bateram o quarto de hora. Depois, a meia hora.
— Talvez a lorcha esteja no sul — disse May-may, sufocando um bocejo.
— Sim. Vamos esperar mais meia hora e, depois, iremos olhar.
Quase na hora, ele viu as duas lanternas numa lorcha que descia o rio. O barco estava distante demais para ele poder ver o olho pintado de vermelho, e prendeu a respiração, à espera. A lorcha navegava devagar, lenta e vagarosa na água. Era um sinal favorável para ele, porque as barras de prata pesariam muitas toneladas. Depois que o barco passou pela extremidade norte da Colônia, mudou de curso e se aproximou do cais. Dois dos tripulantes chineses saltaram em terra, com amarrações e as prenderam. Para alívio dele, outro chinês foi com a lanterna à proa, apagou-a e tornou a acendê-la, de acordo com o sinal combinado.
Struan observou a semi-escuridão, verificando se havia perigo. Não percebeu nenhum. Testou a escorva de suas pistolas e colocou-as à cinta.
— Sigam-me, depressa, agora!
Silenciosamente, foi até a porta da frente, destrancou-a, e guiou-as cautelosamente através do jardim. Abriu o portão, e os três seguiram depressa pela praça. Struan se sentia como se toda Cantão estivesse a observá-los. Ao chegar à lorcha, viu o olho pintado de vermelho e reconheceu à popa o homem que o levara até Jin-qua. Ajudou May-may a subir a bordo. Ah Gip pulou para dentro, com facilidade.
— Por que duas vaca cria, hein? Não poder.
— Como é seu nome? — perguntou Struan.
— Wung!
— Vaca cria minha. Desatraque, Wung!
Wung notou os pés pequenos de May-may e seus olhos se estreitaram. Ele não podia ver o rosto de May-may, porque ela mantinha o chapéu sampana bem baixo por sobre a testa. Struan não gostou da maneira como Wung hesitava, e nem de como olhava para May-may.
— Desatraque! — disse, asperamente, e cerrou o punho. Wung deu uma ordem brusca. As amarras foram retiradas e a lorcha afastou-se do cais. Struan levou May-may e Ah Gip pelo passadiço até o convés inferior. Virou em direção à popa, onde deveria estar a cabina principal, e abriu a porta. Havia cinco chineses lá dentro. Fez sinal para que saíssem. Hesitantes, eles se levantaram e foram embora, olhando May-may de alto a baixo. Também espiaram seus pés.
A cabina era pequena, com quatro beliches e uma mesa tosca, com bancos. Cheirava a cânhamo e a peixe podre. Wung apareceu à porta da cabina e ficou examinando May-may.
— Para que vaca cria? Não pode.
Struan não prestou nenhuma atenção a ele.
— May-may, você tranca porta, hein? Só abre porta quando eu bater, entende?
— Entende, sinhô. Struan foi até a porta e convidou Wung a sair, com um sinal. Ouviu o trinco ser passado, atrás deles, e então disse:
— Vamos para o porão!
Wung levou-o ao porão. Os quarenta engradados estavam empilhados em duas fileiras certinhas, contra os lados do navio, deixando uma ampla passagem entre eles.
— Que tem nas caixa, hein?
Wung parecia confuso.
— Pra quê dizê, hein? Tudo que disse Sinhô Jin-qua.
— Quantos homem sabe?
— Só os meu! Todos que sabe, ayeeee yah! — disse Wung passando o dedo pela garganta. Struan grunhiu.
— Guarde a porta.
Escolheu um engradado, ao acaso, e o abriu, com um pé de cabra. Ficou olhando para as barras de prata e, depois, tirou um dos tijolos de prata da camada superior. Sentiu a tensão de Wung e isto aumentou a sua própria. Recolocou o tijolo e a tampa do cesto.
— Para que vaca cria, hein? — perguntou Wung.
— Vaca cria minha. É isso. — Struan certificou-se de que a tampa estava bem presa, outra vez. Wung enfiou os polegares na cintura de sua calça esfarrapada.
— Comida? Pode?
— Pode.
Struan foi para o convés e testou o cordame e as velas. Havia um canhão de quatro libras na proa e outro na popa. Verificou se os dois estavam carregados e escorvados e viu se o barrilete de pólvora estava cheio e a pólvora seca. A metralha e as balas estavam prontas, e ao alcance. Ele ordenou a Wung para reunir a tripulação e pegou uma malagueta. Havia oito homens a bordo.
— Diz para trazer — disse ele a Wung — todas as facas, todas as armas de fogo para o convés, depressa.
— Ayeee yah, não pode — protestou Wung. — Tem muito pirata no rio. Muito...
O punho de Struan alcançou-o na garganta e atirou-o contra a amurada. A tripulação conversou entre si, cheia de raiva, e se preparou para avançar contra Struan, mas a malagueta erguida desencorajou-os.
— Todas as facas, todas as armas de fogo no convés, bem depressa — repetiu Struan, com voz dura.
Wung soergueu-se com dificuldade e murmurou alguma coisa em cantonês. Depois de um agourento silêncio, atirou sua faca no convés e, com má vontade, os outros fizeram o mesmo, em seguida. Struan disse a Wung para reunir as facas e amarrá-las num pedaço de saco que se encontrava no convés. Em seguida, fez a tripulação dar a volta e começou a revistar a todos. Encontrou uma pequena pistola em poder do terceiro homem e, com a ponta da coronha, bateu-lhe no lado da cabeça. Mais quatro facas caíram com ruído sobre o convés, atiradas pelos outros homens. Pelo canto do olho, Struan viu Wung atirar por sobre a amurada uma machadinha militar.
Depois de revistar os homens, ordenou-lhes para permanecerem no convés e, levando as armas consigo, cuidadosamente revistou o resto da embarcação. Não havia ninguém escondido embaixo do convés. Descobriu um esconderijo com quatro mosquetes, seis espadas, quatro arcos e flechas e três armas de ferro, atrás de algumas embalagens, e levou tudo para a cabina.
— May-may, você consegue escuta o que se passa lá em cima? — ele sussurrou,
— Sim — disse ela, também baixinho. — Você diz que podemos falar inglês certo em frente de Ah Gip. Por que não fala, agora?
— Esqueci. Hábito. Ora, garota, está tudo bem.
— Por que bateu em Wung? Ele é da confiança de Jin-qua, não?
— A carga é o imã desta viagem.
— Imã?
— Magneto. Agulha de bússola.
— Ah, entendo. — May-may estava sentada no beliche, com os cílios piscando, por causa do cheiro de peixe podre. — Vou ficar muito enjoada, se continuar aqui. Não posso subir para o convés?
— Espere até nos afastarmos de Cantão. Você está mais segura aqui. Muito mais segura.
— Quanto tempo vai demorar, antes de encontrarmos o China Cloudi?
— Pouco depois do amanhecer... se Wolfgang não cometer nenhum erro, com relação ao que combinamos quanto ao nosso encontro.
— E isso é possível?
— Com essa carga, tudo é possível. — Struan pegou um dos mosquetes. — Sabe como usar isto?
— Por que eu iria atirar com armas de fogo? Eu sou uma velha mulher cheia de medo da civilização... de grande beleza, eu concordo, mas que não quer nada com revólveres.
Ele lhe mostrou como fazer.— Se alguém, além de mim, vier à cabina, você o mata. — Ele voltou para o convés, carregando outro mosquete.
A lorcha agora estava no meio do canal, sob a lua que se erguia, pesada e funda dentro d’água, viajando cerca de quatro nós. Ainda passavam pelos subúrbios de Cantão, e ambos os lados do rio estavam cheios de vilas flutuantes enfileiradas. De vez em quando, cruzavam com barcos, sampanas e juncos, que seguiam rio acima. O rio tinha ali meia milha de largura e havia embarcações de todos os tamanhos adiante e atrás deles, descendo a corrente.
O céu dizia a Struan que o tempo ia ser bom, mas o travo do vento era suave, seco e sem frescor, incorpóreo. Sabia que esse vento iria diminuir e, mais tarde, reduziria a velocidade em que navegavam. Mas não ficou preocupado; fizera a viagem tantas vezes que conhecia intimamente os baixios, os rios e afluentes, bem como os pontos onde poderiam surgir dificuldades.