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— Você me viu?

— Ah, sim, muito bem — disse ela. — Mas estávamos observando de cima. Lá embaixo, talvez ninguém tenha visto. Por que Brock bateu no filho, hein?

— Eu não sabia que ele tinha batido.

— Sim. Duas vezes. Por que aquelas bofetadas! Rimos até sufocar. O filho quase bateu de volta. Espero que lutem... matem um ao outro... e então não vai ser preciso pagar dinheiro nenhum. Eu ainda acho que você é muito louco de não pagar a algum pirata para assassiná-lo. — Ela se sentou na almofada, mas depois tornou a se ajoelhar, com uma praga.

— O que há?

— Minha bunda ainda está duendo.

Doendo — disse ele.

— Foi só brincadeira. Ayeee yah, desta vez vou ganhar longe de você e recuperar todos os meu dólar. — Ela acrescentou, inocentemente. — Quanto devo? Catorze mil?

— Você se lembra muito bem.

Ele se sentou e pegou o copo dos dados.— Quatro jogos. E depois vamos dormir. Temos uma longa noite pela frente. — Ele lançou os dados e ela praguejou.

— Que pagode você tem! Duplo seis, duplo seis, maldito seja o seis duplo! — Ela lançou os dados, igualou-se com ele, jogou o copo para um lado e gritou — Ah, maravilhoso duplo seis!

— Fale baixo, senão não podemos jogar.

— Estamos seguros, Tai-Pan. Meu pagode está bom, hoje!

— Vamos esperar que esteja muito bom — disse ele. — E amanhã também.

Ayeeee yah para o amanhã, Tai-Pan! Hoje. Hoje é que importa. — Ela tornou a lançar os dados. Outro seis duplo. — Dadozinhos queridos, eu adoro vocês. — E então franziu a testa. — O que quer dizer “adoro”?

— Amo.

— E “amo”?

Os olhos de Struan se enrugaram e ele esticou o dedo para ela.

— Não vou entrar nessa discussão outra vez.

Certa feita, ele tinha tentado explicar o que significava amor. Mas não havia nenhuma palavra chinesa para o conceito europeu.

***

O relógio antigo começou a badalar às onze. Struan mudou cansadamente de posição, junto à clarabóia da parede. May-may estava dormindo, encolhida, Ah Gip despencara em cima de uma caixa de embalagem embolorada. Há algumas horas, ele caíra no sono por um momento, mas seus sonhos eram bizarros e misturados com a realidade. Estava a bordo do China Cloud, esmagado ao peso de barras de prata. Jin-qua entrara na sala, tirara as barras de cima dele, e levara tudo, em troca de um caixão de defunto e vinte guinéus de ouro. Depois, não estava mais em seu navio, mas na praia, na Grande Casa sobre o outeiro. Winifred levou-lhe três ovos e ele comia seu desjejum quando May-may disse, atrás dele: “Pelo sangue de Cristo, como pode você comer os filhos ainda não nascidos de uma galinha?” Ele se virou, viu que ela estava sem roupa nenhuma, e lindíssima. Winifred dissera: “Mamãe era assim tão bonita, quando estava sem roupa?” E ele respondeu: “Sim, mas de maneira diferente”, e acordara, de repente.

Sonhar com sua família o entristecera. Tenho de voltar logo para minha terra, pensou. Não sei nem mesmo onde estão enterrados.

Ele se espichou e ficou olhando o movimento no rio, a pensar em Ronalda e May-may. São diferentes, muito diferentes — eram diferentes. Eu amei a ambas, igualmente. Ronalda teria gostado de Londres numa bela mansão, com temporadas em Brighton ou Bath. Teria sido uma perfeita anfitriã em todos os jantares e bailes. Mas agora eu estou sozinho.

Levarei May-may para a Inglaterra comigo? Talvez. Como Tai-tai? Impossível. Porque isto me afastaria daqueles que eu preciso usar.

Parou de meditar e se concentrou na praça. Estava deserta. Pouco antes do entardecer, os bandeireiros partiram. Agora, havia apenas o fosco luar e as sombras borradas, um vazio que Struan achava fantasmagórico e cruel.

Ele queria dormir. Você não pode dormir agora disse a si mesmo. Sim, mas estou cansado.

