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Os fogos de artifício, ao explodirem, encheram o jardim de fumaça. Quando as explosões pararam, para horror da Co-hong, Mauss, Struan e Brock gritaram: “Malditos sejam todos os manchus!” e, de dentro da feitoria, foram proferidos três ressoantes vivas.

O bandeireiro-chefe caminhou para a frente, beligerantemente, e falou com Mauss.

— Ele pergunta para que tudo isso, Tai-Pan.

— Diga-lhe, exatamente como eu lhe disse. — Struan captou o olhar de How-qua e piscou-lhe às escondidas, sabendo do seu horror aos manchus.

Mauss disse em mandarim alto e sonoro:

— Este é nosso costume, numa ocasião muito importante. Nem todo dia temos o privilégio de receber um documento tão estimável.

Os bandeireiros o amaldiçoaram por um momento e, depois, ordenaram que o pessoal da Co-hong se afastasse. A Co-hong foi embora, mas agora, eles estavam mais ousados.

Brock começou a rir. E a risada espalhou-se por toda feitoria e ecoou na extremidade mais afastada da praça, onde estava situada a feitoria americana. Um pavilhão do Reino Unido apareceu numa de suas janelas e se agitou com bravura.

— É melhor nos prepararmos para ir embora — disse Brock. — Isso foi muito bom. Struan não respondeu. Atirou a proclamação a Mauss.

— Entregue-me uma tradução exata, Wolfgang — disse, e voltou para sua suíte.

Ah Gip fez uma curvatura diante dele e retornou para suas panelas. May-may estava vestida, mas permanecia deitada na cama.

— O que há, May-may?

Ela o olhou fixamente e virou-lhe as costas, erguendo o vestido e revelando as nádegas cheias de machucaduras.

— O que há! — disse, com raiva fingida. — Veja o que você fez, seu bruto bárbaro fan-quai. Preciso ficar em pé, ou então deitada de bruços.

— Deve ficar deitada — disse ele, e afundou soturnamente numa cadeira. May-may deixou cair o vestido e, cuidadosamente, saiu da cama.

— Por que você não ri? Pensei que isso faria você rir.

— Desculpe, garota. Eu deveria ter rido. Mas tenho uma porção de coisas em que pensar.

— O quê?Ele fez um sinal para Ah Gip.

— Você deve sair, entende? — e aferrolhou a porta. May-may ajoelhou-se ao lado da panela e mexeu o conteúdo com um pauzinho.

— Precisamos partir às três horas — disse Struan. — Mas, vamos dizer que você quisesse ficar na Colônia até amanhã, o que faria?

— Eu me esconderia — disse ela, imediatamente. — Num... como é que se diz... num pequeno quarto lá em cima, perto do telhado.

— Sótão?

— Sim. Sótão. Por que você quer ficar?

— Acha que revistarão a feitoria, quando tivermos partido?

— Por que ficar? Não é nada bom ficar.

— Acha que os bandeireiros vão contar nosso grupo quando formos embora?

— Aquela maldita ralé não sabe contar. — Ela pigarreou ruidosamente e escarrou no fogo.

— Quer fazer o favor de não cuspir?

— Eu já lhe disse muitas vezes, Tai-Pan, é importante, um costume chinês sábio — ela respondeu. — Há sempre veneno na garganta. E a pessoa fica muito doente, se não o expectorar. É aconselhável expectorar esse veneno. Quanto mais alto o pigarro, mais o deus do veneno do cuspe fica assustado.

— Isso é tolice, e é um hábito desagradável.

Ayeee yah — disse ela, com impaciência. — Você não entende inglês? Algumas vezes eu fico imaginando por que me dou ao trabalho de explicar toda a sabedoria tão civilizada da China a você. Por que deveríamos nos esconder aqui? É perigoso não ir com os outros. Será muito perigoso, se os bandeireiros me virem. Vamos precisar nos proteger. Por que nos esconder?

Ele lhe contou a respeito da lorcha. E a respeito das barras de prata.

— Você precisa confiar muito em mim — disse ela, com muita seriedade.

— Sim.

— O que você deve dar a Jin-qua, em troca?

— Concessões de negócios.

— Claro. Mas, o que mais?

— Apenas concessões de negócios. Houve um silêncio.

