas não nossa ilha, por Deus. Não com a armada protegendo-a. Concordo que, sem Hong Kong, estaríamos liquidados. Que, sem ela, não poderíamos lançar uma campanha para o norte outra vez. Nunca. Nem proteger quaisquer portos continentais, ou colônias que conseguirmos no futuro. Está ouvindo, Tyler? Hong Kong é a chave para a China. Hong Kong pegou você pelo pé.
— Sei tudo a respeito de fortaleza em ilha, por Deus. — Brock esbravejou, por sobre o coro de aprovação. — Hong Kong não é o único lugar, estou dizendo. Chushan seria melhor.
— Não se pode proteger Chushan como Hong Kong — disse Struan, exultante, sabendo que Brock estava comprometido, como todos eles estavam comprometidos. — Este “rochedo árido e estéril” , como você a chama, é todo nosso maldito futuro.
— Talvez sim, talvez não — disse Brock, com impertinência. — Vamos ver isso. Mas você não vai apreciar Hong Kong, de qualquer jeito. Eu vou ficar com aquele outeiro, e você está liquidado.
— Não tenha tanta certeza assim.
Struan espiou a praça, outra vez. O açoite ainda se elevava e caía. Ele teve pena de Ti-sen, que fora apanhado numa armadilha, não por escolha própria. Ele não procurara o posto de Plenipotenciário Chinês — recebera ordens para ocupá-lo. Tinha caído na armadilha da era em que vivia. Exatamente como Struan, Longstaff e Brock, e o Hoppo, todos eles estavam agora na armadilha, pois o primeiro passo fora dado. O resultado seria tão inexorável como o açoite. Haveria um ataque a Cantão, exatamente como antes. Primeiro, seriam tomados os fortes nas imediações de Cantão e, depois, a cidade seria apenas ameaçada. Não haveria necessidade de capturá-la, porque Cantão pagaria resgate primeiro. Depois, quando houvesse bons ventos, no verão, seguiriam mais uma vez em direção ao norte, à embocadura e aos pontos de desembarque do Rio Pei Ho e, novamente, o imperador, preso na armadilha, como todos os demais, imediatamente pediria paz. O tratado continuaria em vigor, porque era justo. Então, no curso dos anos, os chineses aos poucos iriam abrindo seus portos, por vontade própria — vendo que os ingleses tinham muito a oferecer: lei, justiça, a inviolabilidade da propriedade, liberdade.