— Bons salários farão com que mudem de idéia. Quero quinhentos homens. Os melhores. Paguem salários dobrados, se necessário.
— Sim, senhor.
— Se não tivermos dinheiro para pagar a eles — acrescentou Struan com um sorriso triste — Brock pagará você bem. Não há necessidade de se preocupar.
— Não estou preocupado com meu próprio trabalho — disse Vargas, com grande dignidade — mas estou preocupado com a segurança da casa. Não queria que a Casa Nobre deixasse de existir.
— Sim, eu sei. Você me serviu bem, Vargas, e eu aprecio isso. Leve todos os funcionários com você, agora. Eu irei com Mauss e meus homens.
— Devo trancar a porta, ou o senhor mesmo tranca?
— Faça isso quando todos os seus funcionários estiverem a bordo.
— Muito bem. Vá com Deus, senhor.
— E você também, Vargas.
Struan atravessou a praça. Em torno, todos se apressavam, fazendo acréscimos de última hora à carga das lorchas atulhadas, ao longo do cais. Mas acima, no cais, ele viu Brock e Gorth exortando com blasfêmias seus marinheiros e funcionários. Alguns dos negociantes já haviam partido, e ele acenou alegremente e para uma lorcha, enquanto seguia pelas águas. Do outro lado do rio, os moradores nos barcos espiavam o êxodo, bradando ofertas de suas sampanas para fazer cargas até o meio da água, pois a direção do vento tornava difícil a partida do cais.
A lorcha de Struan tinha dois mastros, quarenta pés de comprimento e era cômoda. Mauss já se encontrava à popa.
— Tudo ajeitado, Tai-Pan. Há um boato de que o Hoppo invadiu a casa de Ti-sen. Quarenta laques de barras de prata estavam lá.
— E daí?
— Nada, Tai-Pan. Um boato, hein? — Mauss parecia cansado. — Todos os meus convertidos desapareceram.
— Eles voltarão, não se preocupe. E haverá uma porção de gente para converter em Hong Kong — disse Struan, sentindo pena dele.
— Hong Kong é nossa única esperança, não?
— Sim. — Struan seguia ao longo do cais. Viu um cule alto sair da feitoria americana e unir-se à massa na praça. Mudou de direção. — Ei, o que você quer, ianque? — gritou para o cule.
— Vá para o inferno, Tai-Pan. — Cooper disse, sob o chapéu de cule. — Meu disfarce está tão ruim assim?
— É sua altura, rapaz.
— Só queria desejar a você feliz viagem. Não sei quando o verei outra vez. Você tem trinta dias, naturalmente.
— Não acha que são preciosos?
— Vou descobrir isso dentro de trinta dias, não é?
— Enquanto isso, compre oito milhões de libras de chá para nós.
— Com o que, Tai-Pan?
— Você paga o chá com o que, habitualmente?
— Somos seus agentes, certamente. Durante os próximos trinta dias. Mas não posso comprar para você sem barras de prata.
— Você vendeu todo seu algodão?
— Ainda não.
— É melhor vender depressa, rapaz.
— Por quê?
— Talvez as sobras não encontrem mercado.
— Se for assim, lá sé vai o Independence.
— Seria uma pena, não?
— Espero que você acerte com Brock, de alguma maneira. E construa seu Independent Cloud. Quero ter a satisfação de derrotá-lo eu mesmo.
— Fique na fila, rapaz — disse Struan, de bom humor. — Prepare-se para comprar muito, e depressa. Vou mandar notícias para você.
— Não seria a mesma coisa sem você, Tai-Pan. Se você for embora, todos perderemos um pouco.
— Talvez eu não vá, afinal de contas.
— Tem uma metade minha que quer ver você fora. Você, mais do que qualquer outro, teve uma fatia grande demais no mercado, por demasiado tempo. É hora de liberdade nos mares.
— Liberdade para navios americanos?
— E outros. Mas não em termos britânicos.
— Sempre dominaremos os mares, rapaz. Nós precisamos. Vocês têm um país agrícola. Nós somos industriais. Precisamos dos mares.
— Um dia, tomaremos os mares.
