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Porque o chinês comum quer o que nós queremos, pensou ele, e não há nenhuma diferença entre nós. Podemos trabalhar juntos, para o benefício de todos. Talvez nós vamos ajudar os chineses a derrubar os bárbaros manchus. É o que acontecerá, enquanto existir um tratado razoável, e nós somos pacientes, e jogamos o jogo chinês com regras chinesas, no tempo chinês. O tempo não é medido em dias ou anos, mas em gerações. Basta que nos deixem negociar, durante o período de espera. Sem comércio, o mundo se tornará como antes — um inferno, onde só o braço mais forte e o chicote mais pesado eram a lei. Os mansos jamais herdarão a terra. Sim, mas pelo menos podem ser protegidos pela lei, para viverem suas vidas como desejarem.

Quando Ti-sen já levara cem chicotadas, os bandeireiros o levantaram. O sangue escorria de seu rosto e de seu pescoço, e a parte de trás de seu traje estava em farrapos e ensangüentada. A multidão zombava e vaiava. Um bandeireiro fez soar o gongo, mas a turba não prestou a menor atenção, e o bandeireiro investiu contra ela, dando chicotadas e machadadas. Houve gritos, e a multidão recuou e fez silêncio outra vez.

O Hoppo acenou imperiosamente com a mão em direção ao jardim. A liteira foi erguida, e os bandeireiros seguiram em frente dela, agitando seus chicotes, a fim de abrir caminho até o local onde se encontravam os negociantes.

— Vamos — disse Struan a Mauss e a Brock. — O resto de vocês se prepare para o caso de haver um ataque. — Ele correu para o jardim, com Brock e Mauss logo atrás.

— Está com dor de cabeça? — perguntou Brock.

— Não.

Eles espiaram, cheios de tensão, a multidão se dividir e os bandeireiros aparecerem no portão do jardim. O Hoppo ficou em sua cadeira, mas se dirigiu a eles gritando imperiosamente.— Ele lhe ordena para pegar uma cópia da proclamação, Sr. Struan — disse Mauss.

— Diga-lhe que não estamos vestidos em roupas cerimoniais. Uma questão tão importante precisa de grande cerimônia, para lhe dar a dignidade que ela merece. O Hoppo pareceu confuso. Depois de um momento, falou outra vez.

— Ele diz: “Bárbaros não têm nenhuma cerimônia e são mais do que desprezíveis. Entretanto, o Filho do Céu pediu clemência para todos os que o temem. Uma delegação virá ao meu palácio pela manhã, na Hora da Serpente.”

— Que diabo é isso? — perguntou Brock.

— Sete da manhã — disse Mauss.

— Não vamos colocar nossas cabeças nessa maldita armadilha. Diga a ele para ir à merda.

— Diga-lhe — falou Struan — que, de acordo com os Oito Regulamentos, não temos permissão para nos encontrarmos pessoalmente com o louvado Hoppo, mas devemos receber documentos através da Co-hong, aqui na Colônia. A Hora da Serpente não nos dá tempo suficiente. — Ele ergueu os olhos. O amanhecer clareava o céu — Que hora chinesa corresponde às onze da noite?

— A Hora do Rato — disse Mauss.

— Então diga-lhe que receberemos o documento da Co-hong aqui, com a “devida cerimônia”, na Hora do Rato. Amanhã à noite.

— “Devida cerimônia”, seja inteligente, Dirk — disse Brock. — Haverá tempo bastante para preparar um acolhimento sangrento! Mauss escutou o que dizia o Hoppo.

— Ele diz que a Co-hong vai entregar a proclamação na Hora da Serpente... às nove da manhã, de hoje. E todos os bárbaros ingleses terão de sair da Colônia na Hora do Carneiro ... ou seja, uma da tarde... hoje.

— Diga-lhe que uma da tarde de hoje não nos dá tempo suficiente. Na Hora do Carneiro, amanhã.

— Ele diz que deveremos evacuar a Colônia às três da tarde de hoje, a Hora do Macaco, e nossas vidas serão poupadas até essa hora, até à qual poderemos partir sem nenhum perigo.

— Diga-lhe: na Hora do Macaco, amanhã.

