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A aproximação a Cantão era feita através de um labirinto de cursos de água e ilhas, grandes e pequenas, cobrindo uma área de cinco por vinte milhas. Havia muitos caminhos diferentes para subir o rio. E descê-lo.

Struan ficou satisfeito por estar outra vez navegando. E feliz com o fato de ter começado a viagem para o Pagode de Mármore. Oscilava, descontraidamente, de acordo com os movimentos da lorcha. Wung estava perto do timoneiro, e a tripulação espalhada pelo convés, malévola e sombria. Struan viu que o vigia da proa estava em seu lugar.

Em frente, a meia milha, o rio se bifurcava em torno de uma ilha. Nas imediações da forquilha, havia um baixio que deveria ser evitado. Struan nada disse e esperou. Ouviu Wung falar com o timoneiro, que virou a cana do leme e desviou a lorcha do baixio. Ótimo, pensou Struan. Pelo menos Wung conhecia parte dos cursos de água. Estava ansioso para ver que itinerário Wung seguiria, em torno da ilha. Ambos os itinerários eram bons, mas o do norte melhor do que o do sul. A lorcha manteve seu curso e se encaminhou para o canal norte. Struan virou-se e balançou a cabeça, apontando para o canal sul, simplesmente para o caso de Wung ter armado uma emboscada.

O timoneiro olhou para Wung, pedindo confirmação. Struan fez apenas um levíssimo movimento em direção ao timoneiro. O leme foi virado depressa e as velas adejaram momentaneamente, enquanto a lorcha tomava o novo curso.

Pra que toma esse caminho, hein? Pra que me bate? Muito ruim. Muito. — Wung foi até a amurada e olhou a noite. O vento refrescara ligeiramente e a lorcha aumentava de velocidade, enquanto eles se movimentavam em direção ao canal sul. No limite da amura, Struan fez sinal ao timoneiro para virar o leme. O barco deu a volta devagar e então, na nova amura, o vento pegou as velas adejantes. As retrancas rangeram por sobre o convés e o barco deu uma ligeira guinada, e começou a seguir em frente outra vez.

Ele mandou que as velas fossem mareadas, e navegaram suavemente por meia hora, em meio do tráfego do rio. Então, pelo canto do olho, Struan viu uma grande lorcha aproximar-se deles rapidamente, a barlavento. Brock estava em pé à proa. Struan agachou-se e disparou em direção ao leme, afastando o timoneiro. Wung e o timoneiro ficaram pasmados e começaram a conversar excitadamente, enquanto toda tripulação observava Struan.

Ele virou o leme, com toda força, a estibordo, e rezou para que a lorcha respondesse rapidamente. Ouviu a voz de Brock, fracamente: “Leme a estibordo!” e sentiu o vento fugir de suas velas. Struan virou a toda o timão, cambando na direção oposta; mas a lorcha não respondeu, e a embarcação de Brock colocou-se ao lado. Ele viu os ganchos agarrarem sua lorcha, prendendo-a firmemente. Levantou um mosquete.

— Ah, é você, Dirk, por Deus! — gritou Brock, fingindo espanto. Estava debruçado na amurada, com um largo sorriso no rosto.

— Enganchar é ato de pirataria, Brock! — Struan atirou sua faca, com o cabo na frente, para Wung. — Corte os ganchos depressa, depressa!

— Você está certo, rapaz. Peço perdão pelos ganchos — disse Brock. — Pensei que sua lorcha precisasse de um reboque. Não vejo uma bandeira no alto. Talvez tenha vergonha dela, quem sabe?

Struan viu que a tripulação de Brock estava armada e em posição de quem se prepara para agir. Gorth se encontrava no convés da popa, junto a um pequeno canhão de rodízio, e embora a arma não estivesse apontada para ele, sabia que devia achar-se escorvada e pronta para disparar.

— Da próxima vez que engancharem um navio meu, vou supor que são piratas e estourarei a cabeça de vocês.

— Permissão para ir a bordo, Dirk?

— Sim.

Brock esgueirou-se por entre o cordame de seu navio e pulou a bordo. Três homens pularam na amurada para segui-lo, mas Struan ergueu o mosquete e gritou:

— Parem aí! Liquido quem entrar a bordo sem permissão.Os homens pararam no meio do caminho.

— Muito bem — disse Brock, sardonicamente. — Esta é a lei do mar. Um capitão convida a quem gosta ou a quem quer. Fiquem onde estão! Struan empurrou Wung para a frente.

— Corte os ganchos!

O assustado chinês correu até lá e começou a cortar as cordas. Gorth virou o canhão de rodízio e Struan fez pontaria para ele.

— Afaste-se, Gorth! — disse Brock, com voz dura.

A lei do mar estava ao lado de Struan: enganchar era um ato de pirataria. E entrar a bordo armado, sem permissão, constituía pirataria, e nenhuma das leis inglesas era tão zelosamente protegida ou colocada em vigor como as referentes a navios no mar e aos poderes de um capitão, enquanto navegasse. Para a pirataria, só havia uma punição: enforcamento.

Wung cortou o último cabo e os barcos começaram a se afastar um do outro. Quando a lorcha de Brock estava a trinta pés de distância, Struan depôs o mosquete e gritou:

— Se chegar a cinqüenta pés de distância sem permissão, por Deus, vou acusar você de pirataria! — Depois, recostou-se na amurada. — O que quer dizer tudo isso, Tyler?

— Eu poderia fazer a mesma pergunta a você, Dirk — disse Brock, em tom despreocupado. — Eu vi você se enfiar naquela sampana ontem. — Seus olhos brilharam, à luz da lanterna. — Vi você, vestido estranhamente como um cule, voltar para a feitoria. Estranho, disse eu. Talvez o velho Dirk tenha enlouquecido. Ou talvez o velho Dirk precise de uma mão, para sair a salvo de Cantão. Então seguimos pelo rio e depois voltamos e ancoramos ao norte da Colônia. Vimos você a bordo desta embarcação fedorenta. Você e duas putas.

— O que eu faço só interessa a mim.

— Sim, é verdade.

A mente de Struan estava fervendo. Sabia que a lorcha de Brock era muito mais veloz do que a sua, a tripulação perigosa e bem armada, e não poderia enfrentá-la sozinho. Amaldiçoou a si mesmo por ter sido tão confiante e não se manter vigilante.

Mas, mesmo assim, você não poderia ter visto Brock esgueirar-se rio acima. Como escapar de Brock? Deve haver alguma maneira. Ele pode facilmente cair em cima de você durante a noite e, mesmo que você sobreviva, poderá provar muito pouco. Brock alegaria ter sido um acidente. Além disso, May-may não sabe nadar.— Esta banheira velha está lenta na água. Será que está vazando? Ou não será o peso da carga?

— O que tem na cabeça, Tyler?

— Boatos, rapaz. Havia boatos a manhã inteira, ontem. Antes de partirmos. Boatos a respeito da prata de Ti-sen. Ouviu falar nisso?

— Havia dúzias de boatos.

— Sim. Mas todos diziam que havia um resgate de rei em Cantão. Andei pensando a respeito. Até ver você voltar. E achei muito interessante. Depois da aposta de vinte mil guinéus. Muito interessante. Você entra numa lorcha pesada, como um ladrão de noite, e se dirige para o sul, pelo canal errado. — Brock espichou-se e, depois, coçou a barba, vigorosamente. — O velho Jin-qua não está por aí, está?

— Ele está fora de Cantão.

— O velho Jin-qua é um cão seu. Ou melhor — disse Brock, com um olhar astuto

— ele é um empregado seu, não?

— Vá direto à questão.

— Não tem pressa, rapaz. Não, por Deus! — Brock olhou para a proa de sua lorcha. — Tem o nariz leve, não?

Ele referia-se ao espigão de ferro de um pé quadrado que se projetava até uma distância de seis pés da proa, logo abaixo da linha-d’água. Struan inventara o esporão, há muitos anos, como método simples de perfurar e afundar um navio. Brock e muitos comerciantes da China o adotaram.