— Nessa ocasião, talvez não precisemos mais dos mares, porque dominaremos os ares. Cooper deu uma risadinha.
— Não se esqueça de nossa aposta.
— Estou lembrado. Recebi uma carta de Aristotle, há alguns dias. Ele me pedia um empréstimo para sustentá-lo porque “aquela adorável tarefa precisa esperar até o verão, devido ao fato de estar ela sofrendo de arrepios na pele”. Temos tempo suficiente para descobrir quem é... vamos procurá-la até na cama.
— Não pode ser Shevaun. Aquela tem gelo nas veias, em vez de sangue.
— Ela lhe disse não, outra vez?
— Sim. Diga alguma coisa a meu favor, sim?
— Eu não vou me meter numa negociação dessas.
Por sobre o ombro de Struan, Cooper viu Brock e Gorth se aproximando.
— Se os Brocks jamais chegarem a Hong Kong, você terá o tempo de que precisa, não é?
— Será que você está sugerindo um homicidiozinho?
— Não seria um homicidiozinho, mas um grande crime, Tai-Pan. Boa-tarde, Sr. Brock.
— Achei que era o senhor, Sr. Cooper — disso Brock maliciosamente. — Que gentileza vir ao nosso bota-fora. — Depois, para Struan — vai partir agora?
— Sim. Mostrarei a Gorth a popa do meu navio por todo o caminho até Whampoa. E depois, no China Cloud, por todo o caminho até Hong Kong. Como de costume.
— A única popa que você vai nos mostrar é a sua, dentro de quatro dias, quando será atirado na prisão por dívidas, que é o seu lugar. — disse Gorth, grosseiramente.
— O caminho todo, até Hong Kong, Gorth. Mas não adianta apostar corrida com você. Como marinheiro, você não tem condições para conduzir um barco.
— Sou melhor do que você, ora essa.
— Se não fosse seu pai, você seria alvo de riso da Ásia inteira.
— Por Deus, seu filho da...
— Cala essa boca! — gritou Brock. Ele sabia que Struan ficaria encantado de ser chamado de filho da puta publicamente por Gorth, porque assim poderia desafiá-lo para um duelo. — Por que provocar o rapaz, hein?
— Não o estou provocando, Tyler, mas apenas constatando um fato. É melhor você lhe ensinar algumas maneiras, bem como a navegar.
Brock manteve-se contido. Gorth ainda não era páreo para Struan. Ainda. Dentro de um ano ou dois, quando já fosse mais esperto, seria diferente. Mas não agora, por Deus. E não é próprio de um inglês dar um chute na barriga do inimigo, quando ele está deitado de costas, indefeso. Como o maldito Struan.
— Aposta amistosa. Aposto cem guinéus que meu rapaz pode derrotar você. Vamos ver quem é o primeiro a tocar o mastro da bandeira em Hong Kong.
— Vinte mil guinéus. O dinheiro dele, não o seu — disse Struan, zombando de Gorth com o olhar.
— Como você vai pagar, Tai-Pan? — perguntou Gorth, com desprezo, e Brock ferveu, diante da estupidez do filho.
— Ele está só brincando, Dirk — declarou Brock, depressa. — Vinte mil, tudo bem.
— Sim, uma brincadeira. Se você diz que é, Tyler. Struan estava frio por fora, mas interiormente exultante. Eles haviam engolido a isca! Agora Gorth e Brock iriam seguir às pressas para Hong Kong — vinte mil guinéus eram uma fortuna considerável, mas nada representavam, em comparação com quarenta laques salvos no China Cloud. Brock estava seguramente fora do caminho. Um jogo perigoso, entretanto. Gorth quase fora longe demais, e então sangue teria sido derramado. Era demasiado fácil matar Gorth.
Ele estendeu a mão a Cooper.
— Quero que mantenha o compromisso de trinta dias. — Eles se apertaram as mãos. Depois, Struan olhou para Gorth. — O mastro da bandeira em Hong Kong! Boa viagem, Tyler! — e correu para sua lorcha, que já desatracara e estava embicando para o meio da corrente.
Ele saltou por sobre a amurada, virou-se e acenou, zombeteiramente. Depois, desapareceu embaixo do convés.