— Com licença Sr. Cooper — disse Brock, puxando Gorth pelo braço. — Nós nos veremos!
Ele puxou Gorth em direção à sua lorcha. No convés da popa, empurrou-o violentamente contra a amurada.
— Seu debilóide, seu cretino! Quer que sua garganta seja cortada, de uma orelha a outra? Chame um homem de filho da puta aqui, e terá de lutar. Chame desse nome e ele terá o direito de matar você! — Deu uma bofetada em Gorth, com as costas da mão, e o sangue escorreu da boca do rapaz. — Eu já lhe disse cinqüenta vezes para ter cuidado com aquele demônio. Se eu preciso ter cuidado com ele, por Deus, quanto mais você!
— Eu posso matá-lo, papai, sei que posso!
— Eu já lhe disse, cinqüenta vezes, trate-o bem! Ele está esperando para liquidar você, seu idiota. E ele pode. Não se luta mais de uma vez com aquele demônio. Entendeu?
— Sim. — Gorth sentiu o sangue em sua boca, e o gosto fez sua raiva aumentar.
— Da próxima vez, eu deixo ele matar você, seu idiota. E mais uma coisa. Jamais aposte com um homem como ele, que é devedor. Nem lhe dê um chute na virilha, quando ele está derrotado e indefeso. Não se age dessa maneira!
— Malditas sejam as maneiras de agir!
Brock esbofeteou-o outra vez, com as costas da mão.
— Os Brocks obedecem a um código de honra. Aberto. De homem para homem. Desobedeça a esse código, e ponho você para fora de Brock and Sons! Gorth enxugou o sangue da boca.
— Não me bata de novo, papai!
Brock sentiu o tom de violência na voz do filho e seu rosto endureceu.
— Não faça mais isso, papai. Juro por Deus que bato em você de volta — disse Gorth, apoiado solidamente nas duas pernas, com os punhos como se fossem de granito.
— Você me bateu pela última vez. Se me bater de novo, eu não vou ficar parado. Por Deus, você me bateu pela última vez.
As veias na garganta de Brock se enegreceram e pulsaram, enquanto ele se preparava para brigar com o filho, não mais como filho, porém como inimigo. Não, um inimigo, não. Apenas um filho que não era mais nenhuma criança. Um filho que desafiara seu pai, como todos os filhos desafiam todos os pais. Brock sabia, e Gorth também sabia, que se eles brigassem seria derramado sangue, e alguém seria expulso. Nenhum dos dois queria uma expulsão mas, se acontecesse, tanto o pai como o filho sabiam que se tornariam inimigos do mesmo sangue.
Brock odiou Gorth, por fazê-lo sentir-se velho. E o amou por resistir a ele, quando sabia, sem a menor dúvida, que ele era mais astuto na arte de matar em combate do que Gorth jamais seria.
— É melhor você chegar a Hong Kong. Gorth descerrou os punhos, com esforço.
— Sim — disse, com voz rouca. — Mas é melhor você ajustar contas com aquele filho da mãe bem direitinho, se é que tem a cabeça no lugar... porque senão, da próxima vez, eu vou fazer tudo à minha maneira. — Olhou para o mestre. — Que diabo vocês estão esperando, seus miseráveis? Vamos embora!
Ele enxugou o sangue do queixo e cuspiu por sobre a amurada. Mas seu coração ainda batia muito forte e, ficou com pena de não ter havido uma terceira pancada. Eu estava preparado, por Deus, e poderia ter batido nele — como posso derrotar aquele filho da puta de olhos verdes. Eu sei que posso.
— Que rumo vamos seguir, papai? — perguntou, porque havia vários caminhos diferentes para se chegar lá. As abordagens a Cantão pelo rio eram através de um labirinto de ilhas, grandes e pequenas, e inumeráveis cursos d’água.
— Você se meteu nessa confusão. Escolha seu próprio caminho.
Brock caminhou para a amurada. Sentia-se muito velho e muito cansado. Lembrou-se de seu próprio pai, que era ferreiro, e de como, em menino, ele tivera de receber pancadas e ordens e tomar cuidado com o próprio gênio e fazer o que lhe diziam, até ter quinze anos e o sangue lhe subir à cabeça. Quando recuperou a calma, viu que estava em pé sobre o corpo inerte do pai.
Meu Deus, ele pensou, aquilo não está assim tão distante. Fico satisfeito de não ter precisado lutar com ele para valer. Não quero perder meu filho.
— Não chegue depois de Dirk Struan, Gorth — disse ele, com algo de gentil na voz. Gorth não disse nada. Brock esfregou a órbita vazia e substituiu o pano preto. Observou a lorcha de Struan. Já se encontrava no meio do rio, e Struan não estava à vista. A sampana, num impulso, deu uma volta, e depois partiu, precipitadamente, para o outro lado. Um grupo de homens de Struan estava inclinado por sobre as cordas, e cantava, enquanto as velas eram erguidas. A sampana voltou em direção à lorcha de Vargas.
Não é próprio de Dirk partir tão depressa, Brock refletiu. Não está certo, de maneira alguma. Ele deu uma olhada no cais e viu que Vargas e todos os funcionários de Struan estavam lá, a lorcha ainda amarrada. Ora, nem parece coisa de Dirk. Ir embora antes de seus funcionários. Dirk é estranho com essas coisas. Sim.
***
Struan estava escondido na cabina da sampana. Enquanto o barco circulava em torno da lorcha de Vargas, Struan enterrou bem fundo na cabeça o chapéu cule, e puxou mais apertado em torno de si o casaco chinês acolchoado. O proprietário da sampana e sua família não pareceram notá-lo. Eles tinham sido bem pagos para não ouvir e nem ver.
O plano que ele articulara com Mauss era o mais seguro, nas circunstâncias. Dissera a Mauss para ir apressadamente ao China Cloud, que estava ancorado ao largo da Ilha de Whampoa, a treze milhas de distância; para tomar a passagem mais curta em direção ao norte, ao chegar lá, e depois ordenar ao Capitão Orlov para navegar a velas plenas e seguir a toda para a extremidade da ilha; para mudar de curso ali, e dar uma volta, dirigindo-se pelo canal sul outra vez, em direção a Cantão; ele advertira que era da máxima importância a manobra não ser observada por Brock. Struan, enquanto isso, esperaria pela lorcha com as barras de prata e depois tomaria o caminho longo e se esgueiraria por tortuosos cursos d’água, até o lado sul da ilha, onde se encontrariam. Junto ao Pagode de Mármore. O pagode tinha duzentos pés de altura e era visto com facilidade.
— Mas por que, Tai-Pan? — perguntara Mauss. — É perigoso. Por que todo o risco, hein?
— Faça o que lhe disse, Mauss, apenas isso — declarara ele.
Quando a sampana chegou ao cais, Struan pegou alguns cestos que preparara e correu, através da multidão, até o portão do jardim. Ninguém lhe prestou a menor atenção. Uma vez lá dentro, ele atirou para um lado os cestos, correu para a janela da sala de jantar e espiou cuidadosamente através das cortinas. Sua lorcha estava bem afastada. Brock encontrava-se no meio do canal, ganhando distância, as velas inchando ao sabor da brisa. Gorth estava em pé à popa e Struan ouvia fracamente as obscenidades que ele dizia. Brock estava na amurada, a bombordo, olhando para as águas. Vargas acabara de checar os funcionários e voltava pelo jardim.
Struan saiu rapidamente da sala de jantar e correu para o andar de cima. Do patamar, viu Vargas entrar no saguão, fazer uma verificação final e sair. Struan ouviu a chave virar na porta. Relaxou e subiu por uma estreita escada, até o sótão. Seguiu mais devagar, enquanto passava por velhas caixas de embalagem, e caminhou cautelosamente em direção à frente do edifício.
— Olá, Tai-Pan — disse May-may.
Ela estava vestida com suas imundas calças Hoklo e colete acolchoado, mas não sujara o rosto. Encontrava-se ajoelhada numa almofada, perto de algumas caixas de embalagem. Ah Gip levantou-se e, depois, tornou a se acocorar, perto da pequena trouxa de roupas e utensílios de cozinha. May-may indicou outra almofada, diante dela, e a prancha de gamão montada.
— Vamos jogar, fazer algumas apostas, está bem?
— Espere só um momento, garota.
Havia uma clarabóia no sótão e outra na parede da frente. Struan podia examinar claramente toda a praça, em segurança. As pessoas ainda corriam de um lado para outro, praguejando e fazendo preparativos de última hora.