Ficou em pé, espichou-se e, depois, se colocou mais uma vez na posição de vigia. Os carrilhões bateram o quarto de hora e, depois, a meia hora, e ele decidiu acordar May-may e Ah Gip dentro de quinze minutos. Não há pressa, pensou. Não se permitiu especular sobre o que aconteceria, se a lorcha de Jin-qua não chegasse. Com os dedos tocando as quatro metades de moeda, em seu bolso, ficou meditando outra vez sobre Jin-qua. Que favores, e quando?

Agora compreendia parcialmente os motivos que haviam levado Jin-qua a fazer tudo aquilo. A queda de Ti-sen o esclarecera. Obviamente, haveria guerra. Obviamente, os ingleses iriam ganhá-la. Obviamente, o comércio começaria outra vez. Mas nunca sob os Oito Regulamentos. Então, a Co-hong perderia seu monopólio e ficaria cada um por si. Daí a extensão do comércio para trinta anos: Jin-qua, simplesmente, estava cimentando suas relações comerciais para as próximas três décadas. Essa era a maneira chinesa de agir, pensou: não se preocupar com o lucro imediato, mas com o lucro no curso de anos a fio.

Sim, mas o que realmente teria Jin-qua em mente? Por que comprar terra em Hong Kong? Por que educar um filho à maneira “bárbara”, com que objetivo? E quais seriam os favores? E agora que você concordou e prometeu, como vai fazer esses favores? Como pode garantir que Robb e Culum cumprirão a barganha?

Struan começou a pensar nisso. Ruminou uma dúzia de possibilidades, antes de chegar a uma resposta. Detestava o que sabia ser necessário fazer. Depois, tendo decidido, dirigiu os pensamentos para outros problemas.

O que fazer com Brock? E com Gorth? Por um momento, no cais, estivera pronto para ir atrás de Gorth. Mais uma palavra e ele iria ter de desafiá-lo abertamente. A honra teria obrigado — e permitido — que humilhasse Gorth. Com uma faca nas tripas. Ou com o chicote. E Culum. Em que anda metido? Por que não escreveu? Sim, e Robb, também. E que tolice terá feito Longstaff?

Os carrilhões bateram às onze. Struan acordou May-may. Ela bocejou e se espreguiçou voluptuosamente, como um gato. Ah Gip levantara-se no momento em que Struan se mexera e já estava juntando as trouxas.

— A lorcha chegou? — perguntou May-may.

— Não. Mas podemos descer e ficar preparados. May-may sussurrou algo para Ah Gip, e esta soltou-lhe os cabelos e escovou-os vigorosamente. May-may fechou os olhos e se deliciou. Depois, Ah Gip entrançou os cabelos, como faria uma Hoklo, e atou-os com um pedaço de fita vermelha, deixando a trança cair-lhe às costas.

May-may esfregou as mãos na poeira e sujou o rosto.

— O que vou fazer com você, Tai-Pan? Esta poeira suja vai destruir a perfeição da minha bela pele. Vou precisar de muito dinheiro para consertar isso. Quanto, hein?

— Mexa-se!

Ele seguiu em frente, com cuidado, desceu as escadas até a sala de jantar e depois, fazendo sinal para que as duas se sentassem, pacientemente, foi até a janela. A praça ainda estava deserta. Havia lâmpadas a óleo nas sampanas aglomeradas das cidades flutuantes. Vez por outra, cães ladravam, soavam fogos de artifício e vozes se elevavam, em discussões, e eram silenciadas, mas algumas vezes também eram vozes felizes — além do sempre presente cla-que-claque das pedras do mah-jong, atiradas sobre um convés ou uma mesa, e da cantilena das conversas. Erguia-se fumaça das fogueiras onde se cozinhava. Juncos, lorchas e sampanas enchiam o estuário. Tudo — os ruídos, cheiros e visões — parecia normal a Struan. Exceto o vazio da praça — ele supusera que estaria cheia de gente. Agora, tinham de atravessar uma extensão deserta e, ao luar, poderiam ser vistos a centenas de metros.

O relógio bateu meia-noite.

Ele espiou a praça, repetidas vezes, e ficou esperando.

Os minutos se tornaram mais longos e, depois de uma eternidade, os carrilhões