— Jin-qua é um homem inteligente. Ele não ia querer só concessões de negócios — ela observou. — Que concessões eu pediria, se fosse Jin-qua! E você deveria concordar com tudo. Tudo.

— O que você iria querer?

Ela ficou olhando para as chamas, a imaginar o que diria Struan, se soubesse que ela era a neta de Jin-qua — a segunda filha da quinta esposa de seu filho mais velho How-qua. E ficou imaginando por que fora proibida de dizer isto a Struan — sob pena de retirada de seu nome para sempre dos pergaminhos ancestrais. Estranho, disse a si mesma, e estremeceu ao pensamento de ser expulsa da família, pois isto significava que não apenas ela, mas sua descendência e a descendência deles para sempre estariam desligadas da corrente central, e assim privadas da ajuda mútua protetora que era o único amparo na sociedade chinesa. Um amparo perpétuo. A única coisa de valor verdadeiro que cinco mil anos de civilização e experimentação tinham ensinado ser segura e valiosa. A família.

E ela ficou imaginando por que, na verdade, fora dada a Struan.

— Segunda filha da quinta mãe — seu pai lhe dissera em seu décimo quinto aniversário. — Meu ilustre pai concebeu para você uma grande honra. Você será dada ao Tai-Pan dos bárbaros. Ficara aterrorizada. Jamais vira um bárbaro e acreditava que eles eram sujos e repugnantes canibais. Chorara e implorara perdão, mas depois, em segredo, mostraram-lhe Struan, quando ele estava com Jin-qua. O gigante Struan a assustara, mas ela vira que não era um macaco. Mesmo assim, ainda suplicara para se casar com um chinês.

Mas seu pai mostrara-se inflexível e lhe dera uma escolha:

— Obedeça, ou deixe esta casa e se considere expulsa para sempre.

Então ela fora para Macau e para a casa de Struan, com instruções de agradá-lo. De aprender o idioma dos bárbaros. E de ensinar a Struan coisas chinesas, sem ele saber que estava sendo ensinado.

Uma vez por ano, Jin-qua e seu pai enviavam alguém até ela, a fim de saber seus progressos e levar notícias da família.

Muito estranho, pensou May-may. Certamente, eu não fui enviada como espiã, mas para ser a concubina de Struan. E, certamente, nem meu pai e nem meu avô fariam uma coisa dessa sem seriedade — com alguém do seu próprio sangue. Eu não era a neta favorita de Jin-qua?

— Tanto dinheiro — disse ela, evitando responder à pergunta dele. — Tanto assim, representa uma tentação imensa. Imensa. Todo num lugar só... com um simples roubo, vinte ou quarenta gerações estariam com a vida ganha. — Como fui tola de ter medo do Tai-Pan. Ele é um homem como qualquer outro, e meu senhor. Muito homem. E logo eu serei Tai-tai. Afinal. E terei prestígio, afinal.

Ela fez uma grande curvatura.

— Estou honrada porque você confia em mim. Eu abençoarei seu pagode, Tai-Pan, para sempre. Você me concedeu uma grande honra e me dá tanto prestígio. Porque qualquer pessoa iria considerar como roubar esse dinheiro. Qualquer pessoa.

— Como você faria isso?

— Mandaria Ah Gip ao Hoppo — disse ela, imediatamente, e voltou a mexer a panela. — Em troca de cinqüenta por cento garantidos, ele desconsideraria até o imperador. Permitiria que você ficasse, secretamente, se você quisesse, até a lorcha chegar. Quando tivesse certeza de que era a lorcha certa, deixaria você ir a bordo, em segredo, e interceptaria a embarcação no rio. E cortaria sua garganta. Mas então ele me enganaria, tirando-me minha parte, e eu ia ter de ser mulher dele. Porco sujo! Nem por todo chá da China, com aquele porco fornicador, não. Ele tem truques sujos. Sabe que é quase impotente?

— O quê? — disse Struan, sem realmente escutá-la.

— Todo mundo sabe — disse ela. Provou o cozido afetadamente e adicionou um pouco de molho de soja. — Ele precisa ter duas moças ao mesmo tempo. Uma tem de brincar com ele, enquanto a outra trabalha. Além disso, tem o órgão tão pequeno que coloca coisas em si mesmo, coisas enormes. E gosta de fazer sexo com patos.