O Hoppo respondeu a Mauss, e gritou uma ordem. Sua cadeira foi erguida e o cortejo começou a se formar outra vez.

— Ele disse que devemos partir hoje. Na Hora do Macaco. Às três da tarde de hoje.

— Maldito seja! — disse Struan, enraivecido.

O cortejo dirigia-se para a Rua Hog. Um dos bandeireiros empurrou Ti-sen para trás da liteira e chicoteou-o, quando tropeçou nela; outros começaram a se aproximar da multidão, que correu para fora da praça. Os bandeireiros restantes dividiram-se em dois grupos. Um deles aproximou-se da feitoria, isolando-a da Rua Hog; o outro postou-se a oeste. A feitoria estava cercada.

— Por que você insistiu num retardamento? — perguntou Brock.

— Apenas uma negociação normal.

— Você devia saber que valia mais a pena esperar, do ponto de vista do Hoppo, depois do que aconteceu com Ti-sen! Por que achou tão importante ficar mais uma noite, hein? A maioria de nós ia embora hoje, de qualquer jeito. Para a venda de terras.

Deus do céu! Struan pensou, sabendo que Brock tinha razão. Como posso eu esperar pelo dinheiro?

— Hein? — Brock repetiu.

— Não havia razão.

— Há uma razão — disse Brock e entrou na feitoria.

***

Pontualmente, na Hora da Serpente, a totalidade dos mercadores da Co-hong entrou na praça, com uma escolta de cinqüenta bandeireiros que faziam soar gongos e tambores. A guarda de bandeireiros deixou-os passarem e depois fechou outra vez as fileiras. Novamente Jin-qua estava ausente. Mas seu filho How-qua, o principal mercador da Co-hong, encontrava-se ali. How-qua, um homem de meia-idade, rechonchudo, sorria sempre. Mas, naquele dia, estava sombrio e suado, tão aterrorizado que quase deixou cair a bem enrolada proclamação imperial, atada com uma fita escarlate. Seus companheiros negociantes estavam igualmente tomados de pânico.

Struan e Brock esperavam para recebê-los no jardim, vestidos com seus melhores casacos navais, gravatas brancas e cartolas. Struan acabara de barbear-se e Brock mandara pentear a barba. Ambos usavam aparatosas flores na lapela. Sabiam que aquela cerimônia os fazia ganhar muito prestígio e que o Hoppo perdia.

— Tem razão — dissera Brock, com uma risada rouca. — Struan e eu vamos pegar a maldita proclamação. Se não tivéssemos agido de maneira correta, então talvez nos queimassem como ratos numa ratoeira e não nos dessem esse prazo. Agora, vamos fazer exatamente como disse Struan.

O grupo parou no portão. Mauss abriu-o e Struan e Brock foram até o umbral. Os bandeireiros franziram a testa para eles. Struan e Brock estavam tristemente conscientes de que suas cabeças ainda se encontravam a prêmio, mas não demonstraram nenhum medo, pois tinham a proteção de armas escondidas nas janelas, atrás deles, e do canhão na lorcha de Brock, ancorada no meio do mar.

O bandeireiro-chefe falou acaloradamente, agitando seu chicote.

— Ele diz para sair e pegar a proclamação — interpretou Mauss. Struan simplesmente ergueu o chapéu e estendeu a mão, ficando com os pés firmemente plantados. — O Hoppo disse que a proclamação era para ser entregue. Entreguem-na. — Manteve a mão estendida.

Mauss traduziu o que ele dissera, e então, depois de um momento de nervosismo, os bandeireiros cobriram How-qua de imprecações, e How-qua correu para a frente e deu a Struan o papel enrolado.

Struan, Brock e Mauss imediatamente tiraram suas cartolas e gritaram o mais alto que podiam: “Deus salve a Rainha.” A este sinal, Gorth aproximou uma lamparina de alguns fogos de artifício e atirou-os no jardim. Os mercadores da Co-hong deram um salto para trás e os bandeireiros puxaram seus arcos e espadas, mas Struan e Brock, com os rostos solenes, ficaram perfeitamente quietos, segurando seus chapéus